Com as crises e a falência de Estados a multiplicar-se, crescem na Europa as revoltas dos indignados: Grécia, Espanha e também na Itália, onde a falência é, para já, apenas uma ameaça. Os governos tendem a ver apenas o lado negro da revolta: a dolorosa tomada de consciência da realidade, a raiva quase cega.

Mas a cegueira não explica senão uma pequena parte de uma rebelião que não visa apenas o conteúdo, mas as formas de comportamento (e, portanto, a ética) dos governos: a sua navegação à vista, colada à próxima sondagem ou votação, a sua vocação para dissimular contas públicas periclitantes, o camuflar da verdade sobre a imigração ou sobre os défices, as acusações à imprensa, aos bancos centrais, à Europa, a todos os suspeitos de espalharem notícias negativas.

Responder à crise com transparência de informação

Nesta matéria, a Itália leva a palma. Desde que voltou ao Governo, Berlusconi repete o mesmo refrão: a ruína está nas vossas cabeças, bando de derrotistas – estamos a portar-nos melhor do que muitos países cumpridores. Em 20 de junho, afirmou que "a crise ainda não acabou”. Mas nunca tinha anunciado o seu início.

Não esqueçamos que uma das iniciativas mais interessantes dos Indignados espanhóis tem a ver com a informação. Foi tomada pelo professor de Ciências Políticas Antón Losada, e intitula-se "Sin preguntas no hay cobertura" (#sinpreguntasnocobertura no Twitter). Aderiram milhares de jornalistas. Se uma conferência de imprensa não admite perguntas incómodas, deve ser boicotada e o poder que fique sozinho com as suas promessas titubeantes. Isto indica que, nesta revolta, há uma exigência premente de verdade e justiça. Não se responde à crise impondo aos cidadãos que apertem mais o cinto e incutindo nas pessoas medos incongruentes; responde-se com transparência de informação: sobre os impostos que não podem baixar, sobre a fraca demografia que só a imigração pode colmatar, sobre os ingredientes do crescimento que são a justiça, a legalidade, o mérito, o preço que podem pagar os ricos e os mais afortunados.

No seu editorial de 15 de junho, Nikos Konstandaras, diretor do diário grego Kathimerini, fala do "charme impossível da solidão": a ilusão de que, se os Estados fecharem os olhos em vez de enfrentarem a Europa, o mundo, os mercados, a crise não vão estourar. É verdade que os mercados são animais estranhos: podem descontrolar-se até à histeria – têm sede de sangue. Têm uma visão muito curta, mas não preveem desastres de forma completamente aleatória: tiram o retrato a um governo num determinado momento e extraem as suas conclusões. São o nosso segundo tribunal, juntamente com as urnas eleitorais.

A res pública além fronteiras

Esconder-se não é política, nem fingir ser Estados soberanos, que decidem sozinhos e ignoram a existência de um espaço público europeu pelo qual somos tão responsáveis como pelo da nação. Há hoje uma res publica além-fronteiras que tem as suas regras e cujos dirigentes não são emanações de governos, respondendo perante instituições mais amplas. Tomemos como exemplo a nomeação de Mario Draghi para a presidência do Banco Central Europeu (BCE). Uma escolha irrepreensível, mas que foi feita da maneira mais confusa e arcaica: em troca dessa nomeação, Nicolas Sarkozy exigiu que fosse dado a Paris um assento no executivo do BCE e Berlusconi ofereceu-lhe a cabeça de Lorenzo Bini Smaghi [membro do conselho do BCE], como se fosse um representante seu e não um dirigente da União Europeia.

O mandato de Lorenzo Bini Smaghi, eleito em 2005 por oito anos, termina em 31 de maio de 2013 e não pode ser revogado por qualquer dos Estados-membros nem por acordos entre Estados. Esta bofetada não lhe foi dirigida a ele, mas às instituições europeias a quem deve lealdade. O caso cria ainda um precedente preocupante: cada Governo pode agora decidir retirar mandatos e substituir regras da jurisdição europeia. A violação do Tratado de Maastricht, justificada por uma chamada "regra não escrita entre os Estados", é evidente.

Autonomia da Comissão Europeia

Mais uma vez, faltaram informações transparentes e reconhecimento do espaço público europeu. Tal como não há transparência em relação aos impostos que não se podem baixar e à imigração de que precisamos, económica e demograficamente.

Estes equívocos são em grande parte imputáveis à União Europeia, à inércia dos seus dirigentes, submissos aos Estados-membros. Mais uma vez, não se ouve falar verdade. E é por um excesso de relações de cortesias e deferências absurdas para com os países mais fortes que a Europa se vê confrontada com as bancarrotas atuais, escreve o ex-comissário europeu Mario Monti, num artigo muito esclarecedor, publicado no Financial Times em 21 de junho. E há tantas questões em que a União poderia fazer valer a sua palavra, a começar pelas missões de guerra, erroneamente chamadas “de paz”.

Uma Comissão Europeia autónoma, consciente da sua autoridade, saberia reagir a estes eventos (caso Bini Smaghi, dívidas soberanas, guerras), como no tempo de Walter Hallstein. O primeiro chefe do Executivo de Bruxelas não hesitou em refutar as exigências de De Gaulle, no final dos anos 1960, em nome da nascente res publica europeia. Foi um "perdedor indigitado", mas há derrotas que salvam – se quisermos realmente salvá-las – as instituições humilhadas.