Nos jardins de Albia, em Bilbau, uns 50 manifestantes idosos caminham lentamente sob os plátanos. Na sua maioria mulheres de rostos austeros, erguem no ar cartazes com fotografias. Trata-se de uma manifestação pacífica mas os rostos das fotos – de filhos, filhas, maridos, esposas e irmãos detidos – são os rostos da ETA, a organização separatista basca que, nas últimas quatro décadas, matou 800 pessoas, em ataques bombistas e a tiro. As fotos mais recentes, os rostos mais jovens, incluem muitas mulheres, que se encontram actualmente na prisão por crimes relacionados com a ETA.

Para a maior parte dos espanhóis, os membros da ETA são terroristas sedentos de sangue. Para aqueles que empunham fotografias, nos jardins de Albia, eles são "presos políticos" ou "patriotas". "Porque matámos alguns inimigos do nosso povo? Porque eles nos obrigaram." É assim que Manuel, tio de Irantzu Gallastegui, uma mulher que participou no infame rapto e assassinato do jovem conselheiro municipal basco, Miguel Angel Blanco, coloca a questão.

Hoje, a frágil liderança da ETA encontra-se maioritariamente em França, do outro lado da fronteira. As esquadras de polícia de todo o Sul de França, têm afixados nas paredes cartazes com os rostos de seis membros, "Os Mais Procurados". Quatro são rostos de homens – capturados desde que o cartaz foi impresso, há 15 meses. Os outros são rostos de duas mulheres que continuam a monte: Iratxe Sorzabal e Izaskun Lesaka.

O equilíbrio de sexos que o cartaz reflecte é um sinal de mudança profunda, numa organização com raízes católicas e conservadoras. A ETA já foi um mundo de homens. Durante anos, o papel público das mulheres era sobretudo o de mães chorosas, junto às sepulturas dos activistas do sexo masculino. "Eram vistas como as guardiãs da chama", diz Jesus Casquete, da Universidade do País Basco.

Iratxe Sorzabal e Izaskun Lesaka são a prova do longo caminho desde então percorrido pelas mulheres da ETA. Ligada ao grupo há mais de uma década, Sorzabal, agora com 37 anos, foi presa em França em 1997 e ficou detida por dois anos, depois de ter sido apanhada com dois homens armados da ETA, numa quinta que pertencia a separatistas bretões. Regressada a Espanha em 1999, foi professora de Euskara, em Irun, e porta-voz dos presos da ETA. Detida e depois libertada em 2001 – não havia provas suficientes que fundamentassem a alegação de que ela era membro de um comando da ETA – fugiu para França, tendo realizado várias fugas milagrosas, ao contrário de outros camaradas "Mais Procurados". Em Fevereiro, Sorzabal e o então chefe de operações da ETA, Iurgi Mendinueta, destruíram um carro que tinham roubado. Antes de fugirem, cavaram um buraco por perto, para esconder um computador portátil. Havia nele uma fotografia de Sorzabal com uma criança. Não é a primeira mulher operacional da ETA a criar filhos com nomes falsos, em pequenas cidades francesas.

Alguns especialistas incluem-na entre os falcões da ETA – aqueles que acreditam que os assassinatos têm de continuar, para que o sonho de um estado basco, integrado por quatro províncias espanholas e parte do sudoeste de França, se torne realidade. Sorzabal figura agora entre os melhor posicionados para ocupar o lugar de Mendinueta.

Izaskun Lesaka, de 34 anos, talvez tenha uma posição superior na hierarquia da ETA. Fugiu de Espanha em 2002. As informações recentes a seu respeito são escassas. Algumas delas indicam que será a autora dos comunicados da ETA e uma das três pessoas que exercem o controlo político do grupo e dão ordens aos comandos.

Poucas mulheres chegaram tão longe. "O caminho para a liderança passa pelo envolvimento em comandos activos", diz a historiadora Carrie Hamilton. "Era inevitável que, a certa altura, algumas assumissem posições de liderança."

As estatísticas e alguns indícios casuais mostram que a situação mudou rapidamente depois de 2002, quando apenas 12% dos detidos membros da ETA eram mulheres. Em 2009, esse número aumentou para perto de 25%. Se as detenções mais recentes forem consideradas como um indicador, a proporção situar-se-á agora mais perto de metade, o que não surpreende muitos. As mulheres estiveram presentes na ETA desde o começo, embora quase sempre em papéis de retaguarda. Dirigiam abrigos, escondiam activistas e ocultavam armas. Seguiam políticos ou polícias quando estes iam à missa, sentando-se decorosamente nas filas mais recuadas das igrejas.

As primeiras mulheres que se juntaram aos comandos descobriram que o seu género era um obstáculo. A mais conhecida foi Idoia López Riaño, La Tigresa [tigre fêmea], uma pistoleira fascinante, de olhos verdes, que a polícia, os jornalistas e alguns antigos companheiros arrependidos descreveram como uma devoradora de homens e um monstro assassino. A lenda diz que andava pelas discotecas, à procura de polícias jovens para engates de uma noite, e que, depois, alguns dias mais tarde, abatia outros a tiro. Está presentemente a cumprir uma pena de 30 anos de prisão, por 23 homicídios. "Costumava queixar-se de que as mulheres tinham de dar o dobro das provas dos homens", contou um antigo companheiro de armas.

Ao longo da última década, surgiu uma nova tendência. O primeiro símbolo de mudança foi Olaia Castresana, de 22 anos, professora num infantário, de San Sebastian. Durante a semana, tomava conta de crianças com menos de seis anos; nos fins-de-semana e nas férias, fazia ir pelos ares coisas e pessoas, pela ETA. Acabou por lhe explodir nas mãos uma bomba, na estância de Torrevieja, em 2001. A força da explosão atirou pedaços de alvenaria e restos humanos para dentro de uma piscina das proximidades. Castresana tornou-se uma nova "mártir" e, mais tarde, a ETA deu o seu nome a um comando.

Pouco depois, a polícia apercebeu-se de um aumento do número de mulheres da ETA. Algumas, como Soledad Iparraguirre, lideravam comandos. Iparraguirre tinha um estatuto lendário entre a polícia espanhola, por ter jurado vingança depois de o namorado ter sido abatido durante um tiroteio com as forças da ordem, quando ela tinha 20 anos. A polícia localizou-a em 2004, juntamente com o companheiro e dirigente da ETA Mikel Albisu, numa quinta francesa. Descobriram o filho do casal, de 8 anos, conhecido como Pierre.

No dia 19 de Junho, o dia do assassinato do inspector Eduardo Puelles, oficial superior da polícia antiterrorista, a vida segue o seu curso normal no bar Herriko Taberna, em Bilbau, frequentado pelos separatistas. Três filas de fotos a cores estão penduradas nas paredes: as 24 pessoas só deste bairro, que se encontram na prisão. Sete são mulheres. A rapariga do balcão admite que as conhece mas não quer falar. "Eu também já estive presa", explica, enquanto vai enchendo copos de cerveja. "Não quero correr o risco de arranjar problemas."