A estupidez política é muitas vezes a fachada de uma complexidade profundamente enraizada; nomeadamente quando se trata de uma coligação. Esta semana, é provável que seja apresentada uma alteração para protestar contra o facto de o discurso proferido pela Rainha não ter feito qualquer referência ao referendo, dando assim origem a uma situação inédita.

Os deputados conservadores vão poder votar sobre a moção apresentada por dois dos seus membros, John Baron e Peter Bone, enquanto os membros do Governo deverão simplesmente abster-se. No entanto, alguns ministros liberais democratas tencionam complicar a situação ao votar contra, expressando assim as suas convicções pró-europeias.

A resposta do número 10 de Downing Street foi digna de Confúcio: “Quando um rato entra numa sala, podemos dizer ‘olha um rato’, ou então saltar para cima da mesa e gritar”. É seguro dizer que o rato neste conflito é o referendo sobre a UE, ou talvez a própria alteração, e que o grito representa toda a agitação criada pelas classes políticas e os meios de comunicação.

Era de fragilidade institucional

A aversão que o primeiro-ministro tem aos climas de pânico ajudou-o imenso ao longo dos anos, nomeadamente num Governo bipartidário. David Cameron tem razão em queixar-se pelo facto de alguns membros do seu partido se comportarem como se os conservadores não fizessem parte de uma coligação, ou como se os liberais democratas pudessem ser ignorados. O que deveria preocupar Cameron é a grande falta de confiança que existe entre ele e um núcleo importante de deputados conservadores. Ao pedir um projeto de lei sobre o referendo, estão de certa forma a dizer: tivemos em consideração tudo o que disseste sobre Clegg e os liberais democratas, e o que podes e não podes fazer, mas, mesmo assim, queremos isso tudo por escrito.

Neste contexto, é de admirar que o discurso proferido em janeiro pelo primeiro-ministro sobre a relação entre o Reino Unido e a UE – em que prometeu a realização do primeiro referendo sobre a nossa adesão desde 1975 – tenha tido tão pouco impacto no debate que deveria supostamente acalmar, ou na ascensão do Partido da Independência do Reino Unido. Segundo um lealista do Governo: “o povo não confia em nós”.

Citando o [diretor de comunicação e estratégia de Tony Blair] Alastair Campbell “não há nada mais importante do que a confiança”. A sensação de que Cameron não conseguirá cumprir a sua promessa de realizar um referendo sobre o Tratado de Lisboa da UE agravou a herança já deplorável deixada pelas despesas dos deputados, o tema do Iraque, a corrupção e muito mais. Vivemos numa era de fragilidade institucional: o parlamento, a imprensa, o setor financeiro, a BBC, todos eles ficaram traumatizados pelos escândalos e as manipulações que abalaram o país. E nunca antes os políticos tinham sido tão controlados: a revolução digital tem como efeito paradoxal forçar os políticos que governam o país a serem honestos, sem no entanto reforçar a confiança do povo nos mesmos.

Boris e Farage: grandes políticos

Já não tem nada a ver com a elite impecável do final do século XX e início do século XXI. Os que apontam para Boris Johnson ou Nigel Farage dizendo que não têm estofo para governar tentam apenas reforçar a sua reputação e angariar eleitores. O presidente da Câmara de Londres e o líder do UKIP têm sucesso pela sua honestidade – verdadeiros seres humanos que não foram criados em laboratórios e que dizem o que pensam em vez de se comportarem como papagaios.

Na verdade, são ambos grandes políticos; Boris é o presidente da Câmara de uma cidade cosmopolita que recebeu os Jogos Olímpicos, enquanto Farage está por detrás de uma estratégia eleitoral muito hábil que sugere claramente que os seus talentos vão além do seu charme e elegância. Têm noção de que um eleitorado profundamente desconfiado valoriza acima de tudo a “autenticidade”.

Além de ter caído drasticamente na consideração dos eleitores, Cameron também tem de se adaptar às mudanças não menos drásticas nas fundações da UE. O falecido escritor Hugo Young explicou na perfeição as relações que o Reino Unido mantinha com a Europa dizendo, no seu livro This Blessed Plot, que a “falta de realismo” era algo inerente aos eurocéticos. Escrito em 1998, Young realçou: “O mundo que defendiam parecia, no final, ser nostálgico e limitado: assombrado por demónios e torturado por conflitos existenciais”.

Mas 15 anos depois, o mundo no qual vivem e a UE mudaram. O Continente é abalado pela crise da zona euro e já não é tão fácil argumentar que o Reino Unido poderia ficar prejudicado economicamente com a sua saída da UE. Lord Lawson escreveu um artigo na semana passada na revista Times que apelava à saída do país:

“O cerne da questão é que o contexto económico relevante já não passa pela Europa mas pela globalização, nomeadamente o comércio livre a nível mundial, supervisionado pela Organização Mundial do Comércio.”

Liderança dos conservadores criticada

Lawson é um amigo próximo de George Osborne, e o seu artigo reflete uma posição que, certamente, já discutiu com figuras seniores dos Tories na coligação. O artigo de Michael Portillo, publicado na mesma revista, foi mais duro, mais hostil à posição de Cameron e criticou fortemente a liderança do Partido Conservador.

Não nos podemos esquecer de que Portillo não é apenas o responsável pela modernização do partido conservador como também o protegido da Dama de Ferro [e antiga primeira-ministra Margaret Thatcher]. Ao afirmar que o Reino Unido e a UE têm objetivos demasiado diferentes, um problema que não pode ser “resolvido com uma pequena renegociação”, estava-se a dirigir, penso eu, à maioria dos deputados conservadores e a uma percentagem cada vez maior da população. Segundo Cameron, o Reino Unido está numa “corrida global”. Torna-se cada vez mais difícil defender a ideia de que a nossa permanência na UE é uma mais-valia e não um obstáculo nesta competição.

Não se reconhece suficientemente ao primeiro-ministro o mérito de ter proposto à opinião pública um referendo sobre a adesão do Reino Unido à União Europeia. Mas a sua promessa de um novo acordo, de um novo começo pelo qual valia a pena esperar antes de tomar uma decisão, não entusiasmou muita gente e angariou inimigos. A maioria das pessoas considera que esta escolha não é uma primeira fase, mas um compromisso. A alteração desta semana faz parte das estratégias elaboradas para o levar ainda mais longe e abordar o mais rapidamente possível a questão central da identidade nacional.