Se Kanita Focak tivesse de escolher o livro da sua vida, sentiria grande dificuldade. Seria o Decâmeron, o conjunto de novelas escritas por Bocácio no século XIV? Um dos romances de Salman Rushdie? Ou então A Ponte sobre o Drina (ed. Cavalo de Ferro, 2007), do prémio Nobel da Literatura jugoslavo Ivo Andrić? No que diz respeito a lugares, em contrapartida, Kanita Focak não hesita: o lugar da sua vida é a Vijećnica, a antiga Biblioteca Nacional da Bósnia-Herzegovina e símbolo da sua capital, Sarajevo. Os manuscritos, os livros, os mapas e os jornais cobrindo um período de seis séculos, escritos em latim, inglês, turco, árabe, russo, persa, alemão e italiano, mas também os muitos concertos e exposições que ali são realizados e que fazem daquela biblioteca o reflexo da Bósnia multiétnica.

Kanita Focak tem 59 anos. “Os grandes acontecimentos da minha vida estão ligados à Vijećnica”, confidencia. Kanita Focak aprendeu desde muito cedo a amar as línguas e a literatura, a pintura e a arquitetura. Aos 16 anos, a jovem rapariga com ar de Grace Kelly morena já devorava livros sobre a arquitetura da Renascença e as obras de Dante e de Bocácio nas salas de leitura apaineladas da Vijećnica. Depois, Kanita, a católica, conheceu Farouk, o ourives muçulmano dez anos mais velho do que ela. Os dois pombinhos encontravam-se na Vijećnica – na sala de leitura, nos dias de chuva, sob os mármores do átrio quando havia sol. As duas famílias opunham-se ao namoro – mas os dois apaixonados resistiram. [Casaram no final da década de 1980]. O recém-casado casal foi morar para a casa da família de Farouk, mesmo em frente à Biblioteca Nacional.

A felicidade não durou muito tempo. Em 1991, a guerra rebentou na Croácia e em menos de um ano chegou à Bósnia. Numa tarde do início de abril de 1992, a artilharia sérvia disparou os primeiros obuses a partir das verdejantes colinas que rodeiam Sarajevo. Rapidamente, o Parlamento da Bósnia e o Conselho Constitucional são consumidos pelas chamas. Nos anos seguintes, um dos instigadores intelectuais da guerra era alguém que tinha estado lado a lado com Kanita Focak na sala de leitura da Vijećnica: Nikola Koljević, especialista em Shakespeare na universidade de Sarajevo. O professor deixa-se enredar pela ideologia dos nacionalistas sérvios, segundo a qual estes eram chamados a reconstruir a “Grande Sérvia”, a expulsarem as outras populações do seu território, a destruir o seu património. Durante a guerra, Nikola Koljević, representante do líder sérvio Radovan Karadžić, participou na orquestração da campanha de expulsão e de aniquilamento.

Um passado comum em chamas

Na noite de 25 de agosto de 1992, o antigo professor universitário mandou a artilharia sérvia incendiar a Vijećnica. Uma chuva de obuses incendiários abate-se sobre a biblioteca. Noventa por cento dos cerca de milhão e meio de obras que ali estavam desfez-se em fumo. Foi o maior auto-de-fé da história moderna, um ato de destruição premeditado, o aniquilamento de um passado comum com o objetivo de impedir um futuro comum. Na outra margem do rio, um estilhaço de obus atravessa a parede da sala de Kanita Focak e atinge Farouk no ventre. Durante quatro dias, ele luta contra a morte, até que se rende e diz a Kanita: “Serás só tu a ver o nosso filho crescer”, antes de morrer nos braços dela, depois de apenas quatro anos de vida em comum. No final da guerra, tendo-se tornado arquiteta, Kanita Focak participa na reconstrução da cidade. A renovação de mesquitas, igrejas e mansões depressa devolve a Sarajevo o seu lugar entre as mais belas cidades dos Balcãs.

No entanto, e durante muito tempo, a Biblioteca Nacional continuará a ser uma carcaça calcinada. Até hoje, ninguém foi condenado pelo bombardeamento da Vijećnica. É verdade que a destruição de bens culturais faz parte dos crimes de guerra e pode ser objeto de processos por parte do tribunal de Haia para a ex-Jugoslávia. Mas Nikola Koljević, o antigo especialista em Shakespeare, pôs fim à vida. E os procuradores retiraram a destruição da Vijećnica dos processos levantados contra Radovan Karadzić e o seu general Ratko Mladić, a lista das principais acusações tinha-se tornado demasiado extensa.

Também os bibliotecários esperam ainda hoje que seja feita justiça. Os livros e os manuscritos que conseguiram salvar foram depositados, primeiro, no cofre-forte da lotaria nacional, depois, foram transferidos para um abrigo antiatómico, e a seguir levados para as caves do Ministério da Educação, antes de aterrarem num antigo quartel do exército jugoslavo. Foi aí que os bibliotecários reconstruíram o acervo da Vijećnica. Mas, hoje, a biblioteca continua sem ter um edifício seu. E corre o risco de falir. Da centena de pessoas que ali trabalhavam outrora restam apenas 47 – a trabalharem em locais improvisados.

A conta foi paga pela União Europeia

Os bibliotecários forravam completamente as paredes com fotocópias dos e-mails em que imploram aos líderes políticos da Bósnia que reconstruam a biblioteca e, sobretudo, que desbloqueiem os financiamentos. Até agora, todas essas súplicas continuam letra morta. Porque o espírito destruidor de Nikola Koljević, o antigo shakespeariano que se tornou fomentador do ódio, ainda assombra a República sérvia da Bósnia, de maioria sérvia. No papel, a República é uma das suas regiões autónomas da Bósnia-Herzegovina. Mas o seu Presidente prefere a independência ou, então, a anexação à Sérvia. Há muito que os sérvios de Banja Luka, a capital da República sérvia da Bósnia, rebatizaram a biblioteca da província como “Biblioteca Nacional e Universitária”.

Na segunda região do país, a Federação da Bósnia-Herzegovina formada por bósnios e croatas de confissão muçulmana, muitos croatas são também favoráveis a uma maior autonomia – e também não querem ver renascer um símbolo nacional. É certo que os acordos de Dayton que, em 1995, puseram fim ao conflito, preveem que a Bósnia-Herzegovina tem de financiar as infraestruturas públicas. Mas o “ministro dos Assuntos Civis”, encarregue da cultura, é, desde há 11 anos, Sredoje Nović, antigo chefe dos serviços secretos e ministro do Interior da República sérvia da Bósnia. E defende que não foi o seu ministério que instituiu a Biblioteca Nacional e que, por isso, não é ele que tem de a pagar.

No entanto, os fundos não faltam em Sarajevo desde que haja vontade política e que o projeto seja inofensivo sob o ponto de vista político. E isso também é válido para a Vijećnica, cujo edifício já há algum tempo recuperou o esplendor de outrora. A conta das obras, cinco milhões de euros, foi paga pela União Europeia. O antigo símbolo deverá abrir as suas portas em junho de 2014… para acolher a câmara e a assembleia municipais.

Na Bósnia de hoje, essas duas instituições não têm qualquer poder e não representam o país. O que se inscreve na política do dono da obra: o mesmo ministro que recusou financiar a Biblioteca Nacional – e que exclui completamente os bibliotecários do projeto da nova Vijećnica. Segundo o projeto elaborado nas suas costas, a Biblioteca Nacional que verá a luz do dia mais tarde, na renovada Vijećnica, conterá apenas os manuscritos e alguns livros raros. Os outros livros continuarão nos seus abrigos improvisados.

Assim se escreve a história. “Quando a antiga Vijećnica ardeu, foi a sede da nossa cultura comum, das nossas recordações comuns, da nossa vivência comum que se desfez em fumo”, lamenta Kanita Focak. Os livros que eram a sua vida continuam armazenados na periferia da cidade, num antigo quartel jugoslavo.