O racismo é próprio do homem. É assim e mais vale saber isso e impedir que ele progrida, combatendo-o por meio de leis. Mas não basta. É preciso educar, desmontar os seus mecanismos, provar o caráter absurdo das suas bases e nunca baixar a guarda.

Nos últimos tempos, a sociedade francesa tem sido vista como terreno de um racismo virulento, mas, no fundo não é mais racista do que muitas outras. A rejeição do estrangeiro, daquele que é diferente, daquele que é tido como uma ameaça para a própria segurança é um reflexo universal e nenhuma sociedade lhe escapa. Essa aversão pode, em alguns casos, centrar-se numa comunidade, mas isso não quer dizer que as restantes sejam poupadas. Por outras palavras, não há discriminação no exercício do ódio. Ninguém pode considerar-se a salvo.

Na Europa de hoje, assiste-se a uma série de desvios gravíssimos. Porque o racismo começa pela palavra e pode ir até aos fornos crematórios. Chamar macaca à ministra da Justiça francesa, Christiane Taubira, numa manifestação, em fins de outubro, contra o casamento de homossexuais é só o começo. Se o permitirmos, será fácil que se passe do insulto ao castigo corporal, à tortura (como no caso do jovem Ilan Halimi) e ao homicídio. É por isso que é preciso recordar que não há formas de racismo light ou descafeinado.

Christiane Taubira teve razão, ao lamentar o facto de nenhum dirigente político ter erguido a voz contra o racismo de que foi vítima. Recentemente, outra ministra sofreu um tratamento análogo: desta vez, em Itália. Trata-se da ministra da Integração, Cecile Kyenge, originária do Congo (Kinshasa), que foi insultada por alguns deputados da Liga do Norte, conhecidos pelo seu apego às ideias racistas. Até no mundo do futebol, jogadores de pele negra também têm sido alvos de um racismo bem enraizado. Quando o chefe de um Governo se permite fazer rir o seu público, falando do “aspeto bronzeado de Obama”, isso equivale a abrir as comportas e a dar àqueles que, antes, não ousavam manifestar abertamente seu racismo, o sinal que os encoraja a cultivar e dar livre vazão às suas ideias nauseabundas.

O racismo é a preguiça mental

É preciso encontrar um culpado. Dantes era o judeu, agora é muçulmano

O facto de, a pouco e pouco, a Europa ter perdido o seu lugar preponderante no mundo, não apenas no plano económico, mas também no plano cultural, favorece um azedume que pode transformar-se em desprezo por tudo o que seja diferente. A Espanha ainda não saneou a sua relação com o Islão. Os imigrantes oriundos do Magrebe são chamadas “mouros”, sabendo-se que esse termo é pejorativo e recorda a triste história da Inquisição. E a crise económica não veio melhorar as coisas. As suas vítimas desconfiam sempre daqueles que são mais pobres do que elas, mais diferentes do que elas. É isso que torna o racismo a atitude fácil perante as provações da vida. É preciso encontrar um culpado. Dantes era o judeu, agora é muçulmano.

É certo que o racismo sempre existiu, mas hoje não faltam políticos que o usam como forma de atrair clientela. É mais fácil incitar ao ódio contra o estrangeiro do que exortar ao respeito por aquele que é diferente. O homem tem tendência a deixar-se arrastar pelos seus piores instintos, sobretudo quando se encontra fragilizado por situações que não soube ou não quis enfrentar. O racismo é a preguiça mental, para já não dizer a recusa de pensar. Haverá sempre alguém disposto a pensar em vez de nós e apresentar-nos uma leitura simplificada do software do mal-estar.

Hoje, dizem-nos que nem todos os que aderem à Frente Nacional são racistas. Talvez não. Mas uma coisa é certa: todos os racistas serão sem dúvida bem acolhidos no seio desse partido, desde que sejam discretos quanto às suas convicções. Enquanto a principal preocupação dos políticos for a reeleição, continuarão a verificar-se os desvios mais indignos. Acrescente-se a isso a eficácia do novo look adotado pela Frente Nacional, que a faz parecer recomendável e até banal. A tentativa de mudar o estatuto, rejeitando o rótulo de “partido de extrema-direita” é um sinal interessante. Se fosse apenas uma questão de palavras, poder-se-ia pensar que a conotação extremista foi substituída por qualquer coisa mais profunda e mais perigosa: a banalização dos preconceitos e da xenofobia.

Mais pedagogia nas escolas

É preciso dizer e repetir que o medo e a ignorância são os dois pilares desse flagelo, que é possível desmontar o seu mecanismo, através do saber e da inteligência, através do debate e do fim dos tabus

Para combater as ideias desse partido, dever-se-ia poder responder sistematicamente, de cada vez que um dos seus dirigentes proclama falsas verdades ou propõe um programa que, além de não ser aplicável, seria ruinoso para o país. Em paralelo a essa vigilância, tragicamente omissa em todos os partidos políticos, é preciso realizar, nas escolas, um trabalho pedagógico em profundidade e de longo alcance. Para dar a conhecer às crianças, enquanto a sua mente está ainda aberta e disponível, as origens do racismo, a sua história, a sua natureza desumana e as tragédias que causou. É preciso dizer e repetir que o medo e a ignorância são os dois pilares desse flagelo, que é possível desmontar o seu mecanismo, através do saber e da inteligência, através do debate e do fim dos tabus. É preciso abordar todos os temas e não fechar os olhos aos desvios daqueles que, por seu turno, desenvolvem também uma forma de racismo, como reação às estigmatizações que sofreram.

Afirmar e demonstrar que existe uma única raça humana, que todos são semelhantes e ao mesmo tempo únicos, não fará, evidentemente, desaparecer o racismo. Mas, pelo menos, é uma verdade que capaz de abalar determinadas certezas.

Muitas vezes, quando as exasperações atingem o auge, os desvios multiplicam-se e diz-se que o racismo está a crescer. Mas, na realidade, ele esteve sempre presente, escondido nas mentalidades e pronto a expandir-se, quando o mal-estar cresce e, com ele, a necessidade de arrogância, para nos sentirmos vivos e, sobretudo, para nos considerarmos superiores aos outros.