Será que ainda ninguém percebeu que, em 25 anos de democracia, não fizemos mais nada senão repetir o seguinte esquema: Salvador – PS (Partido Socialista, ex-comunista, na oposição) – Salvador – PS – Salvador – PS… como se o sistema estivesse empanado.

E, depois, o que acontece é que na Bulgária os salvadores que nos livram dos ex-comunistas têm um prazo de vida muito limitado enquanto o PS parece indestrutível. Uma constatação interessante, não?

Mas agora a situação é um pouco diferente. O Salvador Boiko Borisov não gastou completamente os seus recursos, também não está completamente desacreditado, como esperavam os socialistas. E, até prova em contrário, não temos nenhum outro Salvador no horizonte. Talvez seja até demasiado tarde para que possamos ter um verdadeiro – sincero, claro e honesto. Assim sendo, temos de nos contentar com o que temos. Por isso, eis quatro cenários que vejo poderem perfilar-se após a demissão de Boiko Borisov.

1. Cenário grego

Primeiro cenário: depois de ontem, um cenário grego deixou de ser uma ficção para os búlgaros. Não sabemos nada sobre o programa, tal como não sabemos nada sobre a composição do próximo governo técnico, ou de peritos, que terá como missão preparar o terreno para as eleições legislativas de julho. Mas não devemos ter grandes esperanças. Porque hoje temos um jogo que não foi jogado até ao fim por causa da partida súbita de uma das equipas em campo. Por isso, tudo dependerá, mais uma vez, da transparência e da honestidade do próximo escrutínio. E o cenário grego resume-se a isto: o aparecimento de um movimento fascista, seja ele de direita ou de esquerda, uma espécie de Aurora Dourada local que tirará partido desse eterno braço de ferro entre o PS e o Salvador. Já tivemos uma antevisão disso mesmo ao olharmos para os cabeças rapadas de algumas das manifestações que gritavam “tudo podre!”. E como todos os outros partidos estão “podres”, o Aurora Dourada à moda búlgara tem à sua frente uma larga avenida que nos fará lamentar amargamente os nossos nacionalismos tradicionais.

2. PS no poder

Segundo cenário: o PS chega ao poder. Mas um governo dominado pelos socialistas estará em condições de garantir a prosperidade do país? É pouco provável. Porque, tal como os outros representantes da esquerda europeia, também a nossa se vai pôr a gastar dinheiro sem fazer contas. Porquê? Para manter a sua boa imagem junto dos desempregados que, como sabemos, têm mais tendência para votarem á esquerda do que os trabalhadores. Viveremos durante alguns anos num doce torpor, mas depois teremos novamente de esperar pela chegada de um Salvador! Voltaremos, por isso, à casa de partida.

3. Paralisia das instituições

Terceiro cenário: um Parlamento completamente bloqueado. Até agora, as sondagens dão um empate entre o PS e o partido do primeiro-ministro, o Gerb (conservador): 29% das intenções dos votos para cada um. Se a relação de forças se mantiver, teremos uma assembleia que mais parece um carro sem travões transportando um urso, uma serpente e um ilusionista sem que se saiba quem conduz. O mais provável é o carro bater. E então, será o Movimento para os Direitos e as Liberdades (MDL, partido representante dos muçulmanos da Bulgária) que pegará no volante mas, sem poder governar sozinho, o MDL irá coligar-se com o PS – um cenário que conhecemos muito bem. Por isso, também aqui voltaremos à casa de partida.

4. Borisov num cavalo branco

Quarto cenário: Boiko Borisov ganha de maneira clara as eleições e volta montado num cavalo branco – será novamente o Salvador. É possível? Sim, porque alguns milhares de pessoas a protestarem o preço da eletricidade, conduzidas por duzentos arruaceiros, não são o eleitorado. Se isso acontecer, o PS vai certamente mobilizar as suas tropas para gritar, nas ruas, que as eleições foram “manipuladas”. Borisov não é o político mais odiado do país. Depois dos últimos acontecimentos, espero apenas que ele agora tenha percebido que também não é o mais amado. Mas quem já riscou o seu nome da agenda política está completamente enganado.

Existe outro cenário? Espanta-me ouvir alguns idiotas dizerem que não querem nenhum dos políticos conhecidos – ou desconhecidos. É uma verdadeira calamidade, porque essas pessoas são cada vez mais numerosas na Bulgária. Mas a política e os que a fazem são um mal necessário. É a vida e ainda não encontrámos melhor.