Fui ter com ele a Ravena, à sede da revista, na cave da livraria-galeria-associação Mirada, gerida pelo próprio Gianluca Costantini. Acompanha-me Andrea Zoli, um desenhador de BD com quem já tive ocasião de entrevistar Costantini. Nessa altura, tínhamo-lo procurado para um fanzine distribuído em fotocópias (PuntoGIF, em que GIF era o anagrama de Greatest Italian Failure), criado há alguns anos, na vaga de fascínio pelas “cult magazines” dos anos 70, como Métal Hurlant, Cannibale e Frigidaire, revistas desaparecidas após apenas dois números.

Apresentações feitas na livraria, seguimos Costantini pela escada de caracol que leva ao estúdio-redacção, uma salinha pequena com duas secretárias, outros tantos computadores e um número incalculável de desenhos e esboços empilhados a granel sobre mesas encostadas às paredes. O nosso principal objectivo é compreender o que é o underground, se é um território reservado aos sonhadores ou aos preguiçosos, e se é mesmo necessário abdicar dos seus ideais para poder vingar, ou pelo menos viver, da bd.

Sem censura nem direitos reservados

Mas tentemos, antes de mais, esboçar a personalidade de Costantini: nascido em 1971, deu os primeiros passos como desenhador em 1993, publicando primeira vez os seus desenhos em revistas nacionais “após ter tido muitas recusas da parte dos editores”, confessa. Começou por misturar ilustrações e BD “decorativas”, num período de “crise editorial total”, razão para se lançar de corpo e alma no mundo da web, que estava a começar. O próprio projecto Inguine estava inicialmente previsto só para Internet, “um instrumento perfeito para o desenho”, ainda que “quando o site de Internet muda seja tudo para recomeçar”.

Internet torna-se assim a montra graças à qual Costantini pode dar-se a conhecer à escala internacional, graças ao Political Comics, uma espécie de jornal em BD com pequenas histórias dos quatro cantos do mundo. “Após dois anos de BD decorativa, cansei-me e mudei totalmente de direcção e de género”, conta. “E não é dizer pouco, se se tem um mínimo de sentido comercial do meio. Mas para mim, era chegada a altura de compreender as coisas que desenhava, depois de ter passado muito tempo fechado no estúdio a desenhar, sem saber o que se passava lá fora. Foram imagens que ficaram. De vez em quando, vejo-as em sites e em prospectos de “squats”. No estrangeiro também as usam para ilustrar personagens sem rostos, porque o desenho dá-lhes um valor muito mais forte. É isso a BD underground: sem cliente, um público que pode aproveitá-la, sem censura nem direitos reservados”.

Foi seguramente esta ruptura radical e o sucesso que se seguiu que deram ao desenhador de Ravena a liberdade necessária para explorar novos horizontes, com a curiosidade que caracteriza o underground: “Fazer algo de diferente, de radicalmente novo, que ninguém ainda fez. Se queres destacares-te, é necessário quebrar os esquemas. Nunca encontrar um género e mantê-lo por toda a vida. Pelo contrário, é muito mais interessante estar sempre a experimentar um novo género”, sem nunca esquecer que “a técnica é primordial. É necessário desenhar imenso, como faziam os pintores do século XV. Por mim, desenho oito horas por dia desde os 15 anos”. Mas o underground não é uma simples questão de género. Os temas evocados, as imagens, a linha editorial são igualmente importantes. “Nos anos 70, por exemplo, o sexo era o tema principal do underground, porque, naquela época, era o que podia chocar. Hoje fala-se mais de política. A revista underground perfeita é a World War 3, criada em Nova Iorque por militantes como Peter Kuper, que utilizam o desenho para afirmar bem alto as suas ideias”, explica Costantini.

Mas continua a ser difícil definir o underground: são poucos os desenhadores que não se vendem por dinheiro e continuam íntegros, como Blu, um “tagger”, ou Max Anderssone Robert Crumb, dois desenhadores. Infelizmente, salvo raras excepções, “só os que trabalham na BD de grande público conseguem viver disso”. As actividades de Costantini não terminam aqui: como um perfeito agitador cultural, organiza exposições, encontros, debates e, sobretudo, o festival Komikazen (que criou com Electra Stamboulis), graças ao qual autores do calibre de Joe Sacco, Marjane Satrapi e Zograf vieram a Itália. As exposições nascidas no contexto do festival dão depois a volta à Europa, uma forma de conhecer melhor o que acontece nos bastidores da BD do velho continente.

Costantini cita em especial a ex-Jugoslávia como um dos países mais interessantes: “Têm desenhadores excepcionais. Tendo em conta que não existe nada, são automaticamente underground. Contam o que querem, desenham o que querem. São totalmente malucos e felizes por o serem. Em França, em contrapartida, apesar de ter o maior mercado de BD do mundo, não se encontram realidades tão interessantes”.

Há ainda desenhadores europeus que valha a pena descobrir? Após alguns segundos, Costantini dá apenas um nome: “Raul, o espanhol. Escreveu apenas três BD, e agora faz ilustrações para jornais. Não tem sequer um site de Internet. Para o conhecer, é preciso comprar os seus livros, em espanhol”. E ficou por aqui.

Mattia Bergamini