Não há praticamente nenhuma dúvida de que foram usadas armas químicas em Ghuta, na zona leste de Damasco, e que, ao contrário de eventuais ataques anteriores, produziram mortes em massa. Quer o número de mortos se situe na casa das centenas ou ultrapasse os mil, como alegam os rebeldes, continua a ser um dos mais significativos ataques com armas químicas desde o de Saddam Hussein contra os curdos, em Halabja, há 25 anos, e um desafio inequívoco ao voto do [Presidente dos Estados Unidos] Barack Obama, expresso há um ano, quando declarou que, se comprovado o uso de armas químicas ou biológicas, “mudo a minha apreciação”.

Também não há muitas dúvidas sobre quem cometeu a atrocidade. O Governo sírio reconheceu que lançou uma grande ofensiva na área e é o único combatente com capacidade para usar armas químicas em semelhante escala. Quadros dos serviços secretos ocidentais calculam que terá sido necessária uma força de invasão de 60 mil soldados para proteger os doze depósitos de armas químicas à disposição de Bashar al-Assad. É preciso uma enorme quantidade de gás sarin, se foi de facto esse o agente utilizado para matar semelhante número de pessoas. O ataque no metropolitano de Tóquio matou 13 cidadãos.

Opções de resposta são todas péssimas

Resta a questão do motivo. Ao defender o seu Estado-satélite da acusação, a Rússia apelidou o ataque de provocação premeditada, por ocorrer a apenas oito quilómetros do hotel onde se tinham instalado os inspetores da ONU que foram investigar alegados incidentes anteriores. Há quatro causas possíveis: um comandante sírio agindo por conta própria, o que é improvável; uma ordem de Assad, convicto de que Obama não iria responder; ou a decisão de aumentar o poder de fogo contra os rebeldes, que, apesar das perdas em Qusair ou Homs, continuam a controlar cerca de metade do país. A quarta causa possível é ter sido um ataque que correu mal, matando muito mais gente do que se pretendia.

A França e a Turquia estão a pressionar para uma intervenção militar, e a Grã-Bretanha não a descarta

As opções de resposta são todas péssimas. A França e a Turquia estão a pressionar para uma intervenção militar, e a Grã-Bretanha não a descarta – ataques aéreos contra depósitos de mísseis e aeronaves que Assad não gostaria de perder. Não há qualquer veleidade de que o Presidente sírio permita que a equipa de inspeção da ONU expanda o raio da sua investigação a mais do que três locais delimitados. E com a proteção da Rússia e da China, o Conselho de Segurança não o obrigará a fazê-lo. A tarefa do Governo sírio é simples – ganhar tempo, confinar a intervenção da equipa de inspeção da ONU e deixar que as provas físicas se degradem, o que acontece rapidamente numa zona de combate ativa.

É duvidoso que ataques aéreos fossem dissuasores. O general norte-americano Martin Dempsey, presidente da chefia do Estado-Maior das Forças Armadas, disse ao Congresso que, apesar de os Estados Unidos poderem intervir na guerra, não haveria nenhum grupo rebelde moderado para preencher o vazio de poder. Isso deixa a guerra regional em queda livre. Este ataque químico pode não ser o último.