Washington teme que um aliado histórico da NATO como a Itália se deixe resvalar por uma encosta perigosa. Nos telegramas confidenciais difundidos pelo WikiLeaks, os norte-americanos recordam que Roma sempre teve uma certa autonomia nas suas iniciativas em relação a Moscovo e ao mundo árabe.

O que é completamente compreensível, tendo em conta a sua posição geográfica e o contexto político interno, marcado pela presença do mais forte Partido Comunista da Europa Ocidental. Era um jogo que não assustava Washington, porque podia ser interpretado – e, por conseguinte, gerido – segundo os critérios da geopolítica e da geoeconomia. Hoje, o contexto é diferente.

Considerado a Bíblia da estratégia norte-americana sobre as relações energéticas entre a Rússia e a Europa, o relatório "Eurasian Energy Security" foi redigido por Jeffrey Mankoff, especialista na matéria junto do Council of Foreign Relations, uma organização bipartidária de aconselhamento, que frequentemente inspirou a política externa das governações republicanas e democratas.

ENI: um instrumento nas relações entre entre Berlusconi et Putin

A análise de Mankoff descreve assim o papel da Gazprom: "uma empresa que tem alturas em que se identifica com o próprio Governo russo, servindo a intenção de Putin de gerir as relações com a Europa, jogando os países uns contra os outros". Foi a estratégia que Putin pacientemente construiu durante os oito anos da sua Presidência, de 2000 a 2008: "O gás tornou-se um elemento central do poder", prossegue.

A Itália é um elemento decisivo nesta estratégia porque, "com a Alemanha, representa quase metade das importações de gás russo para a Europa Ocidental". No conjunto, estes dois países asseguram perto de 40% dos lucros da Gazprom", um colosso que, pela sua natureza, se subtrai aos "sistemas de regras transparentes, aos controlos judiciais e às autoridades de vigilância" da União Europeia.

Visto da América, o perigo é o seguinte: "Para a Europa, a crescente dependência energética em relação a um grupo único – que coincide com um governo estrangeiro – coloca problemas potenciais de segurança, de transparência e de manipulação política". Os que, como a Itália, evoluíram para uma relação íntima com Moscovo, correm o risco de servir as intenções do Kremlin, à custa da unidade entre europeus.

A suspeita de que a ENI, o gigante italiano da energia, se tenha tornado num instrumento nas relações entre Berlusconi e Putin é confirmado com certas etapas decisivas no processo de "consolidação" do poder energético na Rússia.

No seu relatório, Mankoff recorda ainda que, "durante o seu segundo mandato presidencial, Putin acelerou de maneira espetacular a concentração das atividades ligadas ao gás e ao petróleo em dois gigantes russos: Gazprom e Rosneft. As empresas que pertenciam a oligarcas privados, como a Yukos de Mikhail Khodorkovsky, foram absorvidas".

A Yukos foi então objeto de uma compra temporária de ações por parte da ENI e da ENEL, o maior fornecedor italiano de eletricidade. Alguns grupos ocidentais foram admitidos nesta jogada, observa o Departamento de Estado, que recorda a expulsão da BP e da Shell, forçadas, sob a presidência de Putin, a vender os seus mais interessantes investimentos energéticos na Rússia.

Visto de Washington, alguma coisa se passa

Uma vez efetivada a concentração do seu império energético, onde coincidem política e negócios, e onde só os estrangeiros dóceis são admitidos, Putin passa à segunda fase da sua estratégia. "Trata-se de impedir o acesso direto da Europa aos recursos energéticos do Cáspio”, explica Mankoff, "essencialmente repartidos entre o Azerbaijão, o Cazaquistão e o Turquemenistão. A Rússia, reservando-se o controlo dos seus corredores de acesso ao Cáspio, acentua assim a dependência da Europa para consigo, tendo como consequências estratégicas para as relações atlânticas, a exposição dos nossos aliados europeus à influência de Moscovo".

Uma vez mais, esta estratégia está nas mãos de um "pequeno grupo de colossos estatais, como a Gazprom, desprovidos de qualquer tipo de transparência". É este aspeto em especial que interessa a Casa Branca e a secretária de Estado, Hillary Clinton: "a corrupção sistemática no setor russo inocula a corrupção na política europeia".

Podemos então interrogar-nos sobre quem cedeu às sereias do dinheiro e em que termos. Em Washington, fala-se no caso do ex-chanceler alemão Gerhard Schröder, cooptado para a presidência do conselho de administração do consórcio de gasodutos europeus North Stream, gémeo setentrional do projeto South Stream. Proposta pelos russos, a presidência deste último foi recentemente recusada pelo antigo presidente da Comissão Europeia, Romano Prodi.

O Departamento de Estado repete a principal acusação formulada pelos Estados Unidos: "O North Stream e o South Stream servem para reforçar a influência da Rússia na Europa. O nosso receio é reforçado pelos índices de corrupção com origem no Kremlin".

O South Stream está em concorrência direta com o projeto Nabucco, apoiado pela União Europeia. Com efeito, só este último permite contornar a Rússia. Se a escolha dependesse unicamente de critérios económicos, seria simples: "O South Stream custa perto do dobro do Nabucco", assinala Mankoff. Então, para quê implicar a ENI num projeto antieconómico, interrogam-se os norte-americanos? Visto de Washington, alguma coisa se passa.

Os interesses pessoais, motor da política externa italiana

Outro duro golpe à fiabilidade do projeto Nabucco foi dado no verão de 2008 pela guerra entre a Geórgia e a Rússia: para funcionar, este gasoduto necessita de estabilidade na Geórgia e nas outras repúblicas ex-soviéticas. A atenção do Departamento de Estado no que diz respeito a Berlusconi remete precisamente para esse momento, em que o presidente do Conselho italiano tomou uma posição pró-Rússia, oposta à dos outros membros da NATO.

O relatório secreto de Mankoff suspeita, pela primeira vez, que "Berlusconi e os seus acólitos tenham com o seu interlocutor russo relações de interesse financeiro ou de ordem pessoal". A gravidade da guerra na Geórgia devia reforçar a coesão entre europeus e evidenciar os riscos ligados a uma dependência energética excessiva em relação a Moscovo. A Itália, pelo contrário, demarcou-se. Estamos num momento decisivo.

E é urgente para Washington saber mais sobre essas suspeitas de “investimentos pessoais entre Berlusconi e Putin", que poderiam revelar-se o motor das escolhas da política externa italiana.

O perigo está diante dos nossos olhos: a Itália pode tornar-se um peão no tabuleiro de xadrez de Putin, um instrumento para dividir a União Europeia ou mantê-la dividida, de modo a tirar vantagens da fraqueza de cada um dos parceiros nas relações bilaterais." A dependência em relação ao semimonopólio russo do gás pode pôr cada um dos governos europeus numa posição que os impediria de se opor às exigências políticas de Moscovo", conclui Jeffrey Mankoff.