“Um pequeno aeroporto no nordeste da Polónia utilizado pela CIA para enviar prisioneiros raptados para tortura num campo de formação em serviços secretos próximo recebeu mais de 30 milhões de euros em fundos da UE”, escreve o EUobserver.

Segundo a investigação do site noticioso baseado em Bruxelas, “o dinheiro da UE faz parte de uma soma mais avultada de 48,5 milhões de euros para transformar a antiga pista de aviação militar num aeroporto internacional comercial conhecido como Szymany”.

A Comissão Europeia não tem poder de supervisão sob a forma como o dinheiro, retirado do fundo de desenvolvimento regional europeu, é gasto, uma vez que,

as somas são demasiado pequenas para esta ter uma participação direta. Desta forma, o dinheiro é administrado e gerido pelas autoridades regionais que desviaram todos os fundos para uma empresa que criaram após terem obrigado um empresário polaco-israelita, que tinha tido um papel fundamental na obtenção da subvenção da UE, a transferir a titularidade do arrendamento do aeroporto.

Há sete anos que está a ser desenvolvida uma investigação criminal “que pode implicar alguns dos altos-funcionários da Polónia e outras personalidades políticas”.

“Além das páginas negras da sua história”, acrescenta o EUobserver,

o aeroporto é o exemplo de como, e onde, não se deve criar projetos de infraestrutura com o dinheiro da UE: em 2005, o pequeno aeroporto registou apenas uma aterragem e descolagem internacional. Registaram-se cerca de 151 descolagens e 152 aterragens de destinos nacionais.

Para o aeroporto ser viável precisava de receber um milhão de pessoas por ano, mas os seus promotores dizem que não será possível atingir tal valor antes de 2035. Mariola Przewlocka, antiga diretora do aeroporto, afirma que “Szymany só conseguirá um equilíbrio orçamental com um milhão de pessoas a passar pelas suas portas de embarque. É uma tarefa impossível”. Demitiu-se “depois de fornecer provas do programa de extradição conduzido pela CIA ao Parlamento Europeu em 2007.”

Entretanto,

o seu antigo superior hierárquico, Jerzy Kos, presidia o conselho de administração do aeroporto quando os americanos faziam aterrar aeronaves Gulfstream e Boeing 737 em plena noite, em 2003. Cerca de um ano depois, foi raptado por rebeldes iraquianos em Bagdad e, mais tarde, salvo graças a uma operação de resgate de alto risco por uma equipa de operações especiais dos Estados Unidos.

Jacek Krawczyk, antigo presidente do conselho de diretores da LOT Polish Airlines (companhia aérea nacional polaca), considera que o projeto não faz qualquer sentido de um ponto de vista operacional e económico: “As autoridades locais vão encarar isto como um monumento que lhes permitiu gastar fundos europeus”, contou ao EUobserver, acrescentando que o aeroporto em Gdansk, situado mais para o norte, já tem boas ligações para a Escandinávia e outras partes da Europa de leste e ocidental.

A oito quilómetros do aeroporto, e quase à mesma distância da base Stare Kiejkuty, o centro de formação em serviços secretos polaco onde os americanos terão cometidos os crimes, está Szczytno, uma cidade com 20 mil habitantes. Esta beneficia dos mesmos fundos regionais da UE usados para cofinanciar o aeroporto. “O dinheiro permitiu renovar edifícios, parques e as ruínas de um castelo, tendo cada obra um cartaz a indicar a contribuição da UE”, escreve o EUobserver. No entanto,

apesar do seu envolvimento direto no projeto, o presidente da câmara recusou-se a responder às nossas perguntas acerca da viabilidade económica do aeroporto, das previsões turísticas e dos possíveis impactos nos mercados locais de trabalho.