Berlim, jardins do Palácio do Príncipe Herdeiro. É a festa de verão dos democratas-cristãos (CDU). O ministro dos Transportes Peter Ramsauer posa, como tradicionalmente, com uma caneca de cerveja bávara na mão, mas a chanceler Angela Merkel tem em vista, à evidência, outro tipo de eleitores. À luz dos flashes das máquinas fotográficas ela corta carne para preparar um kebab. É um claro sinal da aproximação da data das eleições. No próximo dia 22 de setembro os alemães irão escolher os membros do novo Bundestag (Parlamento). “Os imigrantes são cada vez mais importantes para os partidos políticos”, constata Orkan Kösemen, politólogo da Fundação Bertelsmann, autor de um estudo sobre o comportamento eleitoral dos imigrantes. Um em cada dez cidadãos de origem estrangeira dispõe já de direito de voto. Estão em jogo nada menos que cinco milhões e meio de votos.

Os eleitores de origem polaca ou soviética votavam tradicionalmente nos democratas-cristãos

No final da guerra fria era fácil determinar as preferências políticas dos imigrantes. Os eleitores de origem polaca ou soviética votavam tradicionalmente nos democratas-cristãos. A CDU, liderada por Helmut Kohl e a CSU da Baviera de Franz Josef Strauss, simbolizavam o anticomunismo. Por outro lado, os antigos Gastarbeiter, trabalhadores imigrantes da Turquia e dos países árabes estavam mais próximos dos sociais-democratas do SPD. Estas divisões ainda subsistem hoje, mas os votos dos imigrantes são cada vez mais solicitados pelos Verdes e mesmo pela extrema-esquerda pós-comunista.

“A autodestruição da Alemanha”

Os ecologistas alemães são atualmente liderados por Cem Özdemir, filho de uma circassiana e de um turco de Istambul. São justamente os Verdes que apresentam nas suas listas eleitorais mais candidatos de origem imigrante (23 elementos). Já os ecologistas estão representados no Parlamento por deputados nascidos na Turquia, no Irão ou, como no caso de Agnieszka Brugger e de Jerzy Montag, na Polónia do pós-guerra.

O que acontece nesta paisagem política é a hostilidade para com os estrangeiros por uma parte do eleitorado do SPD, mais importante do que no eleitorado democrata-cristão apenas antecipado pelo ataque, mais do que previsto, dos eleitores de extrema-direita. A faceta anti-imigração dos sociais-democratas está fortemente associada a Thilo Sarrazin, antigo senador de Berlim, membro do conselho de administração da Banca Federal que há três anos escreveu “A autodestruição da Alemanha”, um manifesto inflamado contra a imigração originária dos países muçulmanos.

Sem qualquer dúvida, o SPD é um partido de imigrantes, afirma a sua vice-presidente Aydan Özoğuz, imigrante turca. Os sociais-democratas nunca, durante o seu governo, conseguiram fazer a promessa mais importante para os inúmeros eleitores de origem estrangeira: o direito à dupla nacionalidade. Atualmente as crianças nascidas na Alemanha de pais imigrantes devem escolher, ao atingir a maioridade, entre o passaporte alemão e o do país de origem dos seus progenitores.

Merkel cautelosa face à imigração

Seja como for, os sociais-democratas não parecem sofrer nem com o caso Sarrazin, nem com as promessas por cumprir e apressam-se a tentar recolher cerca de um terço dos votos dos alemães de origem turca. De acordo com uma sondagem do Instituto Data 4U, apenas 7% deste grupo eleitoral deve votar no CDU.

Os democratas-cristãos lideram, por agora, as sondagens, mas sofrem regularmente revezes eleitorais nas eleições autárquicas das grandes cidades. Angela Merkel também conseguiu vencer a resistência do seu próprio partido em questões tão importantes como o abandono da energia nuclear ou a abolição do serviço militar obrigatório, mas ainda está cautelosa em tudo o que esteja relacionado com as medidas políticas relativamente à imigração. Uma nova forma de fazer as coisas, sem substanciais alterações políticas.

O tempo é de gestos de boa vontade para com os imigrantes

O tempo é de gestos de boa vontade para com os imigrantes. Tem acontecido muitas vezes que os muçulmanos acedem a importantes postos entre os quadros dirigentes da CDU. Há três anos, Aygul Özkan, nascida em Hamburgo de pais turcos, chegou a ministra dos Assuntos Sociais, da questão das mulheres, da família, da saúde e da integração no estado da Baixa Saxónia. Foi a primeira mulher política alemã de origem turca a ocupar um posto ministerial. A comunicação social fazia então alarde sobre “o olhar moderno da CDU”. Alguns membros do partido ficaram, no entanto, irritados, sobretudo quando Özkan anunciou que não havia lugar para crucifixos nas escolas públicas.

Sociedade alemã longe de ser aberta

O programa eleitoral da CDU rejeita liminarmente a adesão da Turquia à União Europeia e opõe-se à ideia da dupla nacionalidade, e ao direito de voto dos estrangeiros de fora da UE nas eleições locais.

As hipóteses eleitorais da CDU na comunidade muçulmana não melhoraram depois da publicação recente de um artigo no semanário Der Spiegel. Esta revista cita uma informação desclassificada de uma conversa entre o chanceler Kohl e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher em 1982, na qual o chanceler não esconde o seu desejo de se ver livre de metade dos turcos alemães, pagando aos que se dispusessem a partir.

“Hoje seria difícil ganhar eleições fazendo campanha contra os imigrantes”

Na altura este tipo de palavras não chocava ninguém. “Hoje seria difícil ganhar eleições fazendo campanha contra os imigrantes”, afirma Orkan Kösemen. A sociedade alemã está longe de ser uma sociedade aberta. Apenas 11% dos alemães ficariam contentes se o futuro chanceler fosse de origem estrangeira. Mais de um terço da população ficaria claramente insatisfeita, segundo os resultados de uma sondagem do Instituto YouGov.

As eleições legislativas deste ano serão abertas em três dos 16 estados à Aliança para a Inovação e Justiça (BIG), um partido fundado por muçulmanos com o objetivo de representar os imigrantes. “Daqui a dez anos estaremos no Governo”, afirma Ismet Misirlioglu, um dos seus líderes. O seu objetivo é sem dúvida exagerado, mas os partidos tradicionais devem levar as suas palavras muito a sério. Se dececionarem os imigrantes, mais cedo ou mais tarde, novas formações políticas acabarão por captar este eleitorado.