Portugal ficou ontem mais perto do limiar, tendo que pagar quase 6% pela dívida a dois anos. O rendimento de obrigações a 10 anos subiu momentaneamente para 7,8%, depois de a agência de notação chinesa Dagong ter baixado a dívida do país para BBB+.

"Estes níveis de taxas de juro não são sustentáveis por muito tempo", comentou Carlos Costa Pina, secretário de Estado do Tesouro português, responsabilizando da recente inversão a falta de uma estratégia coerente sobre a dívida soberana por parte da UE e não qualquer falha de cumprimento de austeridade por parte de Portugal. Costa Pina recusou apelos de importantes economistas portugueses para uma intervenção da UE-FMI, em vez de deixar arrastar esta agonia. "Não se justifica. Portugal não precisa de ajuda externa, precisa de medidas urgentes da UE para restaurar a confiança dos mercados."

David Owen, da Jefferies Fixed Income, declarou que a iniciativa de choque do BCE, na semana passada, de preanuncio de subidas nas taxas de juro tinha refreado o crédito e condenado eficazmente o país: "O BCE, com as suas atitudes, tornou inevitável que Portugal precise de uma intervenção externa. São posições semelhantes às do Bundesbank durante a crise de 1992, em matéria de mecanismos das taxas de câmbio". Owen considera que o BCE está a jogar aos aflitos com os dirigentes da UE, exercendo pressão, para depois aparecer com uma solução grandiosa para a crise da dívida, nas cimeiras deste mês. É um jogo perigoso: "A Espanha ainda não está a salvo. Tem 2,5 biliões de dívida combinada das famílias e das empresas. O que é um montante temível”.

Não há, contudo, nenhum sinal de que a Alemanha, Holanda e Finlândia venham a concordar em deixar o Fundo de Estabilização (FEEF) comprar preventivamente obrigações da dívida soberana ou emprestar dinheiro aos países em crise, para que possam resgatar a sua própria dívida num processo de "re-estruturação suave".

"A UE fará muito pouco e muito tarde"

E o ambiente está longe de estar a aliviar, do lado da Alemanha. Os Estados federados começaram a exigir ter uma palavra a dizer em relação ao FEEF. O ministro da Justiça do Hesse, Jörg-Uwe Hahn declarou “rejeitar categoricamente” tudo o que tenda para uma “Transferunion” na UE, uma dívida comum ou uma fusão fiscal.

Os três partidos da coligação política da chanceler Angela Merkel no Bundestag escreveram um documento, dando-lhe instruções para resistir a quaisquer concessões a uma união endividada. Ela já tinha pouca margem, com o veredicto há muito esperado do Tribunal Constitucional alemão sobre a legalidade da estrutura de apoio económico da UE pairando como uma espada de Dâmocles.

"A UE fará muito pouco e muito tarde: os mercados ditarão a solução", declarou Louis Gargour, da LNG Capital, falando num fórum de obrigações da Euromoney. Considerou que a Grécia está já nas garras de uma imparável espiral da dívida, gastando 14,3% dos seus impostos em juros da dívida. Espera 50% de cortes na dívida, eventualmente na linha do Plano Brady para a crise da dívida da América Latina.

A crise grega vai de mal a pior. As obrigações a dez anos escalaram ontem para 12,78% e o desemprego deu um salto claro para 14,8%, em dezembro, recordando que o impacto social da austeridade ainda se vai agravar.

A Grécia está a passar pelo maior aperto fiscal alguma vez suportado por uma economia ocidental moderna, com a dívida pública a ultrapassar os 150% do PIB em 2013, mesmo que cumpra as exigências da UE-FMI. "Devíamos optar por voltar ao dracma, para punir os tubarões dos empréstimos estrangeiros, que nos esfolam vivos", declarou o Avriani, um jornal próximo do partido PASOK, no poder.

Dirigentes da UE vivem num "universo paralelo"

Uma raiva similar sentia-se ontem na Irlanda, onde o deputado socialista Joe Higgins denunciou "o venenoso cocktail de austeridade inventado pelos feiticeiros de Bruxelas e Frankfurt". O primeiro-ministro Enda Kenny declarou que a Irlanda atravessava "a hora mais sombria antes da aurora”. Tem alinhado até agora em conversações, confrontando a Alemanha com os termos do apoio à Irlanda. Mas a política irlandesa pode forçá-lo a deixar de dar cobertura à dívida dos grandes bancos, se a UE se recusar a ceder.

George Magnus, da empresa de financiamentos UBS, declarou que os dirigentes da UE estão a viver num "universo paralelo”, incapazes de ver que a crise da dívida que atinge a UE não pode ser resolvida sem se ir às causas, à origem, e recapitalizar os bancos.

Os países periféricos da União Monetária Europeia continuarão de mãos atadas e em queda profunda, se não houver um perdão da dívida; mas a UE não pode fazer isso até que os credores estejam suficientemente fortes para absorver as perdas. "Este processo sequencial tem de começar pelos bancos, sem o que se levantarão receios de um novo Lehman. A UE e o FMI estão em estado de negação sobre tudo o que aprendemos ao longo da história. Os bancos norte-americanos lançaram 200 mil milhões de dólares (quase 144 mil milhões de euros) de ações em seis semanas e isso provocou um ponto de viragem. Se a UE fizer o mesmo, a crise desaparece."

Olli Rehn, comissário europeu para a Economia, tem defendido uma mudança política que diminua a pressão sobre os Estados atingidos pela crise da dívida, incluindo um corte nos custos das taxas punitivas impostas à Irlanda. Contudo, os dirigentes da UE têm a última palavra sobre as condições do sistema de recuperação económica, e estão a responder aos seus irritados eleitorados nacionais.

A zona euro continua a ser uma coleção dos Estados soberanos. Esse é que é o nó da questão.