Foram colocadas filas de cadeiras em plástico, como todos os domingos, ao lado dos velhos bancos de madeira. A nave barroca ligeiramente deteriorada de Santa Eufemia está cheia. É uma paróquia tipicamente milanesa situada perto de Porta Romana, um bairro da Lombardia que tem vindo a seduzir cada vez mais a burguesia. Peles de visão e loden coabitam com blusões e fatos de treino. Moram famílias, alguns idosos e muitos jovens. Cerca de 30% dos italianos vão, em média, uma vez por semana à missa, mas há mais praticantes na diocese de Milão, a mais importante do mundo.

Após a missa, pequenos grupos discutem as próximas eleições. “O comportamento imoral de Berlusconi repugnou-nos, mas além da questão moral, há também todas as reformas prometidas que não foram aplicadas durante 18 anos”, indigna-se Matteo, professor numa escola católica. “Todos nós devemos interrogar-nos, de plena consciência, quais são hoje em dia as principais urgências e qual é o partido mais adequado. Mas a resposta nunca foi tão difícil”, acrescenta Riccardo, licenciado em Letras e desempregado. Como ele, milhares de jovens católicos da Lombardia fazem “voluntariado”, tratam de doentes num hospital psiquiátrico e dão aulas de apoio escolar.

Pogressistas versus CL

Do outro lado da cidade, perto de Sesto San Giovanni, um bairro industrial em crise chamado “Estalinegrado italiana” devido ao seu voto comunista massivo, está a Fundação da Casa da Caridade, instalada numa antiga escola primária. Este estabelecimento acolhe imigrantes em situações precárias, desempregados sem recursos e, consequência direta da crise, alguns empreendedores falidos. “Temos uma sociedade civil animada e criativa, mais ainda não encontrou a sua representação política”, lamenta Don Virginio Colmegna, figura notória da esquerda cristã milanesa, partidário do socialismo. Cerca de 33% dos italianos continuam sem saber em quem vão votar. Há muitos católicos nesta posição, nomeadamente na Lombardia, que representa um fator eleitoral crucial. O grande prémio de maioria, atribuído aos partidos na liderança, é calculado numa escala nacional pela Câmara dos deputados, mas no caso do Senado o cálculo é feito região por região. Se vencerem na Lombardia, a direita conseguirá muito provavelmente manter a maioria na Câmara Alta.

Em Milão, e sobretudo no resto desta região constituída por mais de 10 milhões de habitantes – sendo de longe a mais povoada, rica e produtiva da península -, os movimentos católicos representaram sempre uma força política e cultural. Por um lado, existem os progressistas, que se identificam com a mensagem do falecido cardeal Carlo Maria Martini, jesuíta de muito prestígio, que foi de 1980 até 2002 o arcebispo da cidade. Por outro, há os que, tal como Jean Paul II, defendem sobretudo a supremacia dos valores católicos, como o movimento Comunhão e Liberação (CL). O atual arcebispo, o cardeal Angelo Scola, um dos grandes favoritos para a sucessão de Bento XVI , é próximo deste movimento, que tem um peso político determinante na região devido às suas diversas redes na sociedade e na economia. Enquanto os progressistas optaram claramente pela esquerda e o Partido Democrata, os outros – nomeadamente o CL, que apoiou Silvio Berlusconi durante anos – mostram-se perplexos. A hesitação de uma boa parte dos católicos da Lombardia é de tal forma palpável que Roberto Formigoni, o todo-poderoso presidente da região durante 17 anos e membro do CL, foi obrigado a demitir-se por ser acusado de corrupção.

Não desbaratar os sacrifícios

A hierarquia católica apoiou durante muito tempo Il Cavaliere, mas, desde o início do outono de 2011, bem antes de ser obrigado a demitir-se devido à pressão dos mercados, esta partiu para a ofensiva, alegando a urgência de uma renovação ética. “Não se trata de dar indicações para votar, mas de reafirmar princípios e refletir sobre a forma como reforçar a presença da sociedade civil de forma a reavivar a política”, explica Massimo Ferlini, dirigente milanês e vice-presidente nacional da Companhia das Obras. Uma rede de cerca de 40 mil PME, cuja quase metade se encontra instalada na Lombardia, com um peso financeiro de 70 mil milhões de euros de volume de negócios. Tem empresas que operam na saúde, na restauração, no tratamento dos detritos, nas biotecnologias ou nas altas tecnologias, mas patrocinam também bancos alimentares ou farmacêuticos para ajudar os mais desfavorecidos. Os seus adversários veem nisso a força de intervenção do CL e o coração de um sistema de poder que assente na administração regional.

Para Massimo Ferlini, antigo quadro dos Jovens Comunistas, o mais importante é “rumar à Europa” e não desperdiçar os sacrifícios impostos há mais de um ano por Mario Monti e o seu Governo de técnicos. Muitos tomaram a mesma decisão, incluindo eleitos de primeiro plano como o deputado europeu Mario Mauro, que se demitiu do partido de Berlusconi, o Povo da Liberdade (PDL). Outros continuam fiéis a Il Cavaliere, por não verem outras alternativas credíveis.

A região pode oscilar?

“Os católicos nunca estiveram tão divididos entre as diferentes forças políticas, mas talvez seja o momento oportuno para reavivar uma esquerda com falta de visão através dos seus valores humanistas comuns”, defende Paolo Sorbi, o chefe da formação comunista e revolucionária Lotta Continua, antigo membro da revolução de 1968, que voltou a mostrar imenso interesse pela religião católica ao ponto de ser, durante muitos anos, um dos dirigentes milaneses do Movimento para a Vida. Desta vez, está mais inclinado para o Partido Democrata. Na medida em que tem candidatos do mundo católico ou que realizam campanhas baseadas em temas muito apreciados pelos cristãos.

“Nestes últimos 20 anos, presenciámos os efeitos devastadores do egoísmo e da arrogância individualista”, repete Umberto Ambrosoli, que recorda “que um valor, o da legalidade, está na base do seu compromisso”. Estreante político, este jovem advogado e filho de Giorgio Ambrosoli (advogado conceituado assassinado em 1979 pela máfia), defende as cores da esquerda para a presidência da região após ter vencido as eleições primárias. Há dois anos, nas eleições regionais, Roberto Formigoni conquistava a Lombardia pela terceira vez com 54% dos votos.

Será que esta região, tradicionalmente de direita, vai virar à esquerda, como o fez a cidade de Milão no ano passado? Umberto Ambrosoli e Roberto Maroni, líder da Liga do Norte e aliado de Berlusconi, estão lado a lado nas sondagens. Muitos católicos não querem ver este partido com tendências secessionistas a ficar com a Lombardia porque já controla outras regiões do norte. E os relentos xenófobos da Liga do Norte irritam muitos crentes.