Um casal à volta dos sessenta, com ar de professores reformados, chega a correr mesmo em cima da hora de fechar: "Tem o livro de Stéphane Hessel?” "Está ali um monte deles”. Um grande suspiro de alívio: pelos vistos, tinham. Um outro livreiro conta que alguns clientes compram por atacado: "Levo dez, para oferecer aos meus amigos”. Esta cliente pergunta na caixa: "Para que associação reverte o dinheiro das vendas?"

Publicado há dois meses, Indignai-vos!, de Stéphane Hessel, teve um êxito fulminante: 500 mil exemplares vendidos, dez edições e pedidos de tradução no mundo inteiro, da Turquia ao Brasil, da Polónia ao Japão.

Uma emoção coletiva

Sendo uma brochura de umas vinte páginas a três euros, este êxito não é tanto uma receita editorial milagrosa, mas sobretudo um fenómeno social. Da mesma maneira que trauteamos uma música e recomendamos um filme aos nossos amigos, Indignai-vos! cristaliza o espírito de uma época. Comprar esta brochura é um ato militante, um gesto de comunhão, a participação numa emoção coletiva. O objetivo, numa sociedade esgotada pelos altos e baixos da finança mundial e seus efeitos sociais, é encontrar palavras para dizer que a sociedade se ressente.

Quando escreve: "A atual ditadura internacional dos mercados financeiros […] ameaça a paz e a democracia", Stéphane Hessel exprime um sentimento largamente generalizado com a autoridade que a sua história pessoal lhe dá.

Depois do fracasso do alter mundialismo, uma vasta franja de opinião procura um meio para dar a conhecer que não quer viver num mundo onde uns enriquecem ao mesmo ritmo a que outros empobrecem. Acabou de encontrar um. Embora os seus leitores reúnam diversos ativistas de esquerda, Stéphane Hessel assume claramente a herança social-democrata.

Quanto ao resto, no seu texto, Hessel mantém uma grande moderação. Ao estabelecer uma comparação com a Resistência, pretende desde logo diversificar: "As razões para se indignar podem parecer atualmente menos claras, ou o mundo demasiado complexo. Quem manda, quem decide? Nem sempre é fácil distinguir as correntes que nos governam. Deixámos de ter contacto com uma pequena elite cujas atitudes compreendíamos claramente. É um vasto mundo, que sabemos bem ser interdependente."

E embora se coloque sob a autoridade do programa económico do Conselho Nacional da Resistência, não afirma conhecer soluções: "As propostas que figuram neste texto e os desafios que designo não são muito originais em si mesmos", reconhece.

A indignação é por si só um valor?

Resta o título, Indignai-vos!, slogan eficaz, mas ambíguo. A indignação é a chave do compromisso, repete Hessel, eliminando outros motivos que pudessem conduzir à ação política: tomada de consciência, decisão racional, desejo de servir, amor à justiça, ou à verdade …

Com este apelo à indignação, Hessel, infelizmente, alinha pelo diapasão de uma época dedicada ao espetáculo das emoções. A filósofa Hannah Arendt já havia analisado estes perigos ao provar como a "política da piedade", baseada na emoção suscitada pela miséria alheia, poderia prejudicar uma verdadeira "política da justiça". Será que uma "política da indignação" não irá correr o mesmo risco? Será a indignação por si só um valor?

Houve uma época em que o sonho dos avant-gardes das artes e dos contestatários era chocar a burguesia: a indignação era assim uma reação de direita. De A Velha Senhora Indigna, um conto de Bertolt Brecht, eis que passamos assim ao "velho senhor indignado".