Oficialmente, tudo vai pelo melhor, no melhor dos G8 possíveis. "Na realidade, o optimismo manifestado pelo primeiro-ministro italiano não passa de um ‘optimismo de fachada’", escreve o Corriere della Sera. "Berlusconi acolhe a cimeira após meses de escândalos na sua vida privada. A sua ambição de aproveitar a ocasião para voltar a vestir a farda de mediador parece vã. E vários participantes na cimeira, como a Chanceler alemã Angela Merkel, declararam preferir um G20 alargado à China e a Índia."

O Guardian, que denuncia este G8 como um baile de máscaras e compara Silvio Berlusconi a "um Benny Hill de terceira categoria", afirma que "a Itália pode vir a sofrer uma nova humilhação, sendo excluída do G8 e substituída pela Espanha". Esta hipótese encontrou um forte eco na imprensa espanhola. O El Mundo sublinha que, no que se refere à ideia, defendida por Barack Obama, de um novo pacto para garantir a segurança alimentar mundial, a Espanha se mostrou mais capaz de reagir do que a Itália. «Essa circunstância, aliada aos riscos na preparação da reunião (…), deu crédito às vozes que, no seio do G8, sugerem a associação da Espanha», que ultrapassa a Itália em termos de PIB por habitante e que consagra uma percentagem maior do seu PIB à ajuda ao desenvolvimento. «No entanto, o Guardian reconhece que a hipótese da entrada da Espanha no G8 parece pouco provável», considera o Público (espanhol) . "Em caso de substituição, os Estados Unidos prefeririam uma economia dos países emergentes."

Para além das críticas da imprensa europeia à organização imprudente do G8 e à liderança desleixada do primeiro-ministro italiano, o que é posto em causa é a utilidade ou mesmo a existência desta cimeira. No Guardian, Larry Elliot considera que o próprio Silvio Berlusconi contribuiu para retirar legitimidade ao G8. Requereu directamente a ajuda dos países estrangeiros para a reconstrução de L’Aquila, sem passar pelos organismos internacionais. Ao mesmo tempo, reduziu em 56% a contribuição italiana para a ajuda destinada aos países em vias de desenvolvimento. Deste modo, Berlusconi mostrou que o G8 já não serve para nada.

Numa entrevista ao Monde, Luiz Inácio da Silva considera que "a cimeira do G8 deixou de ter razão de ser". Destinado a representar os países mais industrializados (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia), o G8 deixou na realidade de ser representativo da cena económica actual e não possui legitimidade para discutir os meios a pôr em marcha para fazer face à crise mundial. O Presidente brasileiro sugere, portanto, que o G8 seja substituído pelo G20, que, em seu entender, deve tornar-se uma espécie de instituição permanente e envolver também os ministros da Economia, os representantes dos bancos centrais e os ministros dos Negócios Estrangeiros. "A democracia precisa de fóruns multilaterais reforçados", afirma Lula.

Na Alemanha, o Tageszeitungdiz estar "consternado" por verificar que, depois da primeira reunião das grandes nações industriais, em 1975, "não se progrediu verdadeiramente". "Hoje como ontem, somos ameaçados por uma crise sistémica do capitalismo." E as suas causas são idênticas: crise económica, subida do preço do petróleo, moedas instáveis, crescimentos limitados. No entanto, "a crise latente da moeda nem sequer está incluída na ordem do dia, apesar de o Prémio Nobel Joseph Stiglitz ter recomendado a substituição do dólar como moeda de referência". Perante a especulação continuada sobre as divisas, este economista norte-americano propõe que se acalmem os mercados com um Bretton Woods II. Contudo, esta proposta não interessa à Índia, à China nem ao Brasil, os países «convidados» do G8. "Portanto, há o perigo de este ‘crash’ ser apenas o ‘crash’ antes do próximo ‘crash’", conclui o Tageszeitung.