2º DIA: DILEMA DO TRANSFER

À chegada a Londres, é possível encontrar em pleno voo bilhetes de comboio, reembolsáveis, para ir à capital britânica: 16 libras (18 euros), uma viagem, em vez das 21 libras (24 euros) para o aeroporto de Stansted. O percurso demora 45 minutos. Duas vezes menos que a viagem de autocarro, mais barata (9 libras [10 euros]). Dilema do viajante que embarca em Franhfurt: gastar o mesmo que um bilhete de avião (27 euros) para visitar o centro de Londres (e regressar) é o cúmulo; tal como passar mais tempo em transportes públicos do que no ar (1 h 10). Optamos pelo autocarro. E por… 1 h 40 de acordeão até à Victoria Station. O low cost também é isso, explica-nos Simon Rajbar, 24 anos, estudante eslovano (de Jornalismo), que abordámos a meio de uma viagem de longo curso – Berlim-Edimburgo e Glasgow-Londres-Veneza – pelo valor total de 110 euros: "Dos onze dias que tenho de férias, dois e meio são inteiramente gastos em voos e nos vários transportes de um lado para o outro."

Simon é, simultaneamente, um adepto da companhia irlandesa – que apanha em Graz, Veneza e Zagreb (a Eslovénia não é incluída) – e o seu primeiro detrator: "Sem a Ryanair, nunca poderia viajar tanto pela Europa. Também percebo que possa haver contrapartidas aos preços cobrados e não me importo. Mas do que eu não gosto é que estejam à espera de um engano teu, na reserva, por exemplo, para te obrigarem a pagar mais. Não é uma relação transparente."

De regresso a Stansted (de comboio, pois claro), impõem-se uma visita ao aeroporto. O local é o principal aeroporto da Ryanair: 109 destinos à escolha num catálogo de 165 referências. Um curso simultâneo de geografia e poesia: Onde será que fica Haugesund, Skelleftea, Lappeenranta, Lamezia e a impronunciável Bydgoszcz ? Stansted é também o único aeroporto do mundo a propor, à quarta-feira, um voo para Bergerac às 15 h 15 e um outro para La Rochelle às 15 h 20. É igualmente um gigantesco centro comercial recheado de lojas e restaurantes.

Para os viajantes imprudentes, há terminais de Internet que oferecem a impressão dos cartões de embarque por 4 libras (4,50 euros), no mínimo. Meter meia libra (60 cêntimos) numa balança para pesar a mala. E o dobro numa máquina automática de mini-sacos de plástico para os champôs e demais dentífricos que é preciso isolar. Uma libra (1, 10 euros) cada saco de congelação, recorde do mundo!

O avião para Riga parte dentro do horário. E chega ao destino com 20 minutos de avanço. Como sempre, em casos semelhantes, um ar de cavalaria ressoa nos altifalantes do 737 para celebrar esta vitória da pontualidade. "The on-time airline" – é o slogan – orgulha-se de ser a campeã do género, com mais de 90% dos voos à tabela. Todos os esforços recaem sobre a pista: quanto menos um aparelho estiver parado depois da aterragem, mais roda. De relógio em punho (aquele que desintoxica e favorece a meditação), cronometramos, no dia seguinte em Dublim, o tempo necessário ao pessoal de bordo para limpar o avião e acolher os primeiros passageiros do voo seguinte: seis minutos. A ausência de porta documentos nas costas dos bancos favorece esta operação digna de uma troca de pneus num circuito de F1. O que mais impressiona é que os aviões estão prontos quando embarcamos.

3º DIA: HUSSARDOS EM PLENO CÉU

Riga é conhecida, especialmente pelos edifícios Arte Nova do arquiteto Mikhaïl Eisenstein (pai do cineasta). Destino low cost muito concorrido, a cidade é animada ao fim de semana pelos turistas ocidentais atraídos pela bebida barata e pela beleza das letãs. No aeroporto, nesse dia, há um grupo que faz sensação: uma dúzia de passageiros vestidos de… hussardos Primeiro Império. São russos e preparam-se para viajar até Charleroi, para seguirem para Waterloo para a reconstituição anual da batalha de 1815. Cheios de vigor, transpiram dentro dos dólmenes e das barretinas. Por que diabo não mandaram as fatiotas na bagagem? Pois claro! "Para economizar", diz um deles. A 20 euros o quilo de excesso de bagagem, vale mais carregar nos ombros do que nas malas…

Vindos de São Petersburgo de carro, ou de Moscovo, de comboio, levaram todos umas doze horas a chegar ao terminal Ryanair mais próximo. A viagem à Bélgica vai custar a cada um 250 euros, ida e volta, tudo incluído. "Quatro vezes menos do que de avião da Rússia. A viagem também é mais rápida. Dantes, eram três dias e três noites de carro para chegar", conta o responsável do grupo, Oleg Sokolov. Auguste, com o bicorne da época, é historiador especialista em batalhas napoleónicas e não esconde a sua satisfação de chegar "a 16 de junho a Charleroi": "Tal como Napoleão, quando começou a campanha."

Hussardos em pleno céu, por que não? Vetores da democratização aérea, os meios-correios da Ryanair mexem nas populações mais variadas que se possa imaginar. Atletas em trânsito, amantes enamorados, grupos de reformados à busca de sol, homens de negócios, famílias numerosas, religiosos… A empresa irlandesa seduz mais do que a clientela histórica, os jovens sem dinheiro nenhum, que são o seu núcleo duro. Visitar, nos países de origem, estudantes do programa Erasmus viajando com a Ryanair é um clássico, como nos explicam vários "trota-mundos" que conhecemos em viagem.

O que surpreende mais nem é a diversidade dos passageiros, mas a sua desenvoltura a bordo: ligar o telemóvel, ou levantarem-se antes da paragem do avião é moeda corrente na Ryanair. Como se viajar em low cost desse autorização a novas liberdades… Outro hábito: aplaudir o piloto, mesmo quando a aterragem não é boa. O pessoal de bordo, por seu turno, faz o que pode. O seu papel assemelha-se mais ao de um vendedor ambulante do que a hospedeiras e comandantes de bordo que velam pelo bem-estar dos passageiros. Vê-los comer, ao fundo do avião, comida trazida de casa em tupperwares, mete dó. Impressão depressa modificada pela leitura da revista da empresa: todos os meses aparece um deles em fato de banho…

Daí a boicotar a companhia? "A maior parte dos viajantes não faz ideia das condições de trabalho dos assalariados e, mesmo que fizesse, ser-lhe-ia indiferente", estima Guillaume D’Agaro, artista plástico de 25 anos, que encontrámos no aeroporto de Charleroi, vindo de Cracóvia. "A questão moral está muito para além do preço do bilhete. É muito difícil resistir a este tipo de ofertas quando se é estudante, jovem assalariado, ou reformado. A Ryanair representa a nossa sociedade “globalizante” e capitalista, onde tudo se compra e se consome em detrimento do aspeto humano. Esta ideologia conquista a maneira de pensar das pessoas que talvez prefiram dizer, nem que seja uma vez, que lucram com isso." E ele? "Não tenho alternativa. Só consigo viajar pela Ryanair e companhias afins, por razões puramente financeiras."

Continua...