Quarenta anos depois da chegada do primeiro homem à Lua, nunca tantos seres humanos tinham entrado em órbita na mesma nave espacial como este fim-de-semana. Em 1969, três homens acotovelavam-se no pequeno módulo de comando da Apolo 11, uma nave pouco maior do que um Mini. Ontem, a Estação Espacial Internacional, actualmente com o aspecto de um edifício de quatro andares que se desloca a uma velocidade de 27.350 km/h, acolheu a bordo o vaivém espacial Endeavour. Esta nave gira à volta da Terra, 15 vezes por dia, a 350 km de altitude, com 12 homens – sete americanos, dois russos, dois canadianos, um japonês – e uma mulher – belga – a bordo.

O trabalho desta equipa multinacional, que prevê entrar em órbita cinco vezes, é mais um pequeno passo do Homem para entrar nos confins do planeta. Mas um passo ainda maior será dado para o mês que vem. O presidente Barack Obama irá ouvir um painel de especialistas sobre a possibilidade de os Estados Unidos se lançarem num programa espacial para o século XXI que os leve de novo à Lua, e mesmo aventurar-se mais além, nos asteróides próximos da órbita terrestre, e em Marte.

A decisão do Presidente norte-americano poderá relançar uma corrida espacial com a China mais feroz do que a rivalidade que, nos anos 60, opôs os Estados Unidos à então União Soviética. Embora sem grande peso na Estação Espacial, Pequim prepara-se para avançar sozinha, declarando a sua intenção de chegar à Lua até 2020. Em Setembro de 2008, a missão espacial chinesa Shenzhou 7 fez do país a terceira potência mundial a chegar ao espaço. A Rússia também está empenhada a fundo, pela primeira vez na era pós-soviética, no desenvolvimento da sua capacidade espacial. Engenheiros russos já passaram 105 dias de isolamento numa nave espacial prototipada a testar as tensões que poderão ocorrer durante a viagem de 275 milhões de quilómetros a Marte.

O astronauta veterano Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar a Lua, disse ontem à Fox News que a América poderia apoiar os seus parceiros internacionais a explorar a Lua e, desse modo, aplicar mais recursos ao desenvolvimento dos seus próprios voos espaciais. Assim que houver uma base internacional na Lua e uma tecnologia de reabastecimento no espaço, disse, os Estados Unidos deviam começar a mandar astronautas para o espaço longínquo para poderem visitar o asteróide Apophis à sua passagem pela órbita da Terra, em 2021. Depois disso, existe a possibilidade de uma base temporária em Phobos, uma das luas de Marte. "Por essa altura, estaremos preparados para enviar astronautas a Marte, em viagens cada vez mais prolongadas", afirmou Buzz Aldrin.

Mas tudo indica que a China também lá irá estar – a Yinghuo 1, a primeira sonda chinesa a aterrar em Marte – entra na órbita deste planeta em 2010 para poder estudar as "alterações ambientais". E há também as ambições espaciais da Índia e do Japão, para além da concorrência entre empresas privadas pela exploração dos voos espaciais comerciais. A Virgin Galactic de Richard Branson e a XCOR Aerospace rivalizam entre si pelo lançamento dos primeiros voos sub-orbitais. Segundo Branson, as naves espaciais Virgin Galactic estarão prontas em Dezembro de 2009 e "quase não poluentes". Os primeiros passageiros a pagar irão viajar em 2011.

Mas no aniversário do pequeno mas histórico passo de Neil Armstrong, a questão que se coloca é se se justificam as aventuras à escala espacial perante os problemas que existem no planeta Terra. Será que o entusiasmo por estas explorações se compadece com os problemas do ambiente, da pobreza e das doenças?

James Lovelock, o cientista britânico que inventou a Teoria de Gaia, apoia incondicionalmente as viagens ao espaço. “A própria noção de Gaia resulta das viagens espaciais. Estou em crer que todos os ambientalistas que se opõem à aventura espacial não revelam o mínimo de imaginação. Aquela linda e inspiradora imagem do planeta que nos foi dada do espaço tem seguramente um valor inestimável para o movimento ecologista.”

Quanto mais conhecermos Marte”, refere, “mais ficaremos a saber sobre o nosso planeta. Porque as viagens de exploração coroadas de aventuras são profundamente inspiradoras para o ser humano. E sem as viagens espaciais nunca teríamos tido telemóveis, internet e os boletins meteorológicos que hoje temos”.