Quantos dos 46 milhões de habitantes de Espanha saberão dizer alguma coisa sobre a senhora alemã de meia-idade que, hoje, tem nas mãos, o futuro da democracia duramente conquistada e o futuro económico do seu país; cujas decisões irão determinar se milhões de espanhóis conscienciosos poderão manter os seus empregos ou pagar as hipotecas das suas casas, em 2011 e nos anos seguintes; e cujo veredicto negativo sobre a economia espanhola irá dar origem não apenas a um programa de medidas de austeridade que superará grandemente os programas já lançados na Grécia e na Irlanda e que, além disso, poderá revelar-se como sendo o começo do fim da própria zona euro?

Imaginamos que não sejam muitos, uma vez que a senhora alemã de meia-idade que está a desempenhar o papel de Deus relativamente a uma das maiores nações europeias não é Angela Merkel. A chanceler alemã é fundamental na batalha em defesa da Espanha, que voltou a ser travada hoje, na cimeira de chefes de Governo, em Bruxelas. No entanto, afinal, não é ela a pessoa cuja aprovação ou reprovação pode modelar a vida em Espanha, durante uma década ou mais.

Essa honra cabe à figura indistinta de Kathrin Muehlbronner, poliglota e licenciada em economia pela universidade de Tubíngia, que – é uma tentação dizê-lo – poderá exercer uma maior influência reacionária sobre a vida em Espanha do que qualquer outra mulher, desde que, há mais de 500 anos, a rainha Isabel repeliu os mouros, expulsou os judeus e colocou a Inquisição no centro da vida da nação. Como? Kathrin Muehlbronner é vice-presidente e analista de risco (de escalão superior) especializada em Espanha da agência de notação de crédito Moody's. Isso faz dela a mulher cuja sentença pode mergulhar a Espanha no desconhecido, pelo simples ato de declarar que a quinta maior economia da Europa já não merece o rating Aa1.

Sem eleição nem tratado

Esta semana, Kathrin Muehlbronner esteve quase a acionar de facto a alavanca que abre o alçapão que atiraria a Espanha para uma câmara de tortura orçamental, que faria o orgulho do próprio Torquemada. "A Moody's acredita que os riscos de deterioração justificam que o rating da Espanha seja revisto com vista ao seu rebaixamento", anunciou Kathrin Muehlbronner, com a mão na alavanca – o que teve como resultado a queda do euro e dos mercados bolsistas. Momentos depois, abrandava a pressão. "A Moody's não acredita que a solvência da Espanha esteja sob ameaça", admitiu – o que teve como resultado uma ligeira recuperação do euro e dos mercados bolsistas.

A Moody's acredita que? Digam, por favor, quem elegeu a Moody's? Que tratado foi assinado pela Moody's? Com base em quê dobramos o joelho diante da Sra. Muehlbronner? Não tenho nada contra ela, mas sou firmemente contra a projeção e a influência da cultura das notações de crédito, na qual ela é uma atriz figurante em ascensão. E isso porque, numa altura em que os países do mundo lutam para escapar ao colapso financeiro global, a Moody's e as suas duas principais concorrentes, a Standard & Poor's e a Fitch, não são entidades neutrais objetivas, cuja única preocupação seja proceder a uma supervisão inteligente dos mercados.

Tratamos as agências de notação como se estas fossem árbitros. Até têm um lugar em quadros regulamentares elaborados apressadamente. Mas são atores – e não apenas atores mas especuladores. Assim, quando, nos anos 1990 e 2000, o crédito estava em expansão e era barato, todos os vendedores de obrigações eram habitualmente compensados com ratings AAA. Como disse, no começo deste ano, o presidente da comissão de inquérito à crise federal, criada por Barack Obama, a Moody's era "uma fábrica" de ratings AAA. O resultado foi que, desde as hipotecas sub-prime ao próprio mercado de obrigações, o sistema ficou saturado de produtos financeiros que tinham sido massivamente sobreavaliados, todos eles garantidos por aquilo que viria a revelar-se serem ratings igualmente sem valor.

Procedimento kafkiano

A maldição da cultura da notação de crédito nas finanças pessoais reside na sua imaturidade relativa no Reino Unido. Mas essa cultura aumentou, está a aumentar e deveria ser travada. Qualquer pessoa que conheça a cultura da notação de crédito pessoal dos EUA, da qual nasceu a cultura do risco da dívida soberana, saberá que esta é uma maneira kafkiana de fazer as coisas. Nos EUA, quem pedir um cartão de crédito e não tiver uma boa notação de crédito americana verá o pedido recusado e, além disso, o seu rating de crédito também será afetado, o que torna mais difícil obter o crédito de que precisa. Quem falhar um pagamento, seja por que motivo for, verá a agência classificá-lo como um risco – e receber de caminho algum dinheiro do banco por esse trabalho. Como acontece com os principais bancos e empréstimos em todo o mundo, os sistemas informatizados de marcação de "visto" substituíram as pessoas.

Passa-se exatamente o mesmo, embora de uma forma muito mais exagerada, no mundo do risco da dívida soberana. Aqui, contudo, as agências pronunciam-se sobre a administração das economias de povos soberanos. No entanto, o problema no mundo da dívida soberana é também, de várias formas, uma versão alargada do problema do mundo das finanças pessoais. Tal como as dívidas pessoais alimentadas pelo crédito ficaram fora de controlo, porque já não havia gerentes de grandes bancos que conheciam os clientes, conheciam a localidade e eram capazes de fazer avaliações inteligentes de casos individuais, também o mundo da dívida soberana está agora privado de racionalidade e de uma avaliação equilibrada nas suas transações relativas às nações.

Na vida real, a história tem que ver com pessoas. No mundo fictício das agências de notação, a história tem a ver com números. Acima da linha, bom; abaixo da linha, mau. Ninguém com um sentido humano da história poderá deixar de partilhar a dor da Irlanda perante a sua humilhação pelos mercados. Mas a ideia de uma grande nação como a Espanha – por cuja liberdade combateram e morreram amigos dos meus pais – poder ser obrigada a ajoelhar-se, por capricho de um bando de executivos que recebem salários excessivos e olham para ecrãs de computadores é simplesmente escandalosa. Como é que eles se atrevem?

As agências de notação de crédito estão a dirigir um assalto dos mercados às nações e aos povos. Temos de as travar seriamente, se conseguirmos. Isso faz parte do mais recente plano da Alemanha para a zona euro. É por isso que, a despeito de todos os seus erros, devemos sempre apoiar Frau Merkel e não Frau Muehlbronner.