A rejeição do primeiro-ministro britânico, David Cameron, ao multiculturalismo patrocinado pelo Estado há muito que já não pega. Tem razão, quando diz que é divisora e corrosiva. No entanto, não deve descarregar os problemas do multiculturalismo para cima da tolerância. Ao longo do seu discurso de 5 de fevereiro, numa conferência sobre Segurança em Munique, defendeu erradamente que a tolerância era responsável tanto pela falência do multiculturalismo como pelo recrudescimento do terrorismo islâmico. “Na verdade, precisamos de reduzir bastante a tolerância passiva de anos recentes e promover um liberalismo muito mais ativo, mais musculado”, disse.

Mas o que vem a ser “tolerância passiva”? A tolerância é tudo menos passiva. A tolerância requer coragem, convicção e empenho na liberdade – características-chave de um comportamento público decidido e ativo. A tolerância é o suporte da liberdade de consciência e da autonomia individual. Afirma o princípio da não interferência na esfera privada da vida das pessoas, na sua adesão a determinadas crenças e opiniões. E desde que qualquer ato não prejudique os outros nem viole a sua autonomia moral, a tolerância exige igualmente que não haja restrições a comportamentos relacionados com o exercício da autonomia individual. Nesta perspetiva, a tolerância representa a dimensão em que a opinião e os comportamentos das pessoas não estão sujeitos a interferências ou limitações institucionais e políticas.

Não é fácil ser tolerante. Exige vontade de tolerar pontos de vista que são considerados ofensivos e disposição para aceitar que nenhuma ideia é isenta de crítica. Tolerar crenças hostis às nossas exige grande confiança nas nossas convicções e disposição para assumir riscos. A tolerância estimula a liberdade individual de seguir determinadas crenças e dá à sociedade uma oportunidade de alargar os horizontes na busca da verdade, incentivando o confronto de ideias.

Uma maneira de evitar fazer escolhas morais difíceis

O multiculturalismo não tem nada a ver com a verdadeira tolerância. Não requer tolerância, só uma indiferença indulgente. Promove insistentemente a ideia de “aceitação” e dissuade o conhecimento das crenças e modos de vida dos outros. O seu valor dominante é não julgar as outras pessoas. E no entanto, julgar, criticar e avaliar são atributos fundamentais de qualquer sociedade democrática e de espírito aberto digna desse nome. A relutância em julgar o comportamento dos outros tem algumas qualidades interessantes, é certo, mas transforma-se frequentemente em total indiferença, uma desculpa para ignorar o que os outros dizem.

A não confusão do conceito de tolerância com a ideia de aceitação de todos os modos de vida ficou magnificamente ilustrada na Declaração dos Princípios da Tolerância da UNESCO. Diz ela: “Tolerância é respeito, aceitação e apreciação da diversidade e riqueza das culturas do nosso mundo, das nossas formas de expressão e manifestações da nossa humanidade”. A UNESCO defende igualmente que tolerância é “harmonia na diferença”. Para a UNESCO, ser-se tolerante transforma-se numa sensibilidade difusa e crescente, que proporciona automaticamente o respeito incondicional por diferentes visões e culturas.

A reinterpretação de tolerância como relutância em julgar é frequentemente considerada positiva. Na verdade, os gestos de afirmação e aceitação podem ser considerados uma maneira de evitar fazer escolhas morais difíceis e um descomprometimento do desafio de perceber que valores vale a pena defender. É provavelmente por isso que a indiferença indulgente do multiculturalismo ganhou tantos adeptos nas últimas décadas: na Grã-Bretanha e em muitas outras sociedades europeias, o multiculturalismo poupou aos governos o trabalho de explicar muito bem os princípios subjacentes ao seu modo de vida.

Há que dizer que, depois de ter salientado que o multiculturalismo estatizado incentivou a segregação das diferentes culturas, Cameron puxou uma verdade incómoda – “não demos uma visão da sociedade que lhes fizesse sentir vontade de pertencer-lhe”. A ausência de tal visão não é acidental, uma vez que o multiculturalismo exige que nenhum sistema de valores seja considerado superior a qualquer outro ou visto como norma desejável. Na ótica multicultural, a ausência de uma visão de sociedade não é uma falha, antes um feito louvável.

Qualquer exame sério da questão da integração cultural coloca o foco na incapacidade de esboçar e dar significado aos valores que mantêm a sociedade unida. É sempre tentador apontar a culpa aos extremistas profissionais que radicalizam jovens muçulmanos, por exemplo. Mas o que é frequentemente omitido é não ser tanto a atração pelo radicalismo que causa estes problemas, mas a própria relutância da sociedade em investir e entusiasmar os seus cidadãos.

Uma sociedade com crise de valores

Há já algum tempo que muitas sociedades europeias manifestam dificuldade em forjar um consenso que lhes permita defender realizações passadas e os valores básicos que defendem. Os símbolos e as convenções tradicionais perderam muito do seu poder de entusiasmo e inspiração; em alguns casos, foram irrevogavelmente rejeitados. Isto é claramente ilustrado pela constante controvérsia em torno do ensino da História. Quando a geração no poder sente que as histórias e os ideais com que cresceram perderam “relevância” num mundo agora diferente, tem grande dificuldade em transmitir com convicção essas histórias e ideais aos filhos.

Os responsáveis políticos e os educadores reconhecem intuitivamente que a questão precisa de ser tratada. Contudo, fornecer valores “relevantes” por encomenda raramente resulta – porque, ao contrário das convenções que dantes estavam organicamente ligadas ao passado, estes valores tendem a ser, se bem-intencionado, construções artificiais abertas ao desafio. Ao contrário dos costumes e das convenções, que são considerados sagrados, os valores construídos estão sempre a ter de ser justificados.

Não vale a pena continuar a responsabilizar o multiculturalismo pelos problemas profundos que enfrentamos hoje. Ponhamos de lado o multiculturalismo apadrinhado pelo Estado, porque pode, pelo menos, fazer-nos encarar o problema subjacente: a crise de valores e de sentido da sociedade. Mas não diminuamos o nosso empenho em alcançar a tolerância. A tolerância permanece uma virtude significativa, porque leva os seres humanos muito a sério.

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