Não é a primeira crise de legitimidade que os partidos enfrentam. São inúmeros os exemplos ao longo da História de rejeição deste tipo de organização política. Em 1919, Benito Mussolini considera o seu movimento fascista “antipartidário”. Mas toda a gente, incluindo Mussolini, mesmo opondo-se, acaba sempre por criar um partido. No fundo, continua a ser o único instrumento que permite realmente participar no exercício do poder.

Nestes últimos anos, encontramo-nos numa nova realidade tecnológica, que torna inúteis quaisquer paralelismos históricos. É o acesso massivo à Internet por um número enorme de pessoas em todo o mundo e o aparecimento das redes sociais. Podemos referir algumas conclusões de politólogos que estudaram a enorme influência da Internet e das redes sociais na Primavera Árabe. Foi toda a região do mundo que mudou de fisionomia em meia dúzia de meses apenas. Podemos também referir outros exemplos, como o movimento Occupy Wall Street, nos EUA, a violência na Turquia, nestes últimos dois meses, entre muitos outros.

Uma imagem arcaica

Os novos vetores do debate político nas redes sociais distanciam-nos dos clássicos e bem conhecidos fóruns. Tentemos imaginar quantos jovens membros de redes sociais preferem ir a um evento político em vez de estabelecerem um debate informal no Facebook. Foi isto que tornou arcaica a imagem do partido enquanto modelo de organização política.

O confronto de ideias políticas não desapareceu; está em transição

Por seu turno, os partidos encaram estes novos espaços de discussão mais com medo e desconfiança do que com esperança. O confronto de ideias políticas não desapareceu; está em transição. Parece que os próprios partidos não aplicam suficientemente estes recursos que lhes permitem gerar ideias “de raiz”. Estão a demorar muito a tomar consciência desta nova realidade.

A desconfiança em relação aos partidos políticos, o seu distanciamento cada vez mais evidente do que se passa na sociedade, bem como estas novas formas de debate político deixam os tradicionais mediadores do poder e das pessoas numa situação delicada. Não é por acaso que esta falta de legitimidade dá azo a novos modelos que permitem aos cidadãos fazer pressão. Têm nomes diferentes, de acordo com o país, e lutam por objetivos diferentes: Indignados, em Espanha, Occupy Wall Street, nos EUA, a oposição ao regime, na Rússia. O que têm em comum, em contrapartida, é a sua estrutura horizontal, a utilização que fazem das redes sociais e a sua posição contra os partidos do status quo, quase um desejo de mudança de sistema, independentemente do que isso signifique.

A criação de ilusões

A boa notícia é a Bulgária não estar atrasada em relação ao que se passa no mundo. A contestação, em curso há mais de um ano, fez nascer este tipo de organização. Não nos é favorável fazermos uma comparação em termos de escala e de extensão, mas estamos a dar os primeiros passos nessa direção. Nestes últimos meses, foram criados muitos grupos no Facebook, que estão agora a transformar-se em verdadeiros portais de debate político. Há também a “rede de protesto” de uma ativista.

Mas os debates confinados à Internet escondem riscos reais, entre os quais se destaca a criação de ilusões. As opiniões que se fazem ouvir nos fóruns online estão longe de ser representativas do conjunto da sociedade. Circunscritas a este círculo social fechado e a este ambiente propício, é fácil as pessoas pensarem que toda a gente partilha aquelas opiniões e aqueles valores. Nem de perto, nem de longe. Há uma pequena parte da sociedade que encontrou um meio de fazer com que as suas ideias sejam aceites ao tentar confirmá-las.

Para se poder realmente mudar seja o que for no país e no exercício de poder, é preciso o apoio da maioria dos cidadãos

Para se poder realmente mudar seja o que for no país e no exercício de poder, é preciso o apoio da maioria dos cidadãos. A seguir, é preciso dispor de um instrumento legislativo para participar nas eleições, onde se prova que não se trata de uns milhares de pessoas na Internet, mas de uma grande parte dos búlgaros. Mas, até à data, não existe um único meio de o fazer no quadro legislativo: criar um partido e participar nas eleições.

Se crescer e ganhar popularidade, um destes movimentos recém-criados irá dar origem à criação de um partido para participar nas eleições legislativas. Se fracassar, será enterrado no cemitério político, como tantos outros antes dele. Por este motivo, os líderes destas novas organizações políticas fariam bem em não se apressarem a condenar os partidos. Se os seus movimentos atingirem os objetivos, vão recorrer a essas velhas organizações que conhecemos tão bem: os partidos políticos.