Imagine que sou um marciano acabado de chegar à Terra e que não sei nada sobre o Médio Oriente. Como me explicaria o que está a acontecer neste momento no mundo árabe?

É uma grande movimentação popular pela democracia e liberdade, independência e direitos humanos. E acontece pela primeira vez desde a queda do Império Otomano. Todos os países árabes, de uma maneira geral, nasceram a partir da desintegração desse império [início do séc. XX]. Alguns têm uma história separada enquanto Estado-nação, como o Irão, a Turquia e, até certo ponto, a Arábia Saudita; mas a era colonial teve um impacto imenso sobre a política interna. Assim, surgiram estruturas estatais autoritárias, porque os novos Estados tiveram de forjar uma ideia do que significa ser-se sírio, iraquiano, jordano, etc. As rebeliões têm raízes no interior das próprias sociedades e exigem um novo tipo de política. Há novas estações de televisão bastante independentes, o que também é novo na região. Graças a elas, foi possível o germinar de um novo tipo de consciência política, uma nova compreensão da política e, por conseguinte, novas exigências. Trata-se de pedir contas aos que ocupam o poder e de exigir justiça social.

Quer isso dizer que as sociedades árabes estão agora a superar esse legado de autoritarismo? O que aconteceu de facto?

Para entender o fenómeno do autoritarismo na região, temos de perceber que se trata de países herdeiros de um período violento de colonialismo e, em seguida, de resistência pós-colonial. Os líderes militares instalaram-se no topo, e não houve qualquer estrutura de Estado organicamente desenvolvida. Na Europa, estas estruturas têm evoluído ao longo dos séculos. Houve a Revolução Francesa, duas guerras mundiais, Hitler, Mussolini, Franco. A sociedade civil, na Europa, desenvolveu-se muito lentamente, fazendo surgir uma democracia testada, comprovada e viável. Já o mundo árabe não teve esse “luxo de ter uma história”. Mas, agora, as estruturas que cresceram de baixo para cima revoltaram-se contra a autoridade do Estado e a sua soberania. Não há como voltar atrás.

O que significam as revoluções árabes para a Europa?

Abrem-se muitos desafios estratégicos e de segurança, porque o panorama político está a mudar. Há governos emergentes que vão dar mais atenção aos anseios das suas sociedades e há sociedades emergentes que exigem uma política externa independente do Ocidente. Não é por acaso que o Egito e a Tunísia não apoiam a intervenção na Líbia. O Egito prepara-se para reatar relações com o Irão, o que, até agora, era um completo tabu. A UE e os EUA terão de se preparar para situações que irão surgir na região, que controlarão muito menos do que faziam até ao ano passado. Aqui, encontramos algumas semelhanças com a América Latina, onde os regimes já foram muito mais dóceis em relação ao Ocidente. Tal como já não são possíveis intervenções imperialistas nos assuntos internos desses países, vão também deixar de ser possíveis na região Ocidental da Ásia.

É uma espécie de segunda vaga de descolonização? Menor influência política direta do Ocidente, mas, apesar de tudo, maior influência das ideias ocidentais?

Sem dúvida. Afinal, não se manifestou abertamente nenhum antiamericanismo nas revoluções árabes. A Turquia coopera com a Europa, apesar de prosseguir também objetivos próprios. Pessoalmente, acho que é uma evolução positiva. Ou seja, contribui para a causa da paz em toda a região. No Médio Oriente, precisamos de uma estratégia de segurança que não esteja ao serviço dos interesses de entidades exteriores.

Como avalia as políticas do Ocidente em relação às revoluções árabes?

A União Europeia devia ter uma política muito mais independente dos EUA do que tem tido até agora. Isso tem-se manifestado em muitos aspetos, nomeadamente sobre o Iraque, o conflito israelo-palestiniano e, mais recentemente, o Irão. A Europa deve pautar-se pelos seus próprios interesses. O Irão terá de ser levado à mesa das negociações. A política de marginalizar e punir o país falhou. O projeto nuclear iraniano é imparável e não há solução militar. Todos sabem isso. E a União Europeia é melhor parceiro para esse diálogo do que os EUA, porque não tem o mesmo lastro de bagagem histórica. As considerações estratégicas também desempenham um papel nisto. Por exemplo, como vamos transportar petróleo e gás natural do Afeganistão, no futuro? Não seria melhor passar o gasoduto através da Índia, Paquistão e Irão do que pela Rússia? Da mesma forma, a intervenção na Líbia foi um erro. A Europa está estreitamente ligada ao mundo islâmico e árabe e tem que admitir isso.

Se a intervenção na Líbia foi um erro, acharia preferível que a Europa não tivesse avançado para ela? Mesmo que isso significasse ficar a assistir enquanto Kadhafi massacrava a oposição?

Se tivesse sido possível no início organizar uma conferência que reunisse os intervenientes regionais, sentando Kadhafi e a oposição à mesma mesa, esse teria sido o caminho certo. Se tivesse havido uma iniciativa diplomática no começo, acho que Kadhafi não teria reagido como acabou por fazer. Quando se perspetiva outra solução, hesita-se em massacrar a própria população. A intervenção militar, pelo contrário, tornou pior a violência na Líbia. Não é possível subjugar pessoas bombardeando-as ou intervindo militarmente para criar uma nova situação. Quem acha que está a defender o regime de Kadhafi? Ele continua a ter apoios. Não está só a contratar mercenários. O que vai acontecer aos sobreviventes desse regime? A diplomacia estratégica é que pode resolver o impasse.

A Líbia é, portanto, outro Iraque para o Ocidente, só que mais próximo das fronteiras da Europa?

Ninguém sabe exatamente o que é o movimento do leste da Líbia. Está longe de ser integrado apenas por liberais e democratas. Há muitas forças tribais diferentes, com projetos próprios, e há também jihadistas. A Al-Qaeda regozija-se com esta situação, porque estes acontecimentos integram-se perfeitamente na sua visão mundial do conflito entre o Islão e o Ocidente. Uma solução militar não conduz a um final feliz.