Imparcial, mas uma verdadeira aposta para os 400 jornalistas de três dezenas de nacionalidades com outros tantos olhares sobre o mundo. Para isso, “temos os mecanismos de segurança”, insiste François Chignac, chefe de redação adjunto. A começar pela organização da redação, dividida por secções (Mundo, Economia, etc.), cada uma delas com onze jornalistas. Um por cada uma das línguas difundidas na Euronews – os gregos são um grupo à parte.

“Esta diversidade constitui um desafio permanente, explica Pedro Lasuen, chefe da secção de Desporto. Eu próprio sou de um país, a Espanha, que não cobre os desportos de inverno. E quando o jornalista inglês propõe um assunto sobre críquete, toda a secção treme!” Apesar das regras apertadas que regem a escolha dos assuntos, “há sempre alguém que não concorda, reconhece. Todos os jornalistas querem satisfazer os telespetadores dos seus países”.

Assim que se decidem os assuntos e se escolhem as imagens, aos onze jornalistas compete redigir na sua língua materna um comentário que irá diferir do dos colegas. Uma questão de estilo, própria de cada cultura. Mas também de hierarquização da informação, em que cada um se adapta à sua audiência. “Relativamente ao Mali, o jornalista francófono aponta o número de soldados estendidos no chão, o ucraniano, não”, ilustra François Chignac. A forma muda, mas não o fundo, assegura: “As imagens têm primazia”.

Garantia de neutralidade

No entanto, acontece, em raras ocasiões, os comentários divergirem. Miguel Sardo teve essa experiência em 2002, no naufrágio do Prestige ao largo da Península Ibérica. “A questão estava em saber se a costa tinha ficado exposta a uma maré negra, recorda este jornalista português. O chefe de edição, espanhol, recordou a posição muito prudente do seu Governo. Mas tinha ao meu lado informações da Marinha portuguesa sobre as manchas de petróleo que ameaçavam a costa…”

Há temas recorrentes ainda mais sensíveis. Como apresentar a ETA, a organização terrorista basca, durante muito tempo considerada de forma diferente em Espanha e em França? Visto que os títulos que aparecem no ecrã são comuns a todas as edições, será que podemos aplicar a expressão “genocídio do povo arménio”, quando os massacres de 1915 não são reconhecidos como tal pela Turquia, cujo canal de televisão – a TRT –, à semelhança de outros canais públicos, é acionista da Euronews? “Dou comigo a ouvir os apelos à prudência, mas a verdade é que beneficiamos de uma grande liberdade”, refere um jornalista. “É um peso que nos impede de aprofundar determinados assuntos”, critica um outro.

“É importante ter em consideração as diferentes sensibilidades nacionais”, reconhece Lucian Sârb, diretor romeno da redação. Sem sacrificar a informação, acrescenta logo este amante dos “factos”. “Levámos vinte anos a fazer da Euronews o mais imparcial canal de informação.” Idêntico discurso tem Ali Ihsan Aydin, “chefe de língua” dos jornalistas turcófonos, grupo que inclui uma arménia e um curdo. “A aproximação coletiva impede os jornalistas de fazerem de advogados em causa patriótica, insiste. É uma verdadeira garantia de neutralidade.” E de qualidade, defendem os jornalistas. “Para verificar a pronúncia de um nome ou contactar fontes locais, temos sempre um colega do país em questão”, sublinha o iraniano Babak Kamiar.

Melhor canal de informação em contínuo

Claro que a “escrita” da Euronews se ressente. “A melhor solução é uma pessoa manter-se neutra, sem ser aborrecida”, confessa Pedro Lasuen, chefe da secção de Desporto, que organiza um torneio de futebol interno, onde se alinham equipas por uma vez reunidas sob a mesma bandeira. O último vencedor foi a administração que, para o torneio, criou uma equipa… multinacional.

Ainda falta um ano. No hall de entrada da Euronews, um ecrã conta os segundos que faltam para a mudança do canal para a ponta da quase ilha de Lyon. A Euronews vai emitir a partir da cidade onde começou a sua atividade, a 1 de janeiro de 1993, em cinco línguas (Alemão, Espanhol, Francês, Inglês e Italiano).

Vinte anos mais tarde, a Euronews reivindica o lugar de melhor canal de informação em contínuo na Europa, com 3 milhões e 400 mil telespetadores por dia, muito à frente da CNN (um milhão e 600 mil) e da BBC World (um milhão e 200 mil). Apesar da crescente concorrência dos canais de informação nacionais, a Euronews continua a desenvolver-se. Depois do Árabe, do Turco, do Persa e do Grego, o Húngaro será este ano a décima terceira edição linguística da Euronews, que difunde a sua programação para todo o mundo desde 2004. Hoje, os acionistas que detêm a maior parte do capital são a France Télévisions, a Rai (Itália), a RTR (Rússia), a TRT (Turquia) e a SRG SSR (Suíça).