Com ar pensativo, um grupo de homens sai em silêncio da vivenda e entra no automóvel que os espera. Antes de fechar a porta, um deles diz, num inglês perfeito: "Não é possível. Tem de telefonar a marcar entrevista”. Depois, o automóvel desaparece no labirinto de ruas de um bairro residencial.

Na porta da vivenda não há nem placa nem campainha, mas tudo indica que é a morada certa. De acordo com o site oficial de Internet da COVEC (China Overseas Engeneering Group), é desta casa situada no subúrbio de Varsóvia que hoje é dirigida a expansão – há muito planeada – de Pequim na Europa. Após ter ganho o concurso para a construção da autoestrada A-2 da Polónia, a COVEC comunicou que estava interessada em projetos semelhantes noutros países europeus, incluindo na República Checa.

"Não sabemos muito sobre eles. De momento, não são ainda muito numerosos", afirma Martin Hadaj, porta-voz da Direção-Geral polaca das Autoestradas, encolhendo os ombros: "Na verdade, nem vos posso sequer dizer se vêm e, a virem, quantos serão e se trazem máquinas com eles". E, acrescenta, desdobrando sobre uma mesa mapas policromos da Polónia: "Temos necessidade de centenas de quilómetros de novas estradas e temos o tempo contado".

De 40 a 900 km de autoestradas polacas até 2013

O tempo aperta, porque a Polónia é co-organizadora, com a Ucrânia, do próximo Campeonato Europeu de futebol, em 2012. Uma ocasião única, para este país de 40 milhões de habitantes mostrar ao mundo os imensos progressos que realizou nos últimos anos. A Polónia é um dos raros países da União Europeia que, com a crise económica, não teve nem recessão nem um défice orçamental significativo. Quanto à Bolsa de Varsóvia, após algumas hesitações dos investidores, tornou-se uma das praças financeiras europeias mais procuradas pela sua estabilidade.

Aquando da sua entrada na União Europeia, a Polónia possuía apenas 40 quilómetros de autoestradas; mas, até 2013, deverá passar para 900. O Governo polaco tenciona depois construir mais de quatro mil quilómetros de novas autoestradas e vias rápidas e modernizar dois mil quilómetros de estradas já construídas.

Foi neste contexto de concursos em série que a COVEC entrou em jogo, em meados de 2009. Trata-se de uma das maiores empresas asiáticas, um verdadeiro motor para a expansão das obras públicas chinesas nos países vizinhos. "A sua proposta ficava 40% abaixo das estimativas, muito longe da concorrência", explica Martin Hadaj.

Um meio de escapar à corrupção endémica

Nada no estaleiro trai a presença da COVEC, ao contrário do que se pode ver em redor, onde bandeiras arvoram os logótipos das empresas: aqui, as escavadoras amarelas são bastante polacas, tal como os logótipos dos subcontratantes. "Não há nenhuma máquina, nem nenhum trabalhador chinês no estaleiro. Os habitantes da região tinham muitos receios a esse respeito", observa Pavel Osovski, um consultor de Varsóvia que colabora com a empresa chinesa. Segundo ele, os engenheiros chineses aparecem apenas ocasionalmente, para controlar o trabalho.

Hoje, quando os peritos polacos falam da chegada dos chineses ao mercado polaco, dizem que tem agido sobretudo como um catalisador e que acelerou o processo de reforma do sistema dos concursos. “Dantes, havia apenas duas dezenas de atores no mercado polaco de obras públicas. Hoje são 200", afirma Hadaj, alegando ao mesmo tempo que, graças a este sistema, o custo de construção de um quilómetro de autoestrada passou para um terço, em poucos anos.

A perspetiva da chegada de empresas de obras públicas chinesas ao mercado suscita frenesim em Praga, onde a vinda dos chineses é bastante bem acolhida no mundo político. Vít Bárta, ministro checo dos Transportes, considera, por exemplo, que o caso polaco – ainda com resultados longe de serem inteiramente conhecidos – pode ser uma fonte de inspiração. O recurso a empresas chinesas permite, com efeito, escapar à maldição da corrupção endémica que envolve a construção de autoestradas na República Checa.

Contudo, a entrada dos chineses no mercado das obras públicas comporta riscos. Os preços baixos praticados pelas empresas chinesas explicam-se pelo apoio financeiro – e político – que recebem de Pequim. Com efeito, as autoridades chinesas controlam o conjunto das empresas do setor e desejam estender tanto quanto possível a sua expansão na Europa.