A criação de uma diplomacia da União Europeia, a que no jargão de Bruxelas se chama Serviço Europeu para a Ação Externa (SEAE) – uma ideia antiga e, ainda há dez anos impensável -, não alterou significativamente a situação: o Tratado de Lisboa, apesar de ser o ato fundador da diplomacia de Catherine Ashton, não define a política externa comum. E como poderia, afinal, estabelecer regras que dependem da vontade de Governos democraticamente eleitos?

As primeiras 28 nomeações para os postos de embaixador da UE em África, nas Américas, na Europa e na Ásia, recentemente decididas pela chefe da diplomacia europeia, dão que pensar. É verdade que foi ultrapassada uma nova etapa para uma política externa comum, mas a UE ainda tem pouco peso no contexto mundial. Não é, provavelmente, a rede de 136 embaixadas, mesmo que nelas estejam os diplomatas mais brilhantes, que vai resolver o problema. Nem mesmo o centro de crise recentemente criado junto da Sra. Ashton, apesar dos pontos de vista e das análises de mais de uma centena de eminentes peritos de todo o continente.

A UE é a grande ausente dos principais dossiês internacionais. Não há Europa nas negociações de paz do Médio Oriente, e o seu apoio aos Estados Unidos, no confronto com Teerão sobre o programa nuclear, é quase nulo. E retira-se lentamente do Afeganistão. O seu único sucesso internacional foi ter reaproximado a Sérvia da sua antiga província, o atualmente independente Kosovo.

A arma fatal de Ashton: uma cópia do Tratado de Lisboa

Sem se poder apoiar na autoridade de uma União ativa no mundo, Catherine Ashton é demasiado fraca para defender a posição europeia. De facto, de que ameaças dispõe? A sua arma fatal será uma cópia do Tratado de Lisboa? O seu meio de pressão será o anúncio do fecho de uma das embaixadas da União Europeia? Ainda há pouco tempo parecia possível que a Europa pudesse ter um papel de líder nas negociações sobre as alterações climáticas, mas o fracasso da cimeira de Copenhaga, em dezembro de 2009, desfez todas as desilusões.

A autoridade da Europa e a confiança em si própria ficaram gravemente abaladas. Os membros da União, ainda que sejam tão importantes como a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha, têm pouco peso na cena internacional. A verdade é que, depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa e as suas potências deixaram de ser o umbigo do mundo. Hoje, a Europa é ao mesmo tempo demasiado frágil para o dirigir e demasiado grande para ficar à margem das questões mundiais. Com um PIB superior a 28% do PIB mundial, a UE é um gigante económico e um anão político.

Consequentemente, os Estados Unidos, a Rússia, a China, a Índia ou o Brasil preferem conversar em separado com cada um dos países europeus, em vez de falarem com a União no seu conjunto. Segundo Cornelis Ochmann, especialista em política externa da Fundação Bertelsmann, os países da UE definirão, num primeiro momento, os objetivos comuns em matéria de política internacional, área em que as diferenças entre os interesses nacionais são menos marcadas. É este o caso para uma parte da Ásia, da África e da América do Sul.

Londres não sabotará a diplomacia da UE

A política europeia comum não verá a luz do dia na chancelaria da Sra. Merkel, nem tão-pouco no Eliseu ou no nº 10 de Downing Street. Na opinião do eurodeputado Jacek Saryusz-Wolski, [ex-presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento Europeu] far-se-á pela cooperação entre as capitais europeias, o Parlamento Europeu e a diplomacia de Ashton. Só assim se tornará uma política conseguida e equilibrada, ou seja, que tem em conta os interesses muitas vezes divergentes dos pequenos e grandes países, do Parlamento e dos chefes da diplomacia europeia.

Cornelius Ochmann sublinha, no entanto, a inevitabilidade da regionalização progressiva da política externa. Por exemplo, é perfeitamente evidente que a França, escudada pela Itália, ou por Portugal, estará sempre em primeiro plano em África e nos países mediterrânicos.

Os espanhóis e os portugueses estarão no centro do palco da política da UE para a América Latina; a Alemanha e a Polónia (com o apoio da França) vão ocupar-se, por seu lado, das relações com a Rússia e com os vizinhos da UE que fazem parte da Parceria Oriental. E que dizer da Grã-Bretanha? Uma forte presença dos britânicos na diplomacia da UE e o facto de Ashton ser inglesa, significa que Londres talvez não seja a força motriz da diplomacia da UE, mas também significa que não a sabotará.

Dois, três ou mais de dez anos para uma política externa comum?

Mais cedo ou mais tarde, as políticas regionais somar-se-ão a uma política externa comum da UE, mesmo com as opiniões dos especialistas a divergirem sobre o lapso de tempo que levará tal processo. Segundo uns, bastarão dois ou três anos, outros falam de uma década.

Há várias áreas em que a Europa poderá desempenhar um papel importante. Em África, por exemplo, onde a China investe milhares de milhões no comércio e na indústria, a Europa e os Estados Unidos gastam milhares de milhões em ajuda humanitária e apoio ao desenvolvimento. Porque é que, em vez de concorrerem entre si, não coordenam esforços em benefício das populações africanas? Esse mesmo modelo de cooperação deveria ser aplicado noutras partes do mundo.

É inútil lembrar que a União tem todo o interesse em gerir bem o processo de alargamento da União aos Balcãs. É igualmente do seu interesse conversar francamente com a Turquia, quer seja para acelerar as negociações e aceitar a adesão turca, com todas as consequências que isso implica, quer seja para romper as negociações de adesão, baseando a sua relação com Ancara numa parceria estratégica, de que a Europa precisa certamente mais do que a Turquia.

A União deve usar o seu potencial. A diplomacia de Ashton é uma boa operação, mas agora é preciso encher esses canais diplomáticos com conteúdo, coisa que tem faltado frequentemente. A Europa não pode permitir-se continuar a perder tempo.