As revelações tiveram o efeito de uma bomba na Comunicação Social húngara. A 18 de novembro, o semanário Heti Válasz publicou um artigo, baseado em cinco documentos guardados nos arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que provam que o jornalista Paul Lendvai colaborou com o regime comunista.

A viver em Viena após o esmagamento da insurreição húngara de 1956, Paul Lendvai é o mais célebre dos comentadores da vida política do seu país. Recentemente publicou um livro, Mein verspieltes Land [O Meu País Perdido], em que traça um quadro sombrio de uma Hungria que enfrenta o ressurgimento do racismo e do antissemitismo.

Desestabilizado pelas revelações do Heti Válasz, Paul Lendvai não respondeu às perguntas dos jornalistas mas explicou que ele próprio foi perseguido pela polícia. “Não é surpreendente que alguém não diga, sem que a isso seja obrigado: ‘Eu era uma boa porcaria, desculpem’. É a exceção e não a regra, eis a natureza humana”, comentou László Tamás no site hirszerzo.

Mas o editorialista de esquerda acrescenta que “János Martonyi ou Pál Schmitt quiseram viver. E viver bem [antigos privilegiados do regime comunista, hoje de direita, são, respetivamente, ministro dos Negócios Estrangeiros e Presidente da República]. Paul Lendvai também – pelo simples facto de ser o melhor especialista em política húngara no Ocidente. E pagaram o preço que a ditadura lhes pediu. Muito bem. Mas têm, agora, de acertar o preço moral que a democracia lhes exige pelo seu passado oportunista”.

Seis meses após a confortável vitória do Fidesz (centro direita) nas eleições legislativas, e quando a Hungria se prepara para assumir a presidência da UE, este assunto vem juntar-se às polémicas sobre a política do primeiro-ministro Viktor Orbán, que muitos consideram ter tendências autoritárias.

No seu blogue, o antigo ministro socialista Ferenc Gyurcsány é uma das raras pessoas a defender Paul Lendvai. “Sinto-me enojado. Este assunto fala apenas em parte de Lendvai. Na verdade, trata-se da direita húngara. (...) Quanto a mim, apoio-o na sua luta para fazer aceitar as razões das suas decisões passadas. (...) E é preciso parar de escarafunchar o passado.”

No semanário independente HVG, János Pelle escreve que “muitos esperam que Orbán, em vez de estabelecer as bases de uma democracia mais sólida, introduza um sistema autoritário e, à semelhança de Putin, se instale no poder para ficar. Só conseguirá refutar estas acusações com factos e gestos concretos”.

No entanto, interroga-se o jornalista e professor de história da Escola Rabínica de Budapeste, “como é que os jornalistas ocidentais, que se mostram sempre compreensivos para com os governos de esquerda, olham para Orbán como alguém que lhes evoca os perigos do fascismo”?