A favor: Uma decisão justa, embora tardia

No dia 21 de novembro, os países da zona euro conseguiram definir uma posição comum com os outros membros da UE e com o FMI, para evitar uma quebra de pagamento que teria ameaçado o futuro da moeda única. Perante a crise da dívida privada irlandesa, que ameaça arrastar com ela as finanças do país, vai ser utilizado o fundo de estabilização criado na primavera passada para enfrentar a crise da dívida grega.

As modalidades e o teor deste novo plano indicam já que, tal como para a Grécia, só se chegou a uma solução quando já se estava à beira do abismo. Isso induz dois elementos de otimismo e uma apreensão em todos os que se preocupam com o destino do euro e desejam uma maior coordenação entre os Estados-membros, para o seu reforço e crescimento.

A primeira razão para se estar otimista é que, apesar das fraquezas das instituições europeias e dos erros políticos de percurso, na 25ª hora, os países líderes europeus e as instituições internacionais conseguem identificar saídas razoáveis com os governos envolvidos nas crises. O segundo elemento positivo é que, mesmo que se apresentem sob uma forma errática e confusa, estas soluções constituem progressos na construção dos dois elementos indispensáveis a uma solução mais estável e mais estrutural das crises internas da União Monetária: uma coordenação fiscal mais forte e uma vigilância financeira mais integrada.

Estas duas razões para se estar otimista não mascaram, contudo, um elemento que ressurge sistematicamente: as soluções europeias ocorrem tardiamente e depois de percursos arrasadores que deixam marcas.

Para além de aumentarem os custos financeiros e sociais de cada operação de recuperação, este elemento indica que numerosos líderes nacionais não conseguiram comunicar aos seus eleitores o que devia ser uma evidência: sem uma zona económica e institucional integrada, todos os países do continente europeu (incluindo a França e a Alemanha) ficarão condenados, dentro de uma dúzia de anos, a desempenhar um papel secundário em relação às grandes potências asiáticas e americanas.

Perante um desafio estratégico desta monta, seria preferível, em vez de apelar, numa ótica política exclusivamente interna, a uma "punição" dos Estados-membros menos cumpridores e investidores imprudentes, que Angela Merkel e os seus adversários gastassem o seu tempo a convencer a classe média alemã que o seu bem-estar futuro está estreitamente ligado ao destino da Europa e que, por isso, a sua força económica deve traduzir-se numa força político-institucional ao serviço de uma construção europeia cooperante.

Marcello Messori, Corriere della Sera, Milão

Contra: Mais um bodo aos bancos

Josef Ackermann tornou-se, de repente, um estadista. Nos últimos dias, o presidente do Deutsche Bank lançou-se num périplo bruxelense, fazendo visitas ao presidente da Comissão Europeia, ao presidente do Conselho Europeu e ao Comissário responsável pelo Mercado Interno [Michel Barnier]. “A Europa deve ser protegida como um todo e não cair em raciocínios económicos de curto prazo”, declarou.

Quando um suíço, patrão do Deutsche Bank, professa tal amor pela Europa, impõe-se toda a prudência. A mensagem de Josef Ackermann é clara: os países europeus devem prestar ajuda financeira à Irlanda. Trata-se de um fundo de 50 a 100 mil milhões de euros, proveniente da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O que Ackermann não diz vê-se, contudo, claramente, quando se olha com atenção: ajudando a Irlanda, a Europa ajuda também os bancos alemães, os segundos maiores credores da Irlanda a seguir ao Reino Unido. Os bancos alemães deram mais de 100 mil milhões de euros de crédito à Irlanda, cerca de 40 mil milhões dos quais a bancos irlandeses. É verdade que foi numa época em que a Irlanda era o casino favorito da Europa.

A crise financeira regressou ao ponto de partida: ao nível da banca. Os bancos estão cada vez mais descarados. Começou por ser a falência do Lehman Brothers que justificou o salvamento dos bancos com dinheiro público; mas atualmente o dinheiro dos contribuintes deve servir para evitar qualquer crise potencial. Os bancos não têm, pois, de cobrir os riscos pelos quais, no entanto, nos fazem pagar juros bem altos: uma situação de crise que coloca um devedor na impossibilidade de honrar os seus compromissos.

Eis algo que tira os economistas do sério. Para Hans-Werner Sinn, diretor do Ifo Institut de Munique, “existe uma aliança entre a União Europeia e os bancos alemães, favorável a um plano de ajuda à Irlanda”. É, no entanto, claro que a Irlanda não precisa de ajuda. O PIB por habitante é 20% superior ao da Alemanha e o nível de endividamento continua a ser controlável, mesmo que se agravasse. “A Irlanda não está em risco de falência.” Na verdade, foram os bancos que dramatizaram a situação, a fim de obter o que queriam do setor político. “Continua tudo na mesma. Torna-se cansativo, a prazo.”

Uma vez mais, os bancos alemães vão atrás de um bom negócio. Os responsáveis políticos entram no jogo e não dizem palavra a propósito dos bancos. Planos de salvamento dos bancos não são, com efeito, muito populares, desde o caso do Hypo Real Estate e consortes. É mais fácil vender a solidariedade para com a Irlanda do que para com Josef Ackermann. Os banqueiros usam e abusam da retórica solidária, evocando o espetro de reações em cadeia e de efeitos de dominó a partir da Irlanda.

Stefan Homburg, especialista em Finanças na Universidade de Hanover, está convencido de que estes receios são exagerados. “Não se trata da sobrevivência dos bancos alemães, mas de evitar perdas de valor”, explica. Para ele, há muito que os grandes banqueiros são mais poderosos do que os responsáveis políticos, e muito mais inteligentes.

Durante a crise, comprou ações do Deutsche Bank, cujo valor aumenta após cada plano de salvamento. “Essa mais-valia vai compensar os impostos suplementares que vou ter de pagar pelo salvamento dos bancos.”

Lisa Nienhaus e Christian Siedenbiedel, Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung (extratos), Frankfurt