Aconteceu-me na rua das Portas de Santo Antão. Um pouco acima do Coliseu e do Politeama. Um homem, na casa dos 50, dirigiu-se-me a perguntar se eu sabia onde poderia encontrar um emprego. Disse-me que viera de Arouca, onde trabalhava nos jardins, e pareceu-me desesperado. Não soube dizer-lhe mais do que sugerir-lhe para perguntar nalguma obra que visse se tinham algum lugar para ele. E não pude deixar de pensar que, lá pela zona de Arouca, no distrito de Aveiro, talvez tivesse mais hipóteses do que aqui por Lisboa. No tempo da minha avó, emigrar para a capital representava a esperança de fugir a um destino de pobreza eterna; hoje fazer um caminho semelhante é antes do mais um ato de desespero. Como adivinhei ser o daquele homem.

As estatísticas do desemprego são terríveis. De uma forma ou de outra, com mais ou menos convicção, todos acreditam que podem fazer alguma coisa contra o desemprego. Que podem mesmo fazê-lo diminuir rapidamente. Enganam-se e enganam-nos. Por muito tocantes que sejam todas as histórias dos homens e mulheres de Arouca, ou de Lisboa, ou de Braga, ou do Algarve, a verdade é que os níveis elevados de desemprego vieram para ficar. Por muito tempo, e não só em Portugal. Há dois anos, ninguém – repito: ninguém – previa os níveis de desemprego que Portugal hoje conhece. Mais: ninguém pensaria possível que os níveis de desemprego chegassem aos níveis a que chegaram, perto dos 18%, e as ruas não estivessem a arder.

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