Gouina está sentada em frente a uma barraca azul que é, na prática, loja e bar. Está sentada numa cadeira com o queixo nas mãos e as pernas cruzadas. Tem vista para a antiga Câmara Municipal, um vestígio da época comunista búlgara, e para parte da sua casa: uma fachada de tijolos, uma porta branca de madeira, um jardim.

Gouina aponta com o dedo para a construção. Já a tem há 20 anos. Tem um apartamento na cidade mas prefere passar os invernos aqui, onde tem lenha para se aquecer.

Está reformada e vem de Goliam Dervent, a 20 km de Elhovo e a três da fronteira turca. O nome da aldeia significa “A Longa Marcha”. É o primeiro lugar da Bulgária onde os refugiados sírios chegam após a sua longa fuga.

Gouina é uma espécie de porta-voz dos habitantes de Goliam Dervent que, de resto, nada têm contra os refugiados, até porque estes não ficam muito tempo por aqui. Vão passando pela aldeia e aos milhares.

“Polícia, polícia, Sófia, Sófia”

“Quando chegam a uma fonte, dizem ‘Polícia, polícia, Sófia, Sófia’, e nós esperamos que eles matem a sede”, conta Gouina. “Bebem água, mas nunca comem. Têm talvez medo de serem envenenados. Estamos com eles, coitados, porque estão a fugir. Veio uma vez um homem numa cadeira de rodas. Eles são amáveis. Uma vez, estava a chover e, por isso, até os deixámos ficar dentro da loja.”

Agora, já não há jovens e ninguém vai à Turquia. Às vezes um ou outro russo visita este local, onde a maioria das casas está deserta e em ruínas

A aldeia não tem mais de 50 habitantes. No tempo do comunismo eram 1600. Os jovens faziam comércio de madeira com a Turquia. Agora, já não há jovens e ninguém vai à Turquia. Às vezes um ou outro russo visita este local, onde a maioria das casas está deserta e em ruínas.

Para lá da aldeia, junto ao caminho-de-ferro que leva à fronteira, existe uma antiga caserna. A porta está aberta. Vesselina Dimova é a presidente de Câmara da aldeia. As bandeiras da Bulgária e da União Europeia flutuam à janela. Tem na mesa um calendário com o retrato do antigo primeiro-ministro Boïko Borissov. Mostra-nos um sinal rodoviário que a polícia da fronteira é obrigada a utilizar: “Fechar à entrada e à saída”. Ri-se quando o fotografamos e chama-lhe “o meu pequeno sinal”. Sorri quando olha para a abertura na vedação que marca a fronteira.

“Os refugiados passam por aqui. Se alguém os vê chama a polícia. Se não os encontra, é porque está demasiado ocupada a procurar noutro local (com câmaras de infravermelhos). No outro dia chegaram doze pessoas, duas famílias com crianças pequenas.”

Segundo Dimova, “não são perigosos e não dão problemas. Damos-lhes comida e água e as pessoas da aldeia ajudam-nos”. Enquanto está a falar, apercebemo-nos, pela janela, da passagem de um carro da polícia de fronteira.

Tal como o ministro da Administração Interna e as autoridades nacionais, Dimova usa a palavra “vaga” a propósito dos refugiados. Segundo a polícia são perto de 4500 pessoas e não se sabe onde meter tanta gente.

O caminho dos refugiados

A maioria dos refugiados chega a Goliam Dervent de manhã. Têm de esperar pela polícia de fronteira que os escolta até Elhovo. São então registados e fazem exames médicos antes de serem levados para centros de acolhimento temporário. Os centros de Pastrogor e de Liubimets são os mais próximos. Um depende da Agência Nacional para os Refugiados e o outro da Direção das Migrações. São diferentes: um é do tipo aberto e o outro fechado.

Quase todos os refugiados sírios têm identificação, o que simplifica a tarefa das autoridades. Os que não a têm, tiveram de a dar aos traficantes com a promessa de a recuperar mais tarde, ou perderam-na, conta a polícia.

Antigamente, o ponto de passagem por excelência dos refugiados era o posto de Kapitan Andréevo. A partir do momento em que foi equipado com um sistema de observação integrado que até permite visualizar o que se passa do lado turco da fronteira, os refugiados já não conseguem passar por aqui. São presos pelas autoridades turcas. Agora preferem passar por Elhovo, que fica no meio de uma floresta.

“Ficamos contentes de ver estrangeiros”

Gouina entra na sua barraca azul. Pela terceira vez pergunta-nos se queremos alguma coisa. “Ficamos contentes de ver estrangeiros.” O carro da polícia de fronteira estacionou há pouco em frente à loja. Os agentes não podem falar sem autorização oficial mas informalmente dizem-nos que não existem problemas. Nada de que se queixem. Perguntam-nos se sabemos alguma coisa do novo centro de coordenação de Elhovo. A sua inauguração foi anunciada a 17 de setembro pelo ministro da Administração Interna. Riem-se quando lhes dizemos que os trabalhos deverão durar apenas dez dias.

Gouina encosta-se à ombreira da porta da loja. Desejamos-lhe boa sorte, sorri e despede-se: “Espero bem que sim, mas tenho dúvidas”, afirma. Arrancamos no nosso carro enquanto ela se volta a sentar na cadeira com a mão no queixo.