Quando os guionistas querem mudar o curso de uma história usam aquilo a que se chama uma reviravolta. É a isso que o Governo grego se tem dedicado nas últimas semanas: encontrar o ponto de viragem no relato da crise. “Já ninguém fala de Grexit mas sim de Grecovery”, declarou o primeiro-ministro Antonis Samaras na quinta-feira passada, em Helsínquia, depois de uma reunião com o seu homólogo finlandês. Um lema eficaz para a mensagem que o executivo começou a vender há uns meses atrás, primeiro com cuidado e agora com mais decisão: o risco da Grécia sair da zona euro já passou e chegou a hora da recuperação. Os dados recentes sobre a melhoria do sentimento económico, a decisão da Fitch de elevar em um escalão a classificação da dívida, a trégua que os mercados estão a conceder, estão a dar argumentos para que se comece a escrever a “história de um êxito”, como o próprio Samaras disse na sua recente visita à China. Mas o “ponto de viragem” decidido pelo executivo não encaixa no guião do dia a dia da vida dos gregos.

“Dizem que as coisas estão melhor? A minha carteira está tão vazia como há seis meses atrás”, garante Iliria, uma desenhadora gráfica de 36 anos. É trabalhadora independente. “Trabalho, sim, mas o dinheiro não chega”, diz tristemente, enquanto olha para a praça Sintagma, semivazia no dia da convocatória da mobilização europeia contra a troika, há uma semana. “Onde estão as pessoas? O que nos resta, senão protestarmos?”, repetia, ao mesmo tempo que dois manifestantes tentavam colocar entre duas árvores um cartaz onde estava escrito: “Os povos unidos contra a troika”.

Cansaço de três anos de austeridade

A praça vazia não é sintoma de otimismo. Seis anos depois do início da grande crise, se as manifestações já não são tão grandes é porque o cansaço de três anos de austeridade sem tréguas também tem destruído o toque a reunir. Os protestos de vários grupos afetados pelos cortes têm sido quase diários, mas com menor intensidade.

“Falar sobre as razões que fazem com que as pessoas não saiam à rua é uma conversa que pode demorar muitas horas”, reconhece Alex, um dos poucos que respondeu à chamada para o protesto pan-europeu. “Mas também é verdade que as pessoas estão fartas de tantos protestos e muitos já só estão preocupados em levarem as suas vidas para a frente”, acrescenta este engenheiro que, em 2010, decidiu deixar a Dinamarca, onde trabalhava depois de ter acabado a sua pós-graduação, e voltar à Grécia. Começou a trabalhar por conta própria, embora diga que as encomendas escasseiam.

“Há menos pessoas nas manifestações pela simples razão de que se protesta quando se tem esperança, quando se acredita que as coisas podem mudar”, comenta Dimitris Cristopoulos, professor de Ciência Política da Universidade Panteão, de Atenas. “Nos últimos tempos, os centros de decisão política têm tentado vender a história de que estamos no bom caminho. Mas é preciso fazer três perguntas: é verdade? É apenas uma estratégia de comunicação? Esta estratégia está a dar resultado? A primeira resposta é não, não é verdade. A segunda é sim, é uma estratégia de comunicação porque é preciso que se compreenda que esta violenta experiência que se fez com a Grécia está a dar resultado. E terceiro, sim, a comunicação está a dar resultado. Porque, apesar da situação estar pior do que há dois anos, o que existe agora é uma derrota social, a resignação perante o que está a acontecer.”

Erros no primeiro resgate

Mas, para Samaras – que na quarta-feira voltará a encontrar-se, em Atenas, com os representantes da troika de credores internacionais numa altura ainda que ainda não amainou a polémica sobre o relatório do FMI que reconhece erros no primeiro resgate à Grécia, em 2010 – há outros motivos de otimismo. As sondagens voltam a dar o primeiro lugar ao seu partido, à frente do esquerdista Syriza. “A Nova Democracia está a ganhar novamente porque as pessoas querem acreditar na ideia de que estamos a melhorar. Sabem que não é assim, mas precisam de acreditar que é. A outra parte da história é a imaturidade da esquerda”, defende Cristopoulos.

Outro argumento é que, agora, há alguma estabilidade política. É isso mesmo que diz Nikos Skikos, professor de informática: “As coisas estão melhor do que há um ano porque, pelos menos, temos um Governo que faz alguma coisa”, diz Skikos, apesar do seu salário ter passado de 1400 para 1000 euros.

“A psicologia é um elemento importante e o Governo está a utilizá-lo. Os empresários estão mais otimistas porque veem alguma estabilidade política. Sente-se algum alívio. Não porque as vendas tenham aumentado, mas porque caem mais lentamente”, explica o analista económico Dimitris Kontogiannis. “O êxito está a medir-se pelo facto de os dados sobre a redução do défice, sob o ponto de vista do Governo e da troika, serem um sucesso. Mas a economia real ainda fala de miséria. Os números costumam melhorar antes de produzirem efeito na vida das pessoas. Êxito e miséria ainda podem continuar a conviver durante um ano ou mais.” Pelo menos até que no cenário real desta história se continue a ter um desemprego de 27%, como agora.

Numa das paredes de Atenas, muitas das quais, nos últimos três anos, têm servido para verter a raiva de uma juventude que, de repente, se viu sem futuro, alguém escreveu: “Onde está o meu resgate?” Palavras incómodas, que não fazem parte do novo guião.