A data da entrega dorela´tório da comissão sobre o desempenho económico e o progresso sociala Nicolas Sarkozy foi cuidadosamente escolhida. Segunda-feira, 14 de Setembro, ou seja um ano após a queda do banco americano Lehman Brothers – acontecimento que precipitou o mundo na crise –, e alguns dias antes da reunião do G20 de Pittsburgh e da Assembleia Geral das Nações Unidas, onde os Chefes de Estado tentaram chegar a acordo sobre as novas regras do jogo económico.

No seu discurso de abertura da conferência internacional organizada na segunda-feira na Sorbonne para apresentação oficial do relatório, o Chefe de Estado apelou a uma revolução estatística que permita "sair da religião dos números". Sarkozy pretende, aliás, defender esta mensagem em Pittsburgh e nas Nações Unidas.

O relatório, que teve três mentores Joseph Stiglitz, Amartya Sen – ambos Prémio Nobel da Economia – e Jean-Paul Fitoussi, presidente do Observatório Francês de Conjuntira Económica (OFCE), propõe que se desenvolvam novos instrumentos de medida da riqueza das nações.

A ideia-chave dos trabalhos é pôr mais a tónica na medição do bem-estar da população, e não na da produção económica. Assim, ao produto interno bruto (PIB), preferir-se-á o produto nacional líquido (PNL), que tem em conta os efeitos da depreciação do capital em todas as suas dimensões: natural, humana, etc.

O objectivo é pôr termo às aberrações do PIB: por exemplo, aumenta no caso de catástrofe natural, graças às despesas de reconstrução, mas o custo da catástrofe, esse, não é contabilizado.

Sustentabilidade

Quando Sarkozy anunciou, em Fevereiro de 2008, a criação da comissão, composta por duas dezenas de peritos mundiais, visava três objectivos: reconciliar os franceses e, mais genericamente, os cidadãos do mundo com as estatísticas, que, na sua opinião, reflectem mal a realidade da sua vida quotidiana; fazer face à situação de emergência ecológica; dar aos políticos instrumentos de medida relevantes para a acção.

As "doze recomendações" da comissão confirmam a insuficiência dos sistemas contabilísticos actuais, que não serviram de alerta no que diz respeito à crise: "Quando os instrumentos de medida sobre os quais assenta a acção são mal concebidos ou mal compreendidos, ficamos praticamente cegos."

Os peritos insistem na necessidade de deixar de privilegiar o curto prazo, preferindo o conceito de "sustentabilidade", ou seja, a capacidade de uma economia manter ao longo do tempo o bem-estar da sua população.

Para isso, está tudo por fazer. Com efeito, não pode a França alterar sozinha a sua contabilidade nacional: o movimento tem de ser internacional. A partir do Outono, estão programadas reuniões entre responsáveis dos organismos ligados à estatística: Fundo Monetário Internacional (FMI), Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE), Instituto Nacional de Estatística e Estudos Económicos de França (Insee), Eurostat, etc. Mas é uma harmonização que corre o risco de demorar muito tempo.

Para vários membros da comissão, entre os quais o economista francês Jean Gadrey, o debate não deve permanecer nas mãos dos peritos. Daí a vontade de lançar um debate público do tipo do que sucedeu com o Grenelle Environement [pacto político ecológico começado a aprovar nas instâncias legislativas francesas em 2008], a fim de lhe associar a sociedade civil.