Milão – Nos passeios da via Padova, destacam-se as patrulhas mistas da polícia escoltadas por soldados com farda de combate mas, também, as dos Boinas Azuis, um grupo de voluntários [vigilantes] muito controverso devido às suas estreitas ligações com a extrema-direita; as dos "City Angels", que usam boinas vermelhas e são os mais antigos voluntários da cidade; e as dos Voluntários Verdes da Liga do Norte, com os seus cachecóis da Padânia e os seus duplos "V". Deverão todos estes "trabalhadores da segurança" ser considerados como um fenómeno passageiro ou como uma necessidade? O mapa dos grupos de vigilantes italianos pode revelar algumas surpresas.

Nos anos 90, o Norte descobriu que era vulnerável. Os assaltos a residências levaram os políticos a recorrer a xerifes improvisados. Os militantes da Liga foram os primeiros a envolver-se e, entre 1998 e 1999, criaram os Voluntários Verdes, com origem na Guarda Nacional da Padânia. Hoje, são dirigidos por Max Bastoni, um dos líderes da Liga que tem um nome apropriado à divisa que adoptou: "Paus contra os imigrantes" [Bastoni contro gli immigrati]. Contudo, os militantes da Liga são voluntários do género "faz o que eu digo mas não faças o que eu faço": lançam slogans racistas e, depois, consideram seu dever melhorar a eficácia das equipas municipais. "Aquilo que fazemos resume-se na verdade a passeios em grupo – no máximo, sabemos defender-nos. E somos voluntários autênticos, apesar de, hoje, se ouvir falar muito de financiamentos [para outros grupos]."

Medo dos imigrantes

A Guarda Nacional da Padânia, de uniformes castanhos repletos de emblemas repescados nos livros de histórias e cujo nome parece ter sido inspirado no da Guarda Nacional Italiana, é comandada pelo extremista de direita Gaetano Saya. Quem o ouve tem a impressão de estar perante uma imitação pouco inspirada dos "nazis do Illinois", do filme "The Blues Brothers". Saya parece estar isolado mas não é possível garantir que assim é, admitem os carabinieri, que se mostram preocupados com a atracção crescente dos jovens pelos grupos neonazis, em muitos casos ligados aos "tifosi" ultras, que gritam nos estádios o seu ódio pelos judeus, pelos negros e pela globalização.

Por trás destes "comités de segurança", espreitam as mais variadas forças. Um primeiro levantamento permitiu a contagem de cerca de cem grupos organizados. A palma da fantasia cabe ao dono de um restaurante de Follonica, na Toscânia, que criou os "Voluntários para as Esposas dos Membros das Patrulhas", mas a grande maioria leva as vigias muito a sério. Estes comités põem em prática os conceitos de bio-política e pós-política da autoria do sociólogo Slavoj Zizek: "A pós-política tem a ver com o abandono das ideologias, para nos concentrarmos numa administração competente… enquanto a bio-política tem por objectivo regulamentar a segurança e o bem-estar." O único meio de forjar uma razão para levar as pessoas a abraçar esta política é através do medo: "medo dos imigrantes, da criminalidade, da depravação sexual, das catástrofes ecológicas, da falta de civismo".

Uma patrulha em cada área

Em Veneza, as divisões sociais, culturais e políticas são muito evidentes. Em Pádua, já se viu patrulhas da Liga seguir numa direcção e contra-patrulhas da esquerda seguir na outra. Não muito longe dali, foi criada a primeira linha telefónica de vigilância, a Primeira Ajuda Cívica. A comuna de Jesolo foi uma das primeiras a organizar vigilantes, principalmente contra as prostitutas, mas foi também neste mesmo sector que surgiram as primeiras rondas que incluem imigrantes nas suas fileiras.

Em Vittorio Veneto, os habitantes organizam-se contra os motociclistas que "dobram" [se inclinam] excessivamente nas curvas. Em suma, um pouco por todo o lado são formados comités, em função de problemas locais muito particularizados. Em Grugliasco, no Piemonte, há "rondas ecológicas" que tentam escorraçar aqueles que não fazem a triagem do lixo.

A região Friul-Venécia Júlia aprovou uma lei que torna obrigatória a elaboração de uma lista de voluntários para as rondas e a sua participação em acções de formação. Em Trieste, uma associação de pescadores criou um grupo de vigilância para a segurança alimentar.

Em contrapartida, no Sul, a ideia teve uma aceitação difícil. Na província de Nápoles, há grupos de vigilância para a defesa das estátuas do santo padroeiro local. Em Agropoli (na província de Salerno) combate-se o roubo de caixotes do lixo. Em Acireale, perto de Catânia, pretende-se impedir a afixação ilegal de cartazes; em Bari, grupos de reformados encarregam-se de vigiar as crianças, à saída das escolas. Contudo, na Calábria, as rondas estão fora de questão: no território da *‘**Ndrangheta,* mais vale não correr o risco de mandar parar a pessoa errada no meio da rua. Isso poderia ser fatal.