Cerca de 400 mil polacos estão já a trabalhar na Alemanha, alguns de forma legal, outros clandestinamente. Há também dezenas de milhares na Áustria. O Ministério do Trabalho e Política Social apresenta as previsões oficiais: a partir de 1 de maio, data da abertura total do mercado de trabalho nestes dois países [abertura que diz respeito a trabalhadores da Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Estónia, Letónia, Lituânia e Eslovénia], mais 400 mil polacos deverão emigrar. Não será numa vaga única, imediata; o movimento deverá desenrolar-se ao longo dos próximos quatro anos.

Dados da Lewiatan, a confederação do patronato, atestam a forte procura de trabalhadores polacos nesses países. Os alemães precisam de 30 mil informáticos, outros tantos engenheiros e cerca de 50 mil pessoas para cuidar de idosos, explica Monika Zakrzewska, técnica da confederação. Médicos, trabalhadores da construção civil, eletricistas, serralheiros, mecânicos, pasteleiros, optometristas, cabeleireiros, todos ali encontrarão facilmente emprego. Há dois meses que os empregadores alemães vêm organizando feiras de emprego nas “voivodies” [províncias] ocidentais da Polónia e publicando anúncios na Internet.

O Ministério do Trabalho, tal como os peritos da Lewiatan, manifestam-se tranquilos e afirmam que não será um êxodo como o de 2004, após a adesão da Polónia à União Europeia. O desemprego é mais baixo, hoje, os mais corajosos e dinâmicos já partiram e os polacos não falam fluentemente alemão. Além disso, os especialistas tão procurados pelos alemães encontram trabalho na Polónia e não precisam de partir, garante Monika Zakrzewska.

Os especialistas podem estar bastante errados

Mas os especialistas podem estar bastante errados. Antes da adesão da Polónia, avaliavam a futura emigração de trabalhadores para o Reino Unido em 40 mil polacos, no máximo. Na verdade, foram dez vezes mais os que tomaram aquele caminho. A professora Krystyna Iglicka, economista e especialista em demografia do Centro de Relações Internacionais de Varsóvia, diz que o número de pessoas que querem deixar a Polónia pode ser, mais uma vez, muito maior do que as previsões oficiais. Os sinais são claros: os alemães estão a captar os polacos com ofertas tentadoras e os polacos da “Polónia B", as regiões de maior pobreza, procuram trabalho.

A Polónia já não se pode dar ao luxo de aceitar o exílio continuado de cidadãos. Nos últimos sete anos, conheceu a maior vaga de emigração da sua história. No século XIX, emigraram 800 mil polacos; na década de 1980, um milhão; após a adesão à UE, foram quase dois milhões de polacos a deixar o país. Muitos foram para Inglaterra, onde trabalham atualmente, segundo o Instituto Nacional de Estatística, 550 mil polacos. Mais de 140 mil pessoas encontraram trabalho na Irlanda, 90 mil em Itália, 80 mil em Espanha, 50 mil em França e 70 mil fora da União Europeia.

Os emigrantes de antigamente tinham uma formação básica; os emigrantes de 2004 eram sobretudo jovens, com diplomas de ensino superior. Começaram a lavar pratos nos restaurantes, a fazer trabalho doméstico para ganhar algum dinheiro e regressaram. Mas a experiência prolonga-se por um ano ou mais. E a estada com fins económicos tende a tornar-se um exílio permanente.

Os que voltam para a Polónia rapidamente se arrependem

"Para nós é uma geração perdida. Não porque não se empenhe ou tenha falta de talento, mas porque a Polónia vai definitivamente perdê-la", adverte a professora Iglicka. No seu último relatório sobre emigração depois de 2004, ressalta o seguinte fenómeno: os polacos que emigraram para a Grã-Bretanha e que não manifestavam grande vontade de ter filhos na Polónia apresentam maiores taxas de natalidade do que os imigrantes indianos e do Bangladesh: 2,48, enquanto a dos ingleses é 1,84. O motivo? É muito mais fácil dar à luz e educar uma criança na Grã-Bretanha do que na Polónia, visto que a segurança social e o sistema de saúde são bastante melhores.

Pior, os que decidem voltar para a Polónia rapidamente se arrependem. Porque ninguém os espera de braços abertos. Não havia trabalho quando partiram e não há quando regressam, além de que a sua experiência no estrangeiro não é muito atraente para os empregadores polacos. Não é difícil de compreender, já que os seus currículos não se enriqueceram (ter trabalhado como lavador de pratos ou baby-sitter não é propriamente uma recomendação).

Além disso, os bons conhecimentos de Inglês são um mito, pois, no exterior, os polacos têm tendência a reunir-se e não disponibilizam tempo para fazer cursos de línguas. No regresso, não têm ilusões: ganhavam o equivalente a nove mil zlotys [2285 euros] no estrangeiro, quando o que lhes propõem no seu país são 1500 [380 euros], observa Krystyna Iglicka.

Os jovens não têm nenhuma perspetiva

Dececionados, voltam a partir. Acima de tudo, dizem os sociólogos, a emigração mudou-os. Alguém que se acostumou a viver noutra cultura, que se habituou a outras cores, aos ruídos de outras ruas, a espaços multilingues e multiculturais, sente-se perdido na Polónia. Falta-lhe espaço, respiração.

"Não criamos boas condições de vida e de trabalho para os jovens”, alerta a professora. “Pelo contrário, afastamo-los. As autoridades acostumaram-se a que a emigração é uma boa maneira de se livrar do desemprego. Não há trabalho para os jovens? Então saiam! Talvez voltem, mas serão os governos seguintes a arcar com o seu peso. Eles que governem esta emigração e os problemas demográficos que gera. Entretanto, podemos governar em paz."

Segundo a Deloitte, 60% dos estudantes polacos estão dispostos a deixar a Polónia. Estão convencidos de que não têm nenhuma perspetiva no seu país. O desemprego entre os alunos que concluíram o ensino médio é de 24%.