Primeiro o novo Governo sueco, anunciou no passado dia 3 de outubro que iria reconhecer oficialmente o Estado da Palestina. Algo que fez no dia 30 de outubro. Em seguida, foi a vez o Parlamento britânico: numa votação proposta pelos trabalhistas no dia 13 de outubro, com 274 deputados britânicos a votar a favor e 12 contra o reconhecimento da Palestina. Poucos dias mais tarde, no dia 16 de outubro, os socialistas espanhóis submeteram um proposta de resolução ao Parlamento para o reconhecimento do Estado palestiniano. [O Parlamento dinamarquês deverá discutir uma resolução nesse sentido no dia 11 de dezembro].
A decisão do Governo sueco não foi improvisada, nem surgiu do nada. A nova ministra dos Negócios Estrangeiros, Margot Wallström, foi comissária europeia e vice-presidente da Comissão Europeia entre 2004 e 2009. Conhecia, portanto, muito bem a posição da UE perante a questão e sabia quais seriam as consequências da decisão unilateral da Suécia. O mesmo podemos dizer do Parlamento britânico: além de ser um dos países que mais apoio mostrou a Israel, o Reino Unido é também um dos países mais sensíveis ao terrorismo jihadista.
O facto de Ed Milliband, o chefe da oposição de um país com um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, apelar a um reconhecimento unilateral mostra claramente que o clima europeu está a tornar-se menos favorável para o Governo israelita. A Espanha fornece ainda mais provas desta tendência: em 1991, acolheu a Conferência de paz israelo-palestiniana e, desde então, manteve-se ativa nos esforços de mediação da paz na região.
Israel sempre viveu sob uma ameaça existencial. Às vezes, a ameaça surgia da hostilidade dos seus vizinhos árabes, que chegavam a negar a sua existência, e Israel não hesitava em retaliar com guerra. Outra ameaça vinha do terrorismo do Hamas e das organizações afiliadas, que bombardearam Israel com ataques suicidas. Por fim, havia o presidente iraniano Mahmoud Ahmandinejad, que negava o Holocausto e ao mesmo tempo desenvolvia o seu programa militar nuclear.
Israel venceu os seus vizinhos militarmente, impediu de forma efetiva ataques terroristas no seu território e conseguiu unir a comunidade internacional (incluindo a China e a Rússia) para obrigar o Irão a suspender o seu programa de enriquecimento de urânio. No entanto, mesmo depois de ter conquistado estas vitórias, Israel não percebeu que a simpatia internacional pela sua causa estava a diminuir, enquanto o apoio aos palestinianos estava a aumentar.
A última campanha militar israelita em Gaza, que causou um elevado número de vítimas civis, foi a gota de água para muitos Governos europeus. Estes Governos, e até mesmo o executivo norte-americano pró-israelita, cansaram-se de defender o indefensível. A ira contra Israel devido aos seus excessos em Gaza foi ainda reforçada pela retoma da construção de colónias e a confiscação de terras na Cisjordânia, um gesto que revela a impunidade do Governo de Benjamin Netanyahu. O primeiro-ministro parece convencido de que o laxismo dos europeus significa que sempre conseguirá impor a sua vontade.
Israel está a esquecer-se de uma coisa essencial: a perda de legitimidade internacional é tão perigosa, ou mais, do que todas as ameaças existenciais. Na mente de um elevado número de pessoas, Israel já ultrapassou os limites há muito tempo pela forma como trata os palestinianos, seguindo regimes como o do apartheid na África do Sul. Até ao momento, estas pessoas mantiveram-se em silêncio, embora tenham exprimido críticas em privado. Agora, estas atitudes começam a ser exprimidas com o reconhecimento da Palestina. No seu falso sentimento de segurança, Israel não parece perceber a mudança de perceções da opinião pública europeia ou as suas consequências.
A verdade é que o tempo está a esgotar-se para Israel e, se continuar neste caminho, acabará por ser isolado do plano internacional, como um país pária. O reconhecimento unilateral do Estado palestiniano por alguns países da UE não deverá ser decisivo. Os países que anteriormente pertenceram ao Pacto de Varsóvia, como a Bulgária, a República Checa, a Hungria, a Polónia e a Roménia, bem como Malta, o Chipre ou a Islândia, já reconheceram o Estado palestiniano sem que existissem quaisquer consequências para Israel. No entanto, a tendência do reconhecimento da Palestina enquanto Estado, poderá indicar o empobrecimento de um ativo estratégico no arsenal israelita: a legitimidade internacional.