Gás de xisto: Revolução não chegará à Europa

Uma máquina de exploração de gás de xisto em Ksiezomierz, Polónia. Junho de 2013.
Uma máquina de exploração de gás de xisto em Ksiezomierz, Polónia. Junho de 2013.
11 outubro 2013 – Les Echos (Paris)

Esta semana, a proibição da exploração de gás de xisto foi confirmada em França e o Parlamento Europeu exigiu que estudos de impacto ambiental antecedam qualquer perfuração. Mais obstáculos para um recurso que provavelmente não será a solução para os problemas de energia da Europa.

O gás de xisto tornou-se objeto de grandes fantasias em França. Segundo o US EIA, organismo governamental de estatística dos Estados Unidos sobre energia, a França tem consideráveis reservas de petróleo e gás de xisto: 3870 mil milhões de metros cúbicos de gás e 4,7 mil milhões de barris de petróleo.

Ou seja, cerca de 80 anos de consumo de gás e quase 60 anos de petróleo. Algo que abre boas perspetivas. Os franceses não são os únicos a fantasiar com a questão. A Polónia quer reduzir a sua dependência em relação à Rússia, a Grã-Bretanha pretende compensar o declínio das suas jazidas no Mar do Norte...

Nos Estados Unidos, estes hidrocarbonetos não convencionais provocaram, efectivamente, uma revolução. Entre 2005 e 2012, a produção de gás aumentou 33% e a de petróleo 28%. Segundo um estudo muito recente do IHS Cera (empresa de consultoria que aconselha o setor do petróleo), esta atividade levou à criação de 2,1 milhões de postos de trabalho (incluindo indiretos e induzidos), em 2012, gerou 75 mil milhões de dólares [55 mil milhões de euros] em receitas fiscais e provocou um aumento de 1200 dólares [888 euros] nos rendimentos de cada agregado familiar.

O país beneficiou duplamente do efeito do petróleo e gás de xisto: não só a sua economia teve uma atividade renovada resultante da própria exploração petrolífera, mas também aproveitou a queda drástica dos preços, relacionada com o aumento da produção de gás, que baixaram para um quarto em seis anos. Tratou-se de uma enorme vantagem competitiva, que beneficiou as indústrias fortemente consumidoras de energia e encetou um processo de reindustrialização nos Estados Unidos. A independência energética do continente norte-americano até ao final da década é agora considerada uma hipótese plausível.

Sem réplica na Europa

Temos, contudo, de constatar que a Europa não é a América do Norte. Mesmo admitindo que as dúvidas levantadas sobre a poluição relacionada com a sua exploração não se colocassem e que a tecnologia utilizada, a famosa fraturação hidráulica, fosse permitida em toda a parte, o gás de xisto não iria causar na Europa um choque económico da mesma magnitude que nos Estados Unidos. O argumento é regularmente utilizado pelos adversários dessa exploração, mas é também largamente partilhado por especialistas do setor do petróleo e do gás.

Ninguém hoje em dia tem ideia do verdadeiro potencial da Europa

Nenhum estudo sério foi feito sobre o assunto. O exercício apresenta-se como uma tarefa impossível, porque ninguém hoje em dia tem ideia do verdadeiro potencial da Europa. As estimativas avançadas pelo US EIA e outros organismos nacionais norte-americanos referem-se a hidrocarbonetos presentes a priori no subsolo, em função da geologia, e não aos que seriam extraídos a um custo aceitável.

Ora é raro que a taxa de extração seja superior a uma pequena percentagem. Mesmo que fosse de 10% em média – um nível bastante otimista -, o potencial de produção de gás de xisto não excederia os 1300 mil milhões de metros cúbicos na Europa. Ou seja, apenas 5% do consumo anual europeu, para um período de 25 anos de produção. Um cálculo muito teórico, mas que tem o mérito de equacionar ordens de grandeza. Nos Estados Unidos, os gases não convencionais representaram 56% do consumo em 2012.

A rapidez e a magnitude da expansão da produção além-Atlântico também não podem ser replicadas na Europa. As condições excecionais existentes nos Estados Unidos não têm equivalência do lado europeu, nomeadamente a presença de uma grande indústria de petróleo e gás, equipamentos abundantes, uma rede de gasodutos, grandes espaços livres: tudo isso lhes permitiu perfurar mais de 200 mil poços em poucos anos. O contexto jurídico também desempenhou um papel importante: os cidadãos norte-americanos são proprietários do seu subsolo e têm interesse financeiro em negociar diretamente com as empresas.

Infraestrutura limitada

Na Europa, não só a infraestrutura é limitada, como a regulamentação local é mais rigorosa. A Polónia, que começou a exploração em 2008, abriu quarenta poços. Na Dinamarca, os primeiros furos demoraram um ano a ser abertos, tempo necessário para a realização de estudos de impacto ambiental exigentes. O mesmo se constatou no Reino Unido. “Na Europa, há que contar com pelo menos dez anos, entre a abertura de um local de exploração e a entrada em produção, quando nos Estados Unidos leva três”, prognostica um empresário.

Para além disso, por razões de aceitação, deverão ser limitados os pontos de perfuração simultânea numa mesma área. De acordo com um estudo recente da Bloomberg Energy Finance [líder do fornecimento de dados para profissionais do setor da energia], os custos de produção no Reino Unido seriam entre 50% e 100% mais elevados do que nos Estados Unidos.

A produção de hidrocarburetos de xisto, na Europa, seria mais cara e seguramente insuficiente para pesar nos preços

Menos intensiva e mais arrastada no tempo, a produção de hidrocarburetos de xisto, na Europa, seria mais cara e seguramente insuficiente para pesar nos preços e reduzir realmente a dependência energética dos diferentes países. Embora a França pudesse produzir 30% do seu consumo de gás, reduziria a sua fatura energética em apenas três a quatro mil milhões de euros por ano, de um total de 70 mil milhões em 2012. O impacto sobre o emprego seria também limitado.

As raras estimativas efetuadas sobre este ponto pelos gabinetes SIA Conseil, em França, e Poÿry, no Reino Unido, só conseguiram extrapolar a experiência norte-americana, baseando-se no número de postos de trabalho por milhares de milhões de metros cúbicos extraídos ou por número de poços.

Tais cálculos levam, na melhor das hipóteses, a poucas dezenas de milhares de empregos por país. O que não é certamente de desprezar, nos tempos que correm. Mas o gás de xisto não vai ser a receita miraculosa que permitirá à Europa sair da crise.

Traduzido por Ana Cardoso Pires

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