“A associação com a União Europeia irá contribuir para a formação da Ucrânia como um Estado europeu moderno”, assim falou o Presidente Viktor Yanukovich, no discurso do 22º aniversário da independência do país, a 24 de agosto.

A não assinatura do acordo negociado com a União Europeia antes do final do ano fará congelar o processo de integração

E apesar de acrescentar de seguida que as boas relações com a Rússia também eram vitais, a própria sequência em que mencionou as questões manifestava claramente de que lado sopra o vento em Kiev, por estes dias. Com uma população de 44 milhões de habitantes e um território que faz dele o maior país situado, na sua totalidade, na Europa, a Ucrânia enfrenta uma escolha histórica entre um acordo de associação com Bruxelas e um tratado alfandegário com Moscovo. Como os documentos propostos são mutuamente exclusivos, Kiev tem de tomar uma decisão estratégica. A não assinatura do acordo negociado com a União Europeia antes do final do ano fará congelar o processo de integração por vários anos, se não mesmo suspendê-lo por tempo indeterminado. Em termos práticos, isso significa que a Ucrânia terá escolhido o vizinho oriental para parceiro estratégico.

Não há acordo sem reformas

A União Europeia está disposta a assinar um acordo de associação, com três condições: que a Ucrânia reveja os regulamentos de defesa pública, adote um código eleitoral seguindo as recomendações do Conselho da Europa e resolva o problema da aplicação seletiva da lei. Tudo coisas ao alcance de Yanukovich – as duas primeiras podem ser rapidamente submetidas à Rada, dominada como está pelo seu Partido das Regiões; a terceira será considerada cumprida quando a antiga primeira-ministra, Yulia Tymochenko, for libertada da prisão, o que não é impossível, tendo em vista a anterior libertação do seu colaborador próximo, Yuri Lutsenko, no início deste ano.

Evidentemente, há que ter em conta que o líder ucraniano é imprevisível e pode mudar de ideias a qualquer momento. Mas, por agora, parece realmente determinado a fechar negócio com a União Europeia no próximo outono.

“A não ser que ele mude de ideias, o acordo de associação deve ser assinado em novembro”, disse o deputado Paweł Zalewski (Plataforma Cívica), especialista em assuntos ucranianos, ao Polska Times. Contudo, frisou, a Rússia vai tentar minar o processo.

“Moscovo vai tentar criar uma atmosfera de tensão e de confronto, na esperança de que, mesmo que a Ucrânia consiga aguentar-se, a União Europeia não consiga suportar a pressão”, declarou o deputado Paweł Kowal (A Polónia Está Primeiro, de direita), que liderou a missão de acompanhamento do Parlamento Europeu à Ucrânia durante as eleições gerais de 2012.

Moscovo já iniciou o processo de “amaciamento” da Ucrânia. A comunidade cultural e civilizacional dos dois países foi destacada pelo Presidente russo, Vladimir Putin, que visitou Kiev para participar nas celebrações do 1025º aniversário do batismo de Kievan Rus. No entanto, a visita não teve o impacto esperado, pelo que Moscovo substituiu a cenoura pelo pau, dando início a uma guerra comercial, com bloqueio à importação de determinados bens ucranianos.

Uma repetição da Geórgia?

Mesmo que o Kremlin não vá tão longe neste momento, não se podem descartar grandes provocações, como o corte do fornecimento de gás

[[A crise aduaneira foi resolvida em relativamente pouco tempo, principalmente com a ajuda da União Europeia, mas muitos especialistas acreditam que isto foi só o começo]]. Pavel Nuss, dirigente da Associação Cívica para a Salvação da Ucrânia, sugeriu recentemente que a Rússia irá encetar tentativas de desestabilização da Ucrânia, já em setembro, utilizando os seus agentes influentes para incitar os ucranianos contra a tendência para a Europa. “Há uma forte probabilidade de o conflito se transformar em guerra”, escreveu Nuss, ao evocar a invasão russa da Geórgia em 2008, poucos meses depois de a Cimeira de Bucareste definir que a Geórgia e a Ucrânia acabariam por ser admitidas na aliança militar ocidental. Mesmo que o Kremlin não vá tão longe neste momento, não se podem descartar grandes provocações, como o corte do fornecimento de gás. Na verdade, a Rússia já usou a “arma do gás” contra a Ucrânia, por duas vezes: em 2006 e 2009.

Outro cenário possível é a Rússia tentar garantir que as eleições presidenciais na Ucrânia, em 2015, sejam ganhas por um candidato da sua confiança. “O próximo Presidente poderia, então, revogar o processo de associação”, sugere Paweł Zalewski.

“A Ucrânia não é o único país a sentir a pressão a aumentar. A Rússia também tem estado a pressionar a Arménia e a Moldávia, no sentido de esquecerem qualquer acordo com Bruxelas”, comenta o deputado Jacek Saryusz-Wolski (Plataforma Cívica), vice-presidente da Euronest, a componente parlamentar da proposta Parceria Oriental, composta por membros do Parlamento Europeu e dos parlamentos dos países do Leste Europeu.

Os últimos meses que antecedem a cimeira da Parceria Oriental, a realizar em novembro, deverão ser marcados por um crescente conflito diplomático. A Polónia será um dos principais palcos, porque é o Estado que tem maior interesse no êxito do acordo União Europeia-Ucrânia. Os russos sabem disso, pelo que não é impossível que tentem enfraquecer a posição política do Governo polaco nas negociações finais. O Kremlin já provou a sua habilidade para pôr os políticos polacos uns contra os outros em várias ocasiões; a mais recente foi em abril, quando um ministro polaco foi demitido devido a um memorando sobre gás, assinado com a Gazprom.