A “Geração E” começa aqui. Trata-se de um projeto pan-europeu que tem como finalidade recolher dados para compreender este fenómeno – o quem, onde, quando, como e porquê – que leva os jovens do sul da Europa a abandonar, pelo menos por um determinado período de tempo, o seu país.

Este estudo, que engloba o testemunho de milhares de jovens de Portugal, da Grécia, de Itália e de Espanha revela, entre outros,

  • que o número de emigrantes provenientes do sul da Europa, segundo as estatísticas oficiais nacionais e europeias, é subestimado. Cerca de metade destes não está registado no país de destino;

  • que os trabalhos, as ambições pessoais e a formação são os principais motivos da sua partida;

  • que a maioria dos emigrantes deseja voltar ao seu país, mas não sabe quando o poderá fazer.

“Crowdfunding”

Queríamos ter em consideração o estado atual do fenómeno migratório e descrever uma geração que aprecia as conquistas recentes – como a liberdade de movimento, o programa Erasmus, a Internet e a difusão das línguas – e que encarna, talvez contra a sua vontade, o sonho de um povo europeu.

Portanto, pensámos: por que não dar voz a estes europeus e apontar para os limites dos números oficiais? Estes números são tudo menos exaustivos. O instituto grego das estatísticas nunca registou os “seus” emigrantes, o que significa que a Grécia assiste ao êxodo dos seus jovens sem saber realmente a sua dimensão. Os institutos de estatísticas de Espanha, Portugal e Itália fornecem estimativas fragmentadas e parciais, que não têm em conta os jovens que decidiram não registar-se no estrangeiro.

Para tal, criámos um questionário online disponível em diferentes línguas e promovido por um meio de comunicação social dos quatro países envolvidos. Os dados recolhidos através deste formulário – baseado em mais de 1200 testemunhos recolhidos entre setembro e dezembro de 2014 – relatam a vida, as experiências, os desejos e os sonhos de uma geração europeia. Mas, acima de tudo, revela que os jovens emigrantes do sul da Europa são pelo menos o dobro do que o indicado pelas estatísticas oficiais.

Há várias razões para que um jovem emigrante do sul da Europa não declare a sua mudança de domicílio para um novo país, por exemplo, para evitar burocracias ou para não se expor ao peso simbólico de um adeus oficial. Ou ainda, mais concretamente, para não perder – entre outros – o direito à assistência médica no seu país de origem.

Este último aspeto é confirmado pela socióloga espanhola Amparo González, segundo a qual, “para que se obtenha dados mais exatos, é preciso que as pessoas que mudam de país sejam incitadas a declarar a mudança de domicílio, contrariamente ao que ocorre em Espanha, onde, ao declarar que se vive no estrangeiro, uma pessoa pede direito a assistência médica ao fim de três meses”.

Mas como podemos entender completamente um fenómeno sem conhecer exatamente a sua dimensão? Como podem as instituições nacionais e europeias coordenar uma ação de apoio?

Este não seria o único problema a resolver se quiséssemos entender uma geração que vive com a mala na mão. O que precisávamos de entender era quantos destes jovens emigrantes queriam (ou querem) voltar aos seus países, mais tarde ou mais cedo.

O eventual regresso aos seus países de origem pode ser vistos de dois pontos de vistas diferentes. Por um lado, pode considerar-se como uma fuga de cérebros irreversível, o que significa uma perda económica para o país que forma estes jovens, que em seguida vão enriquecer a economia de outro país. Por outro lado, pode ser visto como um investimento rentável, uma vez que o país de origem aguarda o futuro regresso dos seus emigrantes, que voltam com novas experiências, conhecimentos e contactos.

A Geração E perguntou a esses jovens se queriam voltar aos seus países de origem e a resposta mais comum foi: “Gostava de voltar, mas não sei quando”. A segunda resposta mais dada foi: “Não”.

Em seguida, estão as razões que levaram estes jovens europeus a emigrar. Se o trabalho é o maior motivo – temos de considerar as elevadas taxas de desemprego dos quatro países –, as outras razões importantes por detrás da emigração são as ambições pessoais, a educação, a situação política do país de origem, os motivos sentimentais ou a simples curiosidade. As respostas demonstram que a inquietude é uma caraterística generalizada entres estes jovens emigrantes e que a sua decisão de viver no estrangeiro se baseia em mais do que um motivo.

Quatro países, uma história

A emigração é um fenómeno que carateriza todo o sul do continente, com consequências económicas e demográficas. Foi por isso que elegemos os quatro países que representam a Europa Mediterrânea.

Em 2012 e pela primeira vez que se recolheram os dados, a Espanha registou um fluxo migratório negativo, graças também à redução do número de chegadas. Em Itália, apenas em 2013, o AIRE – o registo dos cidadãos italianos residentes no estrangeiro – registou 94 mil expatriações, um aumento de 19,2% em comparação a 2012. Metade deles têm menos de 40 anos.

Em Portugal, todos os dias 200 pessoas abandonam o país. Infelizmente não existem dados precisos sobre a Grécia.

Neste ponto do nosso projeto, podemos afirmar que “Easyjet”, “Erasmus”, “Êxodo”, “Expatriação” e “Europa” são as palavras-chave que caraterizam esta geração inquieta, questionada sem preconceitos e com uma ideia romântica de que este exército de viajantes multiétnico formará as bases do futuro tecido social europeu.

O projeto foi apresentado ao público no Festival Internacional de Jornalismo (Perugia, abril de 2015) durante um debate sobre o jornalismo pan-europeu e o futuro da Geração E, mas tem continuidade, tal como o fluxo ininterrupto dos jovens emigrantes do sul da Europa que retrata.

Créditos

Sara Moreira (Portugal) e Katerina Stavroula (Grécia) trabalharam no projeto juntamente com os dois autores deste artigo. Até agora, o projeto já recolheu mais de 2200 histórias de jovens emigrantes. As publicações e os dados estão disponíveis no site oficial e com a hashtag #GenerationE.