Integração: No oitavo círculo do Inferno

O castigo dos ladrões na Alegoria do Inferno de Dante, uma ilustração de Gustave Doré (1857).
O castigo dos ladrões na Alegoria do Inferno de Dante, uma ilustração de Gustave Doré (1857).
3 janeiro 2011 – Die Tageszeitung (Berlim)

O debate sobre a integração espalhou-se célere pela Alemanha, depois de Thilo Sarrazin ter divulgado as suas teorias sobre a perda da cultura alemã causada por demasiados imigrantes muçulmanos. O escritor russo Wladimir Kaminer, ele próprio imigrante, junta-se agora à polémica, para advertir contra o perigoso hábito de dividir a sociedade em “fortes” (“produtivos") e “fracos” (“improdutivos"): goste-se ou não, diz, apoiamo-nos uns aos outros ou caímos todos ao mesmo tempo.

Quase todos os anos, há uma Alemanha que morre, como diz Thilo Sarrazin, e outra que surge. A vida avança, mudando todos os dias – para grande tristeza de alguns e alegria de outros. No meu bairro adotivo de Berlim, o Prenzlauer Berg, já assisti a toda a espécie de mudanças, nos últimos 20 anos.

Quando me mudei para cá, era uma área residencial ocupada pela chamada “borboleta noturna russa”: artistas e atores freelancer, que se agarravam às mesas dos bares como as borboletas aos castanheiros. Os boémios ocidentais estavam a substituir os taciturnos pensionistas alemães-orientais, nos apartamentos aquecidos a lenha e de casas de banho coletivas.

Vieram depois os barbudos funcionários públicos do norte da Alemanha, seguidos pelos empreendedores suábios e pelas crianças da era da Internet. Agora, a nossa vizinhança é mista e indistinta. Mas é patente que a maioria das pessoas não tem trabalhos decentes: apoiam-se umas às outras, desenrascam-se e é assim que conseguem seguir para diante.

A capacidade de mudar é o que distingue uma sociedade aberta de uma sociedade totalitária. O Presidente alemão disse em tempos que a democracia depende de que todos os cidadãos aceitem as suas regras. Na verdade, uma ditadura depende de que todos aceitem as suas regras; o que caracteriza uma democracia é que ninguém aceita as regras e muito menos as sabe de cor. Não, essas regras são permanentemente reinventadas, num processo democrático.

A grande arte da política consiste em ter em conta os vários grupos, as incontáveis minorias, e em abrangê-los a todos. Um Estado que se preza tem de mostrar solidariedade: só tem razão de ser se todos os seus cidadãos forem tratados como iguais – independentemente do dinheiro que põem nos cofres do Estado.

Infelizmente, a Alemanha está a praticar cada vez mais uma política de duas medidas. “Se queremos ter uma medida para os pouco produtivos, temos igualmente de ter uma medida para os muito empreendedores”, diz a chanceler – o que é uma maneira de dividir a sociedade. Com a mesma iluminação, um superempreendedor membro da direção do Banco Federal tentou dividir as pessoas em boas e inúteis. Só os “produtivos” merecem respeito, é a mensagem global.

Mas a “produtividade” não é, em si, uma qualidade humana; é um termo da revolução industrial. Um homem é mais do que um fator de produção: ganha ao fazer algo com paixão, não com a pressão de produzir e apresentar bons resultados. Para os que veem a vida como uma espécie de equação de custo-benefício, a ideia de “paixão” é perturbadora. O seu sonho é uma sociedade que se livrou de gente inútil – todos aqueles tipos improdutivos, que não produzem nenhum valor acrescentado respeitável, que se vestem de uma maneira esquisita e falam um alemão desgraçado só para conseguirem sobreviver.

Como as pessoas que em tempos vieram para a Alemanha fazer os trabalhos que nenhum alemão queria fazer. Serviam para extrair o carvão das profundezas das minas e depois desapareciam, eclipsavam-se ou transformavam-se eles próprios em carvão. Não sei como os alemães encaravam a vinda dos mineiros naquela época, em condições que ninguém pensava que os fizesse permanecer, trazer as esposas e criar os filhos.

Do ponto de vista de um contabilista, seria vantajoso livrar-se dessa gente. Assim, a Alemanha seria uma terra para os fortes e os espertos: pode-se sempre mandar vir os otários do exterior para fazer os trabalhos indesejáveis e, quando for conveniente, voltar a pô-los fora, depois de um teste genético.

Foram feitas repetidas tentativas para separar os fracos dos fortes, os certos dos errados – e não apenas na Alemanha. Mas todas falharam. Os fortes acabaram sempre por sucumbir juntamente com os fracos. Um enigma. Aparentemente, fortes e fracos estão fatalmente dependentes uns dos outros. Não conseguem resistir uns sem os outros. Assim que se eliminam os fracos, os fortes começam a definhar e a ser corridos para fora das fileiras. Ninguém consegue garantir o seu refúgio privado, nem o diretor do Banco Federal. São todos ou ninguém.

Fracos e fortes estarão para sempre acorrentados. Em dias bons, apreciarão o valor de terem de se manter juntos. Em dias piores, os demagogos semearão a dissensão e a ira entre todos. E dado que é muito mais fácil espalhar a discórdia do que a colaboração, os demagogos e os falsos conselheiros frequentemente obtêm grandes resultados. O que os introduz no oitavo círculo do Inferno de Dante, junto com todos os demais falsos conselheiros. Ou talvez no nono, com os traidores. Parece que é frio e desagradável, por lá, enfiados no gelo – sem ninguém que lhes dê a mão, para os tirar de lá.

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