Disse que muitos dos países dos Balcãs são locais de eleição do tráfego internacional. Qual o lugar da Roménia nesta matéria?

Recentemente, reuni material para uma investigação sobre [a prostituição] e interroguei muitas raparigas que trabalham nesse setor. Das dezenas de conversas telefónicas que mantive, sobressai um aspeto importante: elas parecem constituir o “lado visível” do negócio. É preciso dizer que as raparigas da Europa de Leste são muito numerosas em Itália e que a Roménia é um dos países que mais “exporta” nesta área. São centenas e centenas de raparigas. Em Roma, por exemplo, é público e notório que as “escort girls” mais bonitas e que praticam preços mais razoáveis são romenas.

O que entende por “preços razoáveis”?

Cem euros. São raparigas saudáveis, bem maquilhadas, com o peito grande, ainda que retocado, e não se drogam. Comparativamente, uma prostituta russa do mesmo “nível” vende o corpo por 200 ou 300 euros. É preciso acrescentar que, quase sempre, as romenas são muito jovens e são, também, consideradas sem escrúpulos. Normalmente são contactadas por telefone e aceitam qualquer cliente, sem imporem condições. Uma “colega” italiana também não negoceia mas, antes, informa-se sobre o cliente e as suas expectativas… Conhecem muito bem o mercado e, por isso, respondem a todas as perguntas exatamente da maneira que um italiano espera, dando assim a impressão de terem sido “conquistadas” pelos clientes. À pergunta “Em que país europeu preferia trabalhar”, as “escort girls” romenas respondem, à cabeça, Itália, sublinhando que os clientes não são bêbados, como na Alemanha e em muitos outros países e que tornam agradável o “encontro” com muitos elogios e presentes.

Acrescente-se que, em Itália, as “escort girls” romenas escondem a sua nacionalidade. Na maior parte das vezes apresentam-se como russas e este aspeto também ressalta nos seus perfis na Internet. Penso que o fazem para evitarem a amálgama “Roménia = ciganos ou miséria”. Por isso, para manterem uma certa posição no mercado, preferem apresentar-se como russas. Só quando se chega aos preços é que se lhes descobre a nacionalidade. Além disso, nunca falam dos proxenetas, esses homens sem escrúpulos. Estes personagens continuam a ser um mistério: por mais que se tente, não se consegue a mínima descrição sobre eles. Sabe-se, no entanto, que estes proxenetas nem sempre são romenos. Porque ainda são as organizações criminosas italianas que controlam o mercado da prostituição, com exceção para a “subcontratação” ocasional. Nos últimos tempos, as organizações criminosas romenas parecem estar, também, a imporem-se em Itália, e procuram “diversificar” a atividade dos seus “assalariados” acrescentando-lhes o tráfico de droga.

Entre os milhares de prostitutas romenas que chegam a Itália, muitas delas vendem cocaína aos seus clientes, apesar de elas próprias a não usarem. É uma novidade absoluta, uma nova estratégia das organizações criminosas romenas que tentam, também, “consolidar” as relações com os seus homólogos italianos que, até agora, apenas têm mantido relações com os albaneses, os búlgaros, os macedónios e os ucranianos, já há muito tempo no negócio.

Parece muito seguro daquilo que está a dizer. Como é que um escritor pode ter tantas certezas? Quais são as suas fontes?

É muito simples. No caso da investigação sobre as “escort”, por exemplo, para além dos relatórios da polícia, os elementos estão à vista de toda a gente: basta procurar nos sítios de encontros da Internet em Roma, por exemplo, para constatar que há sempre anúncios colocados por muitas “escort girls” romenas e, agora, reconheço-os logo pela apresentação. Distinguem-se dos outros porque as búlgaras e as russas não dominam tão bem o italiano. As búlgaras, especialmente, tendem a usar o tradutor automático do Google. Por fim, nos últimos tempos, notei uma nova tendência no mercado das “escort girls”: chegaram ao mundo do espetáculo e da televisão.

Nada de novo, dirá, olhando do exterior. O problema é que, aqui, em Itália, muitas delas fazem carreira. Podem chegar a ser secretárias de Estado, vereadoras ou outras altas funções no Estado. O aspeto moral não me interessa porque, em última análise, cada um de nós pode decidir que quer ou não vender o corpo e a quem. Mas acho que isto se pode tornar um problema porque dá lugar a chantagens, a troca de favores com os proxenetas e até mesmo, diretamente, com as prostitutas, ou seja, quando se faz entrar no jogo o dinheiro sujo, a corrupção ou “cunhas” para um emprego qualquer.

Qual é a relação entre as organizações criminosas italianas e as da Europa de Leste?

A Máfia italiana e a estrutura mental de tipo mafioso foram exportadas com sucesso para a Europa de Leste, como para muitos outros locais do mundo. Assim, “formou” criminosos na América Latina (México, Colômbia, Chile, Argentina, Uruguai) e até mesmo na África do Sul. Por exemplo, não é por acaso que um país como o Montenegro tem múltiplas relações com o Uruguai: o caso do tráfico de droga Darko Šarić é eloquente neste aspeto. Šarić é célebre pelo seu impressionante volume de negócios, pela sua longevidade no mercado mas, também, pelas suas estreitas relações com o poder no seu país. Toda a gente sabe que Šarić continua a receber droga do Uruguai e que ainda está no Montenegro, mas o Governo de Podgorica não tem intenções de o extraditar, mesmo sob ameaça de sanções internacionais. Simplesmente, ignora o assunto, porque lucra com o dinheiro proveniente das atividades ilegais.

No entanto, cada país da Europa de Leste tem a sua especificidade… Com certeza que sim. No futuro, creio que a máfia sérvia, que já se tornou a mais forte na costa, também terá um papel importante nos Balcãs. Quando se trata dos sérvios é interessante observar que não fazem negócios com os croatas, porque não se suportam uns aos outros, nem mesmo na “cena” criminal. No entanto, todos eles colaboram com os albaneses, como já faziam no tempo da guerra, quando vendiam armas, petróleo e droga uns aos outros… Todos estes aspetos já foram tornados públicos várias vezes e em várias investigações. Como, por exemplo, na que foi assinada por Misha Glenny (autor do "McMafia – O Crime Organizado Sem Fronteiras, Ed. Civilização, 2008).

Qual pensa ser o efeito que exerce o alargamento da UE?

A expansão é benéfica para muitos países do Leste, porque permite reforçar o Estado de Direito. Mas penso que os inconvenientes também são muito numerosos: presentemente, o dinheiro dos criminosos pode circular livremente e sem problemas de maior em muitos países do Leste, porque já não há fronteiras e também não há um sistema legislativo comunitário antimáfia. Desde há muito tempo que as redes criminosas começaram a orientar-se na direção das novas oportunidades oferecidas pela Europa de Leste. “Compraram” bocados inteiros da antiga Alemanha de Leste, da Roménia, da ex-Jugoslávia, da Albânia, do Kosovo. Enquanto as redes criminosas italianas compraram tudo o que puderam na nova Europa livre, os meios de negócios ocidentais foram muito mais prudentes. Recordo-me de um relatório sobre uma conversa telefónica intercetada pela polícia, na Sicília, alguns dias antes da queda do Muro de Berlim, em 1989, em que se falava da chegada de “malas” cheias de dinheiro trazidas por homens da Cosa Nostra — a máfia siciliana — dentro de 48 horas.