Julho tem sido um mês muito duro para as tropas britânicas destacadas no Afeganistão. A morte de 19 soldados em três semanas, a maior parte devido à explosão de bombas, desencadeou um aceso debate em Londres sobre se as forças do Reino Unido têm equipamento à altura da situação.

A polémica no Reino Unido – que, juntamente com a França, é a primeira potência militar europeia – coloca uma questão política vital à escala do continente: em que estado se encontram as forças europeias? Acompanham de forma adequada a sua ambição de ser uma potência mundial? As estatísticas relativas às despesas militares fornecem uma resposta clara: enquanto, que na última década, todas as grandes potência mundiais aumentaram os respectivos orçamentos militares a um ritmo vertiginoso, a Europa gasta hoje o mesmo daquilo que gastava há 10 anos. Comparativamente, o poder militar europeu enfraquece de dia para dia.

Os factos não deixam margem para dúvidas. Entre 1999 e 2008, a China aumentou as despesas militares em 194%, em termos reais, a Rússia em 173%, os Estados Unidos em 66% e a Índia em 44%. No mesmo período, a França aumentou o seu orçamento em 3%, a Itália em 0,4% e a Alemanha retrocedeu 11%. No Reino Unido, as despesas militares registaram um acréscimo de 20%, devido ao forte envolvimento do país nas guerras do Iraque e do Afeganistão. No conjunto do continente, houve um aumento de 5%. Os dados são do prestigiado Instituto Internacional de Estocolmo para a Investigação sobre a Paz(IIEIP).

"As despesas militares são estimuladas por três factores de base", comenta Samuel Perlo-Freeman, investigador do departamento de despesas militares do IIEIP. "Envolvimento em conflitos armados, como os EUA; ter ambições de potência militar mundial, como a China ou a Rússia; ou beneficiar de um crescimento económico elevado, que facilita o aumento das despesas militares. A Europa não é incentivada por nenhum dos três factores. Os países europeus deram prioridade a objectivos para os quais não consideram necessário nem útil o desenvolvimento do poder militar."

Assim, a capacidade de influência da Europa à escala mundial fica cada vez mais dependente do chamado soft power que assenta no poder económico e comercial, na sedução cultural e na sua mistura atraente de mercado livre e protecção social. Para muitos, isso é positivo mas, sobre este assunto, há opiniões muito diversas. No entanto, os factos recordam que os concorrentes são duros, num mundo muito menos nobre do que aquele com que sonham os defensores do soft power. Um mundo onde o hard power conta quase tanto como na época em que, ao ser interrogado sobre as relações com a Igreja Católica, Estaline perguntou ironicamente: *"**O Papa? Quantas divisões tem o Papa?"*

"A Europa distanciou-se do ritmo de crescimento das outras potências e isso é bastante preocupante", observa Yves Boyer, director-adjunto da Fundação Francesa para a Investigação Estratégica. "Se quisermos evitar uma Europa condenada à decadência, os Governos têm de a dotar de meios, nos sectores industriais, culturais, diplomáticos mas também militares. Mesmo indo contra as respectivas opiniões públicas, os Governos têm o direito de agir segundo o interesse estratégico dos seus países."

No entanto, observa-se uma estagnação absoluta na última década e as projecções relativas aos próximos orçamentos não invertem essa tendência. A crise económica mundial reduz ainda mais a margem de manobra.

*"Apesar do abrandamento dos investimentos, que afecta a disponibilidade de materiais**"*, adianta Boyer, *"a Europa continua a dispor de vantagens comparativas no que se refere ao savoir faire. Mas até o próprio savoir faire precisa de meios para se manter actualizado e a espiral actual pode ser perigosa."*

Para se ter uma ideia da dimensão do problema, o total dos orçamentos militares das cinco principais potências militares europeias – França, Reino Unido, Alemanha, Itália e Espanha – que têm uma população equivalente à dos EUA e um PIB conjunto pouco inferior, representa 40% do orçamento dos EUA.

Por outro lado, é evidente que a soma das despesas militares europeias continua a ser mais uma realidade aritmética do que política. Apesar de a subida ao poder de Sarkozy e da sua aproximação à NATO e aos EUA abrirem caminho para o desenvolvimento de uma defesa comum europeia, a verdade é que não há progressos significativos nesta matéria. O esforço militar europeu continua ser muito fragmentado, ao mesmo tempo que surgem no horizonte realidades nacionais mais coesas e cada vez mais armadas.