Os ciganos vão participar na Cimeira Europeia do dia 16 de setembro em Bruxelas. Inicialmente, esta reunião dos 27 chefes de Estado e de Governo da União Europeia e do respetivo chefe da diplomacia, iria abordar unicamente a nova política externa europeia. Mas a crise entre a França e as instituições europeias tomou proporções preocupantes e o assunto foi acrescentado in extremis à ordem de trabalhos.

Não é a primeira vez que Paris e Bruxelas se encontram em crise. Até à data, o pomo da discórdia versava questões económicas, como a política da concorrência, os défices, a política industrial ou a política agrícola comum. Desta vez, o conflito abrange os valores fundamentais da Europa e traz à memória o confronto que opôs a União Europeia e a Áustria, em 2000, por ocasião da chegada ao poder da extrema-direita de Jörg Haider. O conflito entre Paris e Bruxelas, que se arrasta desde agosto, estalou com a divulgação, no passado fim de semana, de uma circular do Ministério do Interior que refere especificamente os ciganos, quando o Governo francês tinha garantido à Comissão Europeia que as expulsões não visavam nenhum grupo étnico em particular. No passado dia 14 de setembro, Viviane Reding anunciou a sua intenção de processar a França no Tribunal de Justiça Europeu por discriminação étnica, e acrescentou: “Pensava que a Europa nunca mais iria testemunhar uma situação deste género depois da II Guerra Mundial…” Em vez de procurar apaziguar os ânimos, Pierre Lellouche, secretário de Estado dos Assuntos Europeus, respondeu-lhe brutalmente: ”A paciência tem limites, ninguém se dirige assim a um grande Estado”, horas antes de o chefe de Estado reforçar essa arrogância e desprezo.

Esta ruinosa gestão política faz com que a França esteja muito isolada na União Europeia. Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, manifestou o seu apoio "pessoal" à sua comissária e sublinha que "a lei comunitária é para ser cumprida". A Alemanha lembrou que a Comissão Europeia tinha "o direito" de pedir explicações à França, pois os tratados europeus, e o Tratado de Lisboa, negociado por Nicolas Sarkozy, conferem-lhe competências em matéria de liberdades públicas. Mas, e Nicolas Sarkozy sabe isso, a maior parte dos países europeus pratica uma política igual à da França relativamente aos ciganos, que não são desejados por ninguém, evitando, no entanto, a retórica um pouco xenófoba da direita francesa. A Alemanha celebrou um acordo com o Kosovo que prevê o repatriamento de 12 mil ciganos – dos quais, cinco mil são crianças – que se encontram lá refugiados há mais de dez anos.

Ou seja, Paris será apenas culpada de ter dito, alto e bom som, o que os outros fazem em silêncio, o que poderá valer-lhe algum apoio por parte dos seus pares na Comissão Europeia. A França poderá, assim, ser capaz de sair por cima de toda esta crise se conseguir que os ciganos passem a ser uma questão europeia a carecer de uma solução europeia. Será Nicolas Sarkozy capaz disso ou irá preferir manter a sua retórica bélica, com a França contra o resto do mundo?