Em Bruxelas, a folha de cálculo de Michel Barnier é quase tão conhecida como o próprio Michel Barnier. Quando o comissário europeu encarregado dos Serviços Financeiros [e do Mercado Interno] vai para uma reunião, leva sempre debaixo do braço uma folha A4 com a famosa tabela. O beócio não vê senão uma tabela de Excel, cheia de jargão técnico indecifrável, com as células pintadas com cores berrantes. Mas, perante isso, o alto saboiano de cabelo prateado sempre impecável está lá, disposto a dar esclarecimentos. Basta olhar para cima: alinhadas, estão todas as medidas reclamadas em 2009 pelos líderes do G20 para domar uma finança que levou o mundo para a beira do precipício. Sempre que uma dessas medidas foi lançada a nível europeu, Michel Barnier pintou a célula correspondente. E nunca deixa de sublinhar, com a enorme seriedade que o caracteriza, que já nada está em branco.

Jornalistas, banqueiros, advogados e, não há muito tempo, até mesmo François Hollande: todos tiveram direito a uma apresentação desta tabela, recentemente editada em formato desdobrável, mais pequeno e estético. Nem Bento XVI escapou, por ocasião de uma audiência concedida em fevereiro último, três dias antes de abandonar o seu cargo. A fotografia que testemunha esse momento está agora em lugar de destaque no gabinete do comissário…

O ex-ministro francês vê neste documento uma prova do seu sucesso. “Cobrimos todas as áreas que precisavam de ser regulamentadas”, garante. Quando chegou ao cargo, mais de um ano depois da falência do Lehman Brothers, tinha um plano de trabalho claro: dar um novo enquadramento à finança, ainda apontada a dedo por todos os líderes mundiais. Atirou-se ao trabalho com voracidade. Ao todo, foram apresentados ou já aprovados cerca de 30 textos. “Um tsunami legislativo”, lamenta um lobista da City. Foram poucos os atores que escaparam: gabinetes de auditoria, agências de notação, bolsas de valores, hedge funds, bancos… No auge da crise, em 2011 e 2012, cerca de um terço de todos os textos apresentados pela Comissão saíram dos serviços de Michel Barnier.

Este frenesim legislativo contrasta com o passado recente. Antes da falência do Lehman, a Comissão Europeia era uma acérrima defensora da desregulamentação. Alguns funcionários ainda se lembram com terror das fúrias de Charlie McCreevy, o antecessor de Michel Barnier, quando ouvia falar em legislar. “Não é preciso legislar em matéria de finança, vão esquiar ou vão para casa!”

Um comissário demasiado francês

O homem que desembarcou nos escombros do pós-Lehman não sabia quase nada do mundo do trading e dos produtos derivados

Evidentemente, em 2009, quando a Comissão mudou, esse discurso não era para manter. O homem que desembarcou nos escombros do pós-Lehman não sabia quase nada do mundo do trading e dos produtos derivados. Assim, teve a ideia de concentrar o seu programa numa única frase, que repete quase todas as semanas nas múltiplas conferências que faz por toda a Europa: “Nenhum ator financeiro, nenhum produto financeiro escapará à regulamentação”. Não foi escolhida ao acaso: uns dias antes da sua nomeação oficial, em 2009, Michel Barnier ouviu-a da boca de Angela Merkel. Para alguém se manter em Bruxelas, é bom que siga os passos da verdadeira chefe…

Simbolicamente, no início de 2010, também decide que a sua primeira visita oficial fora de Bruxelas será a Londres. Dizer que o Governo britânico não tinha absolutamente vontade nenhuma de ver a City ser analisada e regulamentada por um francês ainda é pouco, viu-o como uma raposa a entrar no galinheiro. “The most dangerous man in Europe” [“O homem mais perigoso da Europa”], titulou, na altura, o Daily Telegraph, o maior diário eurocético.

Barnier esforçou-se sempre para que Londres não ficasse isolada ou em minoria nas negociações sobre os seus diferentes textos legislativos. E, de facto, isso aconteceu uma única vez em quatro anos – na questão do teto máximo para os bónus dados aos banqueiros. “Não tenho nenhum problema com os britânicos e acho que eles perceberam que eu não sou um ideólogo”, garante. As suas relações com George Osborne, o ministro das Finanças, continuam sinusoidais, na opinião de vários diplomatas. A City continua a desconfiar do comissário, por ser demasiado francês.

O atavismo de Barnier

Para os outros europeus, a desconfiança não se põe. A hora dos balanços aproxima-se e o dele, cinco anos após o Lehman Brothers, é muito elogiado nos meios comunitários. Numa Comissão onde há muita gente com falta de vontade e insignificante, Barnier destaca-se pelo seu atavismo. “No conjunto, conseguiu fazer reformas muito ambiciosas numa área onde as pressões são muito fortes”, afirma um profundo conhecedor dos arcanos comunitários. Para dar apenas dois exemplos, as prudenciais regras do Basileia III vão ser aplicadas ao setor bancário e as transações de produtos derivados terão de ser mais transparentes. Algumas das novidades mais espetaculares não vieram dele – como o teto máximo dos bónus ou a proibição de venda de CDS a descoberto –, mas Barnier soube habilmente tirar partido das exigências do Parlamento.

A principal realização da Europa nessa matéria, a união bancária, foi iniciada por Mario Draghi ou por alguns líderes nacionais

É assim que se pinta uma tabela inteira. Mas esse sucesso pode ser também o seu maior falhanço. “Essa tabela, limita-se simplesmente a mostrar células. Não tem nada de estratégico e ele é incapaz de dar uma visão em termos de arquitetura dos serviços financeiros”, diz um responsável. A principal realização da Europa nessa matéria, a união bancária, foi iniciada por Mario Draghi ou por alguns líderes nacionais. [Michel Barnier] defende obstinadamente o seu balanço, que será o seu melhor aliado na tentativa de subir o último degrau que lhe falta. Porque o antigo ministro agarra-se ao seu sonho europeu: e se ele tomasse o lugar de Durão Barroso à frente da Comissão? O seu nome aparece frequentemente, apesar de os prognósticos dizerem que as suas possibilidades são limitadas. Barnier ainda recusa falar sobre esse assunto, considerando, sem dúvida, que poderá ser um candidato de compromisso se as eleições europeias tiverem como resultado um Parlamento muito dividido. “Estou disposto a ir até onde acharem que serei útil”, contenta-se em responder. Será, então, altura de começar a planear a elaboração de uma nova tabela.