Tem água até à cintura, o peito e a cabeça cobertos de sabão. Aceita com uma risada que lhe tiremos a fotografia. O homem, um afegão, toma banho na água tépida dos despejos da fábrica de produtos químicos Tioxide, em Calais. Foi numa sexta-feira à tarde, perto do bosque onde vive uma parte dos mil imigrantes sem-abrigo [dados do Centro de Socorro Católico] que se encontram na cidade, candidatos a asilo no Reino Unido, passageiros clandestinos durante a noite dentro (ou debaixo) dos camiões para Douvres. Há seis meses que o Auxílio Católico, no limite das suas capacidades, deixou de proporcionar duches. Manter-se limpo tornou-se um desafio para os imigrantes. A acrescentar a terem de fugir à polícia, que os assedia, a proteger-se dos passadores armados e a viver como lobos nos bosques.

Os afegãos lavam-se perto da fábrica e os eritreus no porto”, explica Céline Dallery, enfermeira no serviço permanente de acesso aos cuidados de saúde que depende do hospital de Calais. Neste dispensário de cuidados gratuitos, há um duche. São 40 imigrantes por dia, os que se acotovelam por um banho e para tratar as suas doenças de pele. Com o encerramento dos duches [do Auxílio Católico] coloca-se um problema de saúde pública: a sarna instala-se, devido às condições de vida no bosque e propaga-se porque não é possível tratá-la sem duches. “O número de visitas ao serviço permanente passou de 15 por tarde para 40, por causa da sarna. Basta tomar antibióticos, lavar-se e mudar de roupa.”

No diário Nord Littoral, um médico compara as doenças dos imigrantes às dos soldados de Infantaria da Primeira Guerra Mundial nas trincheiras. O tempo passado a tratar a sarna impede de se ocuparem de doenças mais graves, como a tuberculose, a diabetes e numerosas fracturas.

O governador civil pediu à Câmara para instalar uma fonte à entrada do maior “jangal”, como os imigrantes chamam à floresta onde se abrigam os afegãos pastuns. É um corrupio de gente com baldes e garrafas. No enorme acampamento, perto das cabanas feitas de paletes e de oleados, há uma “sala de banho”, dizem os afegãos com um sorriso trocista: são oleados azuis esticados entre choupos, cabinas sem duche com paletes de madeira no chão. Aquece-se água na fogueira, numa bacia de zinco enegrecida. Utilizam-se latas de conserva vazias para despejar água por cima do corpo. Pelo chão, vêem-se frascos de champô, máquinas de barbear descartáveis e latas de conserva vazias. “Lavamo-nos aqui, mas no dia seguinte estamos sujos”, suspira Ahmad [nome fictício], afegão, “o corpo está todo doente.”