Angela Merkel tem feito de tudo para desviar o perigo de novos surtos de instabilidade na Europa da sua eleição de setembro. Em Itália, jogou forte em Monti, sem, no entanto, ir além de repetidas declarações de estima, com medo de repetir o efeito de bumerangue que teve, no ano passado, o seu apoio explícito a Nicolas Sarkozy, em França.

Depois disso, tentou compor a situação com François Hollande. E para salvaguardar a tranquilidade dos mercados, foi mesmo ao ponto de "despenalizar" o desrespeito de Paris pelos compromissos de redução do défice, formalizando por carta da Comissão Europeia a nova linha de abrandamento da execução das normas, interiorizando os efeitos produzidos em Portugal, Grécia e Espanha.

A estratégia da chanceler não funcionou. A resposta italiana nas urnas reabriu dramaticamente a chaga da instabilidade, dentro e fora de fronteiras. Como era previsível, os mercados voltaram ao ataque. A Europa treme e sonha em colocar a Itália sob tutela, para travar os danos, na eterna ameaça de retorno ao campo dos países sob alta vigilância, onde já habitam Grécia e companhia.

Grumos vêm à superfície

Na realidade, a crise de nervos eleitoral de Itália ultrapassa em muito a dimensão do descontentamento nacional e coloca a Europa, sempre esquiva, perante um conjunto de verdades incómodas. Coloca-lhe diante do nariz os grumos voluntariamente deixados na sopa e que começam a vir à superfície.

O que pode colocar o euro novamente à prova. Não tanto devido à nova explosão da questão italiana, mas porque a Itália, a terceira maior economia do clube do euro, tem interferência em todos os problemas da moeda única que até agora tentaram consertar à pressa, ou melhor, meteram apressadamente para baixo do tapete.

A votação de domingo e segunda-feira diz muito sobre a saturação geral em relação às políticas de austeridade e aos impostos, num país prostrado pela recessão e o desemprego. Expressa sobretudo a revolta contra os mandarins de um sistema que, tendo decidido entrar no círculo da moeda única, não fizeram as escolhas necessárias para lá se manterem. Não se modernizou. Não foram introduzidas reformas. Não se liberalizou com vista a tornar a economia mais competitiva e em sintonia com os seus parceiros. Este sistema criou apenas a ilusão aos italianos de que podiam continuar a desenrascar-se como antes, perpetuando clientelismos, dos mais pequenos aos mais chorudos, sem nunca pagar o preço.

Rigor das reformas à alemã

Mas os italianos não são os únicos na Europa que não mediram as consequências da escolha da moeda única. Daí o dilema de "mais ou menos Europa", "ficar ou sair do euro". O dilema não é apenas italiano: mas é um tabu, muito mais difundido do que se pensa, entre os membros do clube do euro e os que aspiram a entrar nele.

A questão agrava-se continuamente desde há quatro anos, num contexto de crise, e o clube não parece ter outra resposta que não o dogmatismo do rigor e das reformas forçadas à alemã, sem o amortecimento do crescimento e menos ainda da solidariedade intraeuropeia. Isto para não falar da recusa em recorrer à dinâmica democrática normal, em nome de uma opção tecnocrática supostamente mais eficaz.

Entretanto, agrava-se a divisão Norte-Sul e a Europa e respetiva indústria continuam a perder pontos no mercado global. Os sacrifícios não agradam a ninguém. Muito menos àqueles que, por toda a parte, observam que "a Europa tem dinheiro para salvar os bancos, mas não para relançar o crescimento e o emprego". Os mercados, por seu turno, precisam de garantias sobre o futuro e a integridade do euro para recuperarem a calma. Basta a que lhes é oferecida pelo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi? E até quando, agora que a Itália pode ter aberto a caixa de Pandora, expondo à vista de todos os excessivos problemas não resolvidos em torno do euro e da UE?

Momento da verdade adiado

Enquanto o consenso popular relativamente à Europa se desintegra por toda a parte, a moeda única precisa paradoxalmente de acelerar a sua integração para resistir aos problemas internos, promovendo a ratificação da tripla união – bancária, política e fiscal. Precisa de decidir, de uma vez por todas, se realmente aceita um destino partilhado a todos os níveis e seguindo o modelo alemão, agora dominante e invasivo, determinada a levá-lo até ao fim.

As eleições alemãs deste ano e as eleições europeias de 2014 congelaram temporariamente o debate e as negociações, adiando por alguns meses o momento da verdade e as escolhas entre as inúmeras contradições de que é feita a Europa. Mas as inquietações permanecem e crescem até, um pouco por toda a parte. Inclusivamente na França de François Hollande.

Um abrandamento do rigor por parte de Angela Merkel bastará para acalmar os mercados e aguentar até setembro, sem grandes problemas? A Itália fez soar o alarme, um alarme estridente. É perigoso ignorá-lo. Para a Europa e para todos.