Desde o início do ano que milhares de húngaros da Roménia envidam esforços para conseguir a nacionalidade húngara. Entre os primeiros candidatos, conta-se o opositor político László Tõkés, cuja detenção, em 1989, foi o rastilho para a queda do regime de Nicolae Ceauşescu. A ele irão seguir-se os húngaros da Eslováquia, da Voïvodine sérvia e da Transcarpátia ucraniana. A operação poderá oferecer a Budapeste mais 2 milhões e 500 mil novos cidadãos, em função do número estimado de cidadãos da minoria húngara do país vizinho.

Em maio de 2010, o Parlamento de Budapeste aprovou quase por unanimidade uma nova lei sobre cidadania. Desde 1 de janeiro que qualquer pessoa, exceto ex-delinquentes, pode solicitar a nacionalidade húngara, desde que consiga fazer prova das suas origens magiares, por parte de pais ou avós, e fale húngaro. Se não se instalarem na Hungria, os novos húngaros perdem o direito de voto e direitos sociais.

Um saque demográfico próprio da Idade Média

O lançamento, a 1 de janeiro, da operação "passaporte", passou quase despercebido, eclipsado por outras medidas controversas de Viktor Orbán. É uma pena, pois trata-se do saque organizado das populações dos países vizinhos, mais própria da Idade Média do que de sociedades desenvolvidas pós-industriais.

O fator humano tornou-se um trunfo precioso por causa da queda demográfica na Europa. Cada trabalhador que faça subir o PIB e combata as carências de uma população em declínio é um potencial fator de crescimento. Todos os países que praticam uma política ativa de aquisição de cidadãos revelam uma taxa de fecundidade inferior à média europeia de 1,5 crianças por mulher: na Hungria e na Roménia, esta taxa é de 1,3 e, em Espanha, de 1,4. Estamos longe das 2,1 crianças por mulher exigidas para garantir a renovação geracional.

Procurar cidadãos próximos na aparência e no comportamento

A vontade de não conhecer a má experiência dos países ocidentais europeus, que se esforçam por integrar os seus imigrantes de origens culturais muito distantes, reorienta a política de imigração. Não se trata agora simplesmente de procurar mão-de-obra, mas fazer a prospeção de novos cidadãos entre os compatriotas dispersos por outros países, por circunstâncias históricas, mas que se mantêm próximos na aparência e no comportamento.

Budapeste não é a primeira capital a pedir aos seus compatriotas que regressem. Esta política funciona igualmente bem na Roménia. A lei em vigor desde 2009 oferece o direito à nacionalidade romena a todos os descendentes de cidadãos do Estado romeno anterior à guerra. Após a adesão da Roménia à União Europeia, mais de um milhão de cidadãos moldavos (os principais visados pela lei romena), isto é, um quarto da população do país, apresentaram o pedido de passaporte romeno.

Neste contexto, vem-nos à memória os longínquos bandos de mercenários contratados por magnatas húngaros e estabelecidos, até ao século XVIII, no Norte dos Cárpatos, cuja única função era a caça ao homem. Cidades inteiras pilhadas e populações trazidas como gado para Sul, onde os húngaros as juntavam, a monte, nas suas terras. Acontecia o mesmo a Norte.

Durante a guerra entre a Rússia e a República das Duas Nações [república federal formada em 1579 pelo Reino da Polónia e do Grão-Ducado da Lituânia, até 1795], na década de 1650, foram capturados pelos soldados russos cerca de três quartos de camponeses lituanos, deportados depois para os confins da Rússia para desenvolverem o país. Acontece o mesmo nos dias de hoje, com a única diferença de que se alteraram os métodos (felizmente) e também o discurso oficial.

Eslavos de Leste parecidos connosco ou vietnamitas: basta escolher

As motivações húngaras e romenas têm, antes de mais, uma lógica nacionalista. As primeiras apoiam-se na política do passaporte para fazer desaparecer a vergonha do Tratado de Trianon, de 1920, que lhes custou três quartos do território. Ao passo que as segundas procuram vingar a perda da Bessarábia (atual Moldávia), em 1940, a favor da então URSS.

Para Espanha, a procura de novos cidadãos também é reparadora da História, embora resulte de um raciocínio completamente diferente do que anima húngaros e romenos. Em 2008, o Governo socialista de José Luis Zapatero fez aprovar a lei do direito a um passaporte para todos os descendentes de cidadãos espanhóis que tivessem fugido do país durante a Guerra Civil, ou para escapar à repressão da ditadura do General Franco. Até hoje, aproximadamente meio milhão de pessoas são titulares de um passaporte espanhol, principalmente descendentes de refugiados vindos de Cuba, da Argentina e demais países da América Latina.

Face a esta tendência, a Polónia não se mostra nada contente. No entanto, potencialmente, dispomos de uma reserva de polacos a Leste, crescente, da mesma maneira que outros países europeus apresentam uma queda demográfica.

O repatriamento dos anos 1990, ou a Carta Polaca [Karta Polaka – documento oficial instituído por uma lei de 2007, que confirma a pertença à nação polaca de pessoas que não possuam nacionalidade polaca, nem autorização de residência], são insuficientes perante as medidas tomadas pela Hungria, pela Roménia e por Espanha.

Se não quisermos polacos ou eslavos de Leste parecidos connosco, poderemos optar por vietnamitas que virão compensar o nosso fosso demográfico. A escolha é nossa.