Ouvimos dizer, muitas vezes, que a zona euro não é aquilo a que se pode chamar uma união monetária ótima. É justo. O valor dos salários é muito rígido, a produtividade e a competitividade diferem muito de país para país, as políticas económicas nacionais impedem qualquer evolução e Bruxelas não é capaz de socorrer os que verdadeiramente precisam. Mas pode uma união monetária ser realmente ótima?

Os pequenos países europeus – e somos todos pequenos, incluindo aqueles que ainda não se deram conta de tal – apresentam desequilíbrios regionais importantes, que são mais ou menos atenuados através da transferência [de riqueza] e de subsídios de Bruxelas. Caso contrário, como continuariam unidos o Norte e o Sul de Itália, como é que Flamengos e Valões podem continuar a avançar unidos, como é que o Norrland [Norte da Suécia] sobreviveria sem Estocolmo?

O canalizador polaco que rouba o pão dos franceses

A crise da dívida europeia expos brutalmente a fraqueza do euro. Os Estados soberanos e as tradições históricas e culturais que arrastam atrás de si podem tornar o problema insolúvel. A Comunidade Europeia faz-se chamar ‘união’ enquanto continua a parecer mais uma confederação no sentido clássico do termo – a história já nos mostrou que este é um modelo político que nunca funciona.

O que não funciona na Europa funciona, no entanto, numa federação como os Estados Unidos. E isto tem a ver, nomeadamente, com um parâmetro fundamental, que é a mobilidade. Por trás deste eufemismo escondem-se, naturalmente, pessoas como o leitor e eu. Durante alguns anos vivi na Virgínia, uma região particularmente rica e próspera dos Estados Unidos. Mas bastava-me percorrer alguns quilómetros e pôr os pés na Virgínia ocidental para descobrir terras totalmente abandonadas. Toda a gente se tinha ido embora. Havia trabalho noutro lado. Podemos pensar o que quisermos, mas é com isto que se parece um mercado de trabalho dinâmico.

Daqui não saímos! Era este o slogan, quando eu era novo. O grito de guerra dos rebeldes do Norrland, numa época em que era evidente que o trabalho estava noutro lado – no Sul, sempre. Temo que esta seja uma reação tipicamente europeia. O canalizador polaco que tenta pensar de outra maneira é acusado, em França, de roubar o pão dos franceses. Na Europa, o facto de ir para onde há trabalho é considerado pelos cidadãos como uma contrariedade, quase um insulto e, pelos poderes públicos, como um êxodo.

Na melhor das hipóteses, o trabalhador europeu pode ir para o estrangeiro por um período limitado e, quando o faz, é geralmente com a firme intenção de, um dia, regressar ao seu país. E é aí que manda construir uma casa de pedra que, se tudo correr bem, será herdada pelas gerações futuras. Uma casa que resista às tempestades e às inundações como aquelas que, nos Estados Unidos, destroem as barracas a que ali chamam casas, mas que são o preço dessa mobilidade que não existe na Europa.

Uma cacofonia de línguas

Na Virgínia, conheci agricultores que ficavam surpreendidos quando lhes perguntava há quantas gerações aquelas terras estavam na sua família. Para eles, aquelas terras eram um ‘business’ [negócio] como qualquer outro. Já tinham sido donos de três ou quatro explorações aqui e ali nos Estados Unidos, tinham experimentado a criação de gado, a plantação de milho e de oleaginosas. O conceito de domínio familiar é-lhes desconhecido. Uma tal mobilidade causa vertigens e mete medo aos europeus.

Bem entendido, não somos agricultores. Mas esquecemo-nos que milhões e milhões de europeus, ainda não há muito tempo, fizeram as malas e emigraram para os Estados Unidos e, na grande maioria dos casos, não voltaram. Os chineses, os indianos e os americanos (no seu próprio país) ainda vivem segundo este modo de vida. Mas tenho a impressão que um tal pragmatismo nos é estranho, na Europa.

A zona euro deve, agora, tornar-se uma verdadeira federação supranacional, tendo à cabeça o país que ganhou a guerra perdendo-a – a Alemanha. Caso contrário, a zona euro desmoronar-se-á em pedaços, o que equivalerá a uma renacionalização. Se nenhuma destas opções é particularmente desejável, a segunda assusta-me muito mais do que a primeira.

Ora, não somos suficientemente móveis para escolher a primeira. E nem sequer mencionei a cacofonia linguística que, mais do que qualquer outra coisa, nos confina ao nosso país de origem. Tenho um vizinho croata que é empresário da construção civil e que emprega, atualmente, operários romenos nos seus estaleiros. São uns tipos notáveis, confidenciou-me ele. Trabalhadores e competentes. E, no entanto, a coisa não funciona. Os operários não percebem o que ele lhes diz e ele, por seu lado, também não os consegue entender.