Foi durante um jantar organizado na sede do Conselho Europeu de Bruxelas. Tinham acabado de servir a sobremesa, pouco antes da meia-noite, quando Angela Merkel fez o que os chefes de governo europeus lhe pediam há meses: assumir uma posição de líder. Os países da zona euro devem tornar-se mais competitivos, insistiu a chanceler, o direito de vigilância exercido até à data pela Comissão Europeia já não é suficiente, é preciso criar “um maior compromisso”. O que não significa que a “dimensão social” deve ser ignorada, considerou a líder da CDU. A Europa precisa de dar um “salto qualitativo”.

Angela Merkel está determinada em assumir o cargo de chanceler europeia no decorrer do seu terceiro mandato. Nas últimas eleições, os alemães concederam-lhe mais votos do que alguma vez fizeram, passou a ser vista como “a dirigente política mais poderosa da Europa” (The Economist), e presidirá em breve a uma grande coligação com o segundo partido da Alemanha. Angela Merkel está convencida de que está numa posição de força para promover um projeto que deverá representar o seu legado político: a reforma da União Europeia. No entanto, apesar de, por enquanto, não existir o risco de a moeda europeia acabar, e de a conjuntura da zona euro começar finalmente a dar sinais de vida, Angela Merkel sabe perfeitamente que a crise pode voltar a qualquer momento. Desde a França à Itália, os partidos eurocéticos estão a ganhar terreno, as reformas estão em ponto morto em vários países endividados e os bancos não estão dispostos a conceder créditos.

Dinheiro em troca de reformas

A chanceler decidiu portanto preparar uma série de reformas europeias, e já sabe como impor o seu projeto: com a ajuda dos seus futuros parceiros de coligação – os sociais-democratas – tenciona promover o aspeto “social” da sua política europeia. Trata-se de pôr em prática programas contra o desemprego juvenil, contra a evasão fiscal, bem como um orçamento próprio para a zona euro para relançar o crescimento. Em contrapartida, o direito de vigilância de Bruxelas passará a abranger as políticas financeiras e económicas dos Estados-membros.

Dinheiro em troca de reformas: Angela Merkel tenciona avançar com o seu programa controverso sob uma forma “social-democratizada”. Para tal, arranjou um aliado de peso. Angela Merkel quer fazer aprovar o seu projeto com o apoio do presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, que preside à delegação do SPD nas questões de política europeia no quadro das negociações sobre a formação da coligação, e que tem já em mente as próximas etapas da sua carreira: por enquanto, ambiciona ser o cabeça de lista dos socialistas nas eleições europeias do próximo mês de maio. Mais tarde, se conseguir angariar votos suficientes, irá candidatar-se ao cargo de presidente da Comissão Europeia em Bruxelas.

Angela Merkel livrar-se-á finalmente daquele que outrora defendeu, mas que caiu atualmente em desgraça, o atual presidente da Comissão, José Manuel Durão Barroso. Este desfecho permitir-lhe-ia realizar reformas favoráveis ao crescimento e à competitividade em conjunto com Martin Schulz.

Uma estima recíproca

Martin Schulz reúne-se de forma regular com a chanceler em Berlim, trocam mensagens e elaboram compromissos

A linha do novo Governo de Berlim é previsível: a ausência total de obrigações europeias, mais dinheiro para os programas de recuperação e um escrutínio alargado a Bruxelas. Para impor este novo rumo, Angela Merkel, apelidada de “Mutti” [mamã] nas suas próprias fileiras, arranjou um novo favorito na pessoa do presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz. Apesar do executivo do SPD declarar publicamente que “Angela Merkel não é [a sua] melhor amiga”, cada um deles exprime toda a consideração que tem pelo outro depois de os microfones estarem desligados. Martin Schulz reúne-se de forma regular com a chanceler em Berlim, trocam mensagens e elaboram compromissos, sendo o mais recente sobre o orçamento adicional da UE. Ambos se opõem a uma resolução de todos os problemas à escala europeia. E também partilham a mesma opinião quanto aos meios que devem ser utilizados para reforçar a união monetária e económica.

Martin Schulz seria um “elemento de ligação” essencial para a grande coligação. O facto de ser próximo do líder do SPD, Sigmar Gabriel, pode acabar por ser vantajoso para Angela Merkel no plano europeu. As eleições europeias do próximo ano serão as primeiras realizadas de acordo com as condições estipuladas pelo Tratado de Lisboa. Os resultados serão portanto tidos em consideração pelos chefes de governo dos 28 Estados-membros para a nomeação do presidente da Comissão. Martin Schulz, 57 anos, que formou alianças no passado, tem fortes probabilidades de ser nomeado. Pode contar com um vasto apoio no Parlamento e no Conselho Europeu, que supera amplamente os membros da sua família política. Angela Merkel tem noção disso, e aceitaria sem qualquer problema a sua presença à frente da Comissão, nomeadamente porque o social-democrata goza da confiança do Presidente francês, François Hollande. O suficiente para relançar um motor franco-alemão cansado.

Angela Merkel esforça-se para não criar novos conflitos inúteis com o social-democrata

Há um único problema para Angela Merkel: enquanto presidente do CDU, não pode apoiar abertamente um membro do SPD. Na campanha para as eleições europeias, os dois futuros parceiros de coligação seguirão caminhos diferentes. No entanto, Angela Merkel esforça-se para não criar novos conflitos inúteis com o social-democrata. Na quinta-feira passada, a elite do Partido Popular Europeu (direita) reuniu-se para debater as próximas eleições europeias. Muitos queriam que o PPE colocasse o seu próprio cabeça de lista para enfrentar Martin Schulz. Angela Merkel e o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, expressaram por seu lado fortes reservas. A chanceler quer reservar-se o direito de divulgar o nome do seu favorito para o cargo de presidente da Comissão após as eleições – talvez se trate do social-democrata Martin Schulz.

Uma coisa é clara: toda a ajuda dos sociais-democratas alemães será bem vinda se Angela Merkel pretender impor o seu programa na Europa.