O poder fecha-se sobre si mesmo. As barricadas no exterior da Assembleia Nacional e o cordão policial montado em redor do edifício fazem lembrar a queda do comunismo e os períodos de crise na Bulgária. Apesar de tudo, o projeto comunista, maníaco e paranoico, convicto de que alguém queria arrebatar-lhe o poder que obtivera através do sangue e da violência, era expansionista: procurava controlar e dirigir as massas e organizava manifestações de operários, numa encenação de unidade da nação e do partido.

É o poder das barricadas, dos “barricados face aos cidadãos”

Hoje, esse mesmo poder encontra-se nas mãos dos “descendentes do Politburo”, mas assume aspetos completamente diferentes: isolamento, governação pelo medo, e uma falta de transparência culposa. É o poder das barricadas, dos “barricados face aos cidadãos”, como podia ler-se num cartaz.

Em contrapartida, nunca houve barricadas no exterior da presidência da República. O Presidente Plevneliev [do partido Cidadãos pelo Desenvolvimento Europeu da Bulgária (GERB)] parecia não ter medo dos manifestantes. Existe um poder anónimo, empenhado em tomar decisões através de processos sem qualquer transparência, e que se sente aliviado por ter sobrevivido ao dia anterior. É esse poder que, de uma forma nada transparente, impõe as nomeações de governadores e altos funcionários.

O Governo, saído de obscuras negociações entre dois partidos, finge desenvolver uma certa atividade política, tentando impor ao parlamento barricado medidas de curto e de longo prazo. Esses esforços são reduzidos a zero pelas manifestações e pela instabilidade política.

Uma nova transparência democrática

Para lá da situação na cena política e do descontentamento popular, verifica-se que a política búlgara não é mais desenvolvida do que as grandes ideias do fim do século XIX. Ou, na melhor das hipóteses, de antes da queda do Muro de Berlim.

Quem abrir os olhos, verá que o primeiro-ministro Plamen Orecharski [Partido Socialista, no poder desde 29 de maio de 2013] usa a máscara da monarquia, que deseja dirigir-se à nação como dirigente soberano, convencido de que a sociedade devia aceitar em silêncio todo o tipo de nomeações e de ações. Aquilo que nem o Partido Socialista, nem os seus aliados, conseguem perceber é que a cena política mudou com a globalização e com o nascimento da sociedade da informação.

Hoje, os ministros e os deputados não são tanto figuras de autoridade como produtos de consumo de massas

Isso não aconteceu apenas na Bulgária e, sim, no mundo inteiro, inclusive na Turquia e no Egito. Hoje, os ministros e os deputados não são tanto figuras de autoridade como produtos de consumo de massas: a sociedade espera que eles apresentem explicações constantes. Caso contrário, serão varridos da cena política.

Este absurdo ocorre, quando o poder se desloca para um novo espaço de controlo: a Internet e as redes sociais, nas quais se forma uma nova transparência democrática. Em todas as partes do mundo, as pessoas já não se contentam com o papel de eleitores, que lhes cabe de quatro em quatro anos, enquanto, entretanto, alguém vai decidindo o seu destino. Estamos a assistir ao aparecimento de uma nova forma de cidadania, com capacidade para rejeitar as irregularidades nefastas de qualquer governo.

Os dirigentes do país agarram-se ao poder

Para quê então as barricadas, montadas para tornar intocável o poder estabelecido? Trata-se da formação de um novo espaço, através de estruturas de participação dos cidadãos ligadas em rede, e que, muito provavelmente, acabarão por transformar os partidos tradicionais a partir do seu interior. Essa nova democracia, nascida das redes sociais, pode alterar a situação atual baseada em redes de clientelas, tão caras ao Partido Socialista e aos seus parceiros. Pode destruir o feudalismo político e todas as práticas que lhes estão associadas, como a compra de votos. Trata-se da formação de uma nova soberania que se propaga para baixo, através da descentralização, e para cima, através das instituições europeias e dos mercados financeiros.

Privado da sua essência, o poder transforma-se numa concha vazia, colocada entre os diferentes centros de poder. E é daí que os barricados tentam fazer passar a sua mensagem, ou melhor, um sortilégio destituído de sentido. É o hábito que os leva a procurar apoio através da divisão, opondo determinados cidadãos a outros, Sófia à província ou, ainda, uma manifestação a favor do Governo às manifestações de massas.

Os dirigentes do país continuam a não conseguir compreender que a nova cidadania das redes sociais corta a ligação tradicional entre política e teoria, e que é apenas uma questão de tempo até as diferentes regiões do país se reorganizarem, seguindo o princípio dessa democracia que ultrapassa o espírito de território. Os dirigentes do Partido Socialista, Serguéi Stanichev, e do Movimento dos Direitos e das Liberdades [o partido da minoria turca, representado no Governo], Lutvi Mestan, procuram desesperadamente uma iniciativa ancorada no espírito da transição democrática, que está em vias de os eliminar.

Ao mesmo tempo, agarram-se ao poder, com todos os meios à sua disposição, perto de chegar a todos os compromissos necessários, mesmo com a oposição do partido GERB do antigo primeiro-ministro Boïko Borissov. São pessoas que têm a convicção íntima de que estão destinadas a dirigir.