Recordemos o momento quando tudo tremeu. “Mãe, é um senhor.” Enquanto o som dos helicópteros se junta ao ruído da greve geral iminente, eu espalho papéis de tribunal numa mesa e preparo-me para escrever um artigo para o sítio de El Mundo – é preciso contar, denunciar é uma necessidade que nos vai salvar -, para o meu blogue, mas isso ocupou a minha página principal demasiado tempo, praticamente o dia todo. Chamava-se Chegou o dia do meu despejo.

De manhã quando estou a trabalhar em casa não abro a porta a ninguém. Abrir a porta de manhã traz sempre más notícias. Mas quem toca à porta às 19:40 são geralmente vizinhos ou amigos.

Quando cheguei à porta percebi o que aquele homem trazia.

"Venho entregar uma notificação do tribunal."

Com um maço de papel debaixo do braço direito, estende-me um papel com a mão esquerda.

"É a ordem de despejo?"

É a sensação dos adolescentes quando são confrontados com os “assuntos dos crescidos”.

Há algum tempo que a aguardava, desde que o banco me tinha dito que, se quisesse saber a situação do meu crédito, tinha de contactar os serviços jurídicos. Quando a banca nos fala em “serviços jurídicos”, sabemos que o assunto transitou para um departamento onde se fala uma língua diferente. É a sensação dos adolescentes quando são confrontados com os “assuntos dos crescidos”. Vão ter de passar por isso, compreendem, mas escapa-lhes o essencial.

"Bem, mais ou menos – hesita – Tem de se apresentar no tribunal e assinar isto."

"E se eu não assinar?"

"Vai acontecer à mesma."

Ouvem-se os primeiros petardos que aquecem uma greve geral que um espírito iluminado chamou de “greve política”, como se existisse outro tipo de greve.

"Crianças, venham à sala."

O despejo

Assino tudo e fico sem alternativa. O tribunal de primeira instância número 4 de Barcelona no nº 111 da Gran via dos tribunais da Catalunha. Processo de execução da garantia hipotecária xxx/2012, Secção 2C. Requerente Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, SA. Procuradora Irene Sola Sole. Devedor Cristina Fallarás Sánchez. Os nomes do requerente e da procuradora estão em maiúsculas, o meu em minúsculas.

De repente do Facebook e o Twitter ficam loucos, os rádios e as televisões também, e anda toda a gente à minha procura.

De repente do Facebook e o Twitter ficam loucos, os rádios e as televisões também, e anda toda a gente à minha procura. O telefone toca. É o produtor de um programa da noite de grande audiência.

"Olá Cristina, já sabemos da tua história que queríamos convidar-te para vir à emissão a um debate."

"Estou em Madrid para participar no festival Eñe de literatura."

"Preciso que estejas no estúdio às 8 da noite."

"É impossível. Isso é a hora a que acaba a minha mesa redonda. Na realidade tudo me parece complicado porque ainda por cima não tenho bilhete."

"Não faz mal. Enviamos-te um táxi, pagamos uma noite de hotel e fazemos-te chegar um bilhete."

Chego aos estudos da estação privada. Sentam-me ao lado de dois casais. O casal mais velho andará pelos 70 anos. Ela está preocupada com o cabelo e alisa o vestido num tique nervoso, está do outro lado do ecrã que se habitou a ver durante horas a fio durante uma reforma que sempre imaginou agradável. O marido, apesar do excesso de peso e da tez corada de macho rural instalado na cidade, parece já ter desistido. Vejo uma lágrima discreta cair-lhe da face.

O casal mais jovem inclui um homem já bem entrado nos quarenta, com uma mulher talvez uns cinco anos mais nova. No rosto a emoção de estarem num estúdio de televisão, um lugar quase mítico, reflete-se no seu ar espantado.

“Fomos despejados", explica-me o homem no seu sotaque da Andaluzia. "Primeiro despejaram-nos a nós e agora vão despejar os meus pais porque eles foram fiadores quando comprámos o nosso apartamento". E, com um movimento do queixo aponta para o pai. "Estamos os quatro a viver na rua com as crianças. A única coisa que nos resta é vir à televisão contar a história.”

A aceitação

Senti um murro no estômago. Um murro na cabeça. Que transparece na minha cara.

Senti um murro no estômago. Um murro na cabeça. Que transparece na minha cara. Subitamente já não sei o que estou a fazer ali, com estas quatro pessoas cuja provação me parece distante e estranha. “Isto é a última coisa que nos resta.” Como explicar que ainda não estamos todos no mesmo barco? Como explicar esta vontade súbita de fugir, chamar um táxi e voltar para casa?

Procurei desesperadamente um assistente de produção. Tenho de ter a certeza que não me vou sentar à beira de um precipício, à beira do qual pendem as pernas destas pessoas que olham para mim e perguntam porque estou aqui. Até aquele momento não tinha verdadeiramente percebido o que eu era. E sou assaltada pela dúvida: também serei um sem-abrigo? Estaria entre as centenas de milhares de pessoas que já não têm nada? Foi isso que me trouxe a este bairro dos arredores de Madrid?

"Desculpe, menina, pode dizer-me o que estou aqui a fazer?", pergunto eu à assistente de produção. Na minha voz um sentimento de irritação mal disfarçado. A jovem olha para mim, surpreendida.

"Participar no debate! Fica sentada entre fulano e fulano, que dão a sua opinião e..."

Quase me desprezo por não ter conseguido, vou lutar, mas como tantos outros fui despejada de casa. Mas ainda posso contar a minha história e isso ajuda-me. E depois, às vezes, vomito.

Este artigo foi publicado pela primeira vez em espanhol a 12 de dezembro de 2012, na revista digital argentina Anfibia.

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