A Irlanda enfrenta a ruína económica. Seis meses depois do resgate pela UE/FMI no valor de 85 mil milhões de euros, com a dívida pública irlandesa classificada um nível acima de “lixo”, e da corrida aos bancos irlandeses começar a alastrar aos depósitos domésticos, pode parecer que o resgate de novembro do ano passado já redundou num terrível fracasso. Mas na opinião dos seus peritos do BCE, o resgate foi um sucesso absoluto.

A única coisa que precisamos entender sobre o resgate da Irlanda é que não tinha que ver com reparar as finanças o suficiente para permitir ao Governo irlandês voltar a pedir empréstimos a preços razoáveis nos mercados de títulos: a ideia que habitualmente se tem dos efeitos de um resgate.

Em vez disso, o único objetivo do resgate da Irlanda foi atemorizar os espanhóis com uma demonstração significativa de como os resgates da UE não são para cardíacos. E, pelo menos até agora, o plano do BCE tem funcionado. Perante a opção de serem expostos como a Irlanda – objeto de ridículo internacional, pagando taxas exorbitantes sobre os fundos de resgate, os ministros a terem que responder a um professor universitário húngaro – ou emendarem caminho, os espanhóis escolheram, compreensivelmente, a última.

Mas por que foi necessário, ou pelo menos conveniente, a UE forçar um colapso económico na Irlanda para assustar a Espanha? A resposta remonta a uma falha fundamental, e potencialmente fatal, na conceção da zona euro: a falta de meios para lidar com a insolvência dos grandes bancos.

Financiamentos imobiliários duvidosos

Quando o euro estava a ser planeado, em meados dos anos 1990, nunca ocorreu que bancos prudentes e pesados como o AIB e o Banco da Irlanda, dirigidos por antigos jogadores de rugby pouco famosos, poderiam contrair empréstimos de dezenas de milhares de milhões de dólares no exterior, e perder tudo em financiamentos imobiliários duvidosos. Se o colapso tivesse sido limitado aos bancos irlandeses, poderia ter-se conseguido algum tipo de acordo de resgate, mas permanece a suspeita de que muitos bancos espanhóis – que criaram uma bolha imobiliária quase tão exuberante como a da Irlanda, embora na nona maior economia do mundo – escondem prejuízos tão grandes como os que afundaram os seus homólogos irlandeses.

Situação única no mundo, o Banco Central Europeu não se apoia num governo central com o poder de cobrar impostos. Salvar um sistema bancário tão grande como o espanhol exigiria uma entrega maciça de recursos a um Fundo Monetário Europeu por parte dos países europeus: algo tão complexo politicamente e financeiramente dispendioso que só será considerado in extremis, para evitar o colapso da zona euro. Para já, é mais fácil o BCE fazer figas para que a Espanha consiga superar a crise pelos seus próprios meios, encorajada pelo exemplo do sucedido na Irlanda.

A falência da Irlanda é agora uma questão de aritmética mais do que de economia. Se tudo correr como planeado, como sempre acontece, a dívida soberana da Irlanda chegará aos 250 mil milhões de euros, mas isso é irrelevante: seja como for, falamos de uma dívida soberana superior a 120 mil euros por trabalhador, ou a 60% do PIB.

Uma regra de ouro dos economistas diz que, quando a dívida soberana é superior ao rendimento nacional, uma economia de pequena dimensão estará em perigo de incumprimento (as grandes economias, como o Japão, podem ir muito mais acima). A Irlanda já entrou de tal forma na zona vermelha que pequenas mudanças nos termos do resgate não conseguirão produzir efeito: estamos à beira do colapso.

Acalmar os editores dos jornais alemães

O BCE aplaudiu e emprestou à Irlanda o dinheiro para garantir que os bancos que emprestaram ao Anglo Irish Bank e à Irish Nationwide Building Society fossem re-embolsados, e como consequência encontra-se agora numa situação em que os bancos que emprestaram ao Governo irlandês estão em risco de perder a maior parte dos montantes envolvidos. Por outras palavras, a crise bancária irlandesa passou a fazer parte da crise da dívida soberana europeia.

Dado o entorpecimento político na UE, e um Banco Central Europeu que considera que a sua tarefa principal consiste em acalmar os editores dos jornais alemães, o resultado mais provável da crise da dívida europeia é que, passados dois anos ou mais para permitir que os bancos franceses e alemães acumulem reservas para perdas, as economias insolventes serão forçadas a abrir uma espécie de falência.

Que ninguém tenha dúvidas: enquanto as falhas governamentais são quase o estado normal das coisas em lugares como a Grécia ou a Argentina, para um país como a Irlanda, que depende da sua reputação como um lugar seguro para os negócios, a falência seria catastrófica. As falências dos Estados arrastam-se durante anos enquanto os credores esperam por melhores condições, ou vendem aos chamados “fundos abutre”, que se envolvem em processos intermináveis no estrangeiro para obter bens nacionais, tais como aeronaves apreendidas, na esperança de se tornarem suficientemente incómodos e serem re-embolsados.

Pior ainda, a falência nada pode fazer para reparar as finanças da Irlanda. Dados os outros compromissos do Estado irlandês (para com os bancos, Nama, UE, BCE e FMI), para conseguir que a dívida pública regresse a um nível sustentável, os detentores de títulos do governo terão que ser mais ou menos eliminados. Infelizmente, a maioria dos títulos do Governo irlandês são detidos por bancos irlandeses e companhias de seguros.

Sobrevivência nacional da Irlanda

Por outras palavras, embarcámos num jogo fútil de empurrar o pacote da insolvência: primeiro, dos bancos para o Estado irlandês, e depois, do Estado de novo para os bancos e companhias de seguros. Como resultado final, provavelmente veremos a Irlanda tornar-se uma espécie de protetorado da UE, a resposta que a Europa deu a Porto Rico.

Suponhamos que não queremos seguir o nosso caminho atual em direção a uma falência orientada pelo BCE e à ruína nacional em espiral. Podemos fazer alguma coisa? Ainda há uma saída que, embora não seja isenta de dor, é consideravelmente menos dolorosa do que o que a Europa nos prepara.

A sobrevivência nacional exige que a Irlanda se afaste do resgate. O que, por sua vez, exige que o Governo faça duas coisas: separar-se dos bancos, e equilibrar o orçamento imediatamente. Primeiro, os bancos. Apesar de o BCE não querer resgatar os bancos irlandeses, não podemos deixá-los ir à falência e iniciar uma onda de pânico que varrerá toda a Europa.

A Irlanda deve afastar-se do sistema bancário devolvendo os ativos Nama aos bancos, e retirando as suas promissórias nos bancos. O BCE poderá, então, aprender a verdade económica fundamental de que, se emprestar 160 mil milhões a bancos insolventes apoiados por um Estado insolvente, deixa de ser um credor: passa a ser o proprietário. Chegará o momento em que o BCE terá que substituir nas contas dos bancos irlandeses "Empréstimo de Emergência" por "Capital". Quando vai optar por fazê-lo é problema seu, não nosso.

O alçapão da falência

De uma só cajadada, o Governo irlandês pode reduzir a sua dívida para metade, com a qual é possível sobreviver, 110 mil milhões de euros. O BCE não poderá retaliar junto dos bancos irlandeses, sem fazer disparar um pânico catastrófico em Espanha e no resto da Europa. A única resposta que a Europa pode dar passa por cortar o financiamento ao Governo irlandês. Por isso, a segunda vertente da sobrevivência nacional é o equilíbrio imediato do orçamento do Governo.

O corte total e imediato do financiamento externo não é indolor, mas é a única maneira de nos desembaraçarmos dos agiotas que pretendem transformar-nos num exemplo. Ao equilibrarmos o orçamento imediatamente, chamamos a atenção para o facto de que os problemas da Irlanda derivam quase exclusivamente das atividades de seis bancos privados, e ficamos livres para nos afastarmos dessas instituições tóxicas. Igualmente importante será o sinal enviado ao resto do mundo de que a Irlanda – que há 20 anos mostrou como um pequeno país poderia sair da pobreza através da energia e do trabalho árduo dos seus habitantes, mas que se deixou cair nas mãos de ladrões e de renovadores políticos – está de volta.

Claro que todos sabemos que isto nunca irá acontecer. Os políticos irlandeses estão demasiadamente habituados a ser recompensados por Bruxelas para começarem a lutar contra ela, mesmo numa situação de sobrevivência nacional. É mais fácil deixarmo-nos levar de olhos fechados até que o nó se aperte nos nossos pescoços e nos empurrem pelo alçapão da falência.