O marido abre a porta em calções e chinelos. A mulher está no quarto, deitada, numa cama articulada. Tem sombra nos olhos, brilho nos lábios. A enfermeira Barbara Pitsillides traz-lhe uma almofada adequada. “A náusea já passou?”, pergunta.

Não se lembra das náuseas matinais. A memória foge-lhe. Apareceram-lhe metástases no cérebro. “Estamos a lutar há dez anos. Queremos lutar outros dez anos”, diz o marido, olhando-a, silenciosa, a tentar sorrir.

Dedica cada minuto do seu dia a cuidar da mulher com quem se casou há 40 anos. Assusta-o a ideia de cometer algum erro. Dá-lhe segurança a ligação à equipa da Associação de Doentes de Cancro e Amigos. A qualquer altura pode telefonar-lhe a esclarecer uma dúvida, qualquer dúvida. Foi ela que lhe trouxe a cama articulada, a cadeira de rodas, o balão de oxigénio portátil.

Barbara não sabe até quando será possível continuar a levar o hospital a casa de quem tenta fintar um cancro.

Os donativos caíram a pique desde que, em março, o executivo da República de Chipre e a troika (UE-BCE-FMI) negociaram um empréstimo de dez mil milhões de euros que implica a redução do sector bancário: o Banco Popular (Laiki), o segundo maior do país, seria dividido entre “banco mau” e “banco bom”; o “mau” desapareceria; o “bom” seria absorvido pelo Banco de Chipre, o maior; haveria então um corte nos depósitos acima dos 100 mil euros e perdas para accionistas e credores.

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